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	<title>Sararau &#187; Literaturas Africanas</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 21:26:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>

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		<description><![CDATA[(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)
É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)</strong></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/05/joaomelo-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" />É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha &#8220;primeira&#8221; vida literária.<br />
Devo também esclarecer que, na verdade, não me concebo como um &#8220;escritor de laboratório&#8221; ou, como parece uma tendência actual, um &#8220;escritor de conferências, seminários e capas de revista&#8221;. O que eu sou como escritor resulta, desde logo, de todas as minhas vivências.</p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>&#8220;A linha da poesia é a linha da vida&#8221;</strong></span></p>
<p>O verso em epígrafe fecha o meu poema &#8220;Manifesto&#8221;, incluído pela primeira vez no livro <strong>Todas as Palavras</strong>. O mesmo resume, digamos assim, a minha atitude estética.</p>
<p>Não tenho dúvidas de que o meu ambiente familiar me ajudou a encontrar os caminhos que tenho trilhado, quer na vida quer na literatura. Sou filho de um jornalista e nacionalista &#8211; Aníbal de Melo &#8211; que um dia me disse que eu, se quisesse escrever, teria de ler Eça. Felizmente, obedeci-lhe. Além disso, tenho dois tios maternos que fazem parte da história da literatura e das artes plásticas angolanas (além da luta nacionalista): Henrique Guerra e Mário Guerra, ambos ligados à revista Cultura.</p>
<p>Começei a escrever aos 15 anos de idade, por causa, como gosto de dizer, de uma viagem de comboio. O que aconteceu é que, numa viagem entre Luanda e Malanje, a visão espantosa e exuberante da floresta tropical no Morro do Mbinda, perto da hoje cidade de Ndalatando, impressionou-me de tal maneira que, no regresso a casa, começei a escrever de repente, até hoje.</p>
<p>Em 1973, com 17 anos de idade, publiquei os meus primeiros textos, numa revista luandense chamada <em>A Semana Ilustrada</em>. Nesse mesmo ano, fui para Coimbra estudar Direito, depois de ter concluído o segundo ciclo no Liceu Salvador Correia, em Luanda. A viagem para Lisboa, no paquete &#8220;Vera Cruz&#8221;, é uma das minhas memórias mais fortes. O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Coimbra e, a partir daí, a minha vida entrou num processo de transformações absolutamente radicais, proporcionando-me uma série de experiências extraordinárias.</p>
<p>Após o 25 de Abril, conheci em Coimbra o escritor angolano Manuel Rui Monteiro, a quem mostrei os meus primeiros poemas. Ele interessou-se em publicá-los em livro na editora Centelha, mas isso nunca chegou a suceder. Outras urgências me chamavam, assim como a todos os jovens angolanos de então.</p>
<p>Voltei para Angola no dia 1 de Dezembro de 1974, obedecendo mais uma vez à voz do meu pai, que me telefonou de Luanda logo depois de ter regressado do exílio onde tinha estado de 1961 a 1974, combatendo pelo MPLA. Respondia também, juntamente com outros jovens angolanos que, na altura, estudavam em Coimbra e Lisboa, a um apelo de Agostinho Neto, líder do MPLA. Foi a minha primeira viagem de avião. Uma curiosidade: viajei com um bilhete arranjado pelo major Melo Antunes, a pedido do falecido médico e nacionalista angolano Arménio Ferreira.</p>
<p>No dia 8 de Março de 1975, começei a trabalhar na então Emissora Oficial de Angola (hoje Rádio Nacional), como jornalista. Estive na referida estação até Março de 1978, quando fui para a agência de notícias de Angola, ANGOP, primeiro como director adjunto e depois como director geral. Em Dezembro desse ano, passei também a dirigir o <em>Jornal de Angola</em>, em regime de acumulação. Tinha então 23 anos de idade.</p>
<p>Exerci esses cargos até 1982, ano em que fui trabalhar para o MPLA, como chefe da secção de Informação Internacional. Dois anos mais tarde, regressei à ANGOP, desta vez para abrir o escritório da agência no Brasil. Estive nesse país de Abril de 1984 a Dezembro de 1991, como correspondente de imprensa. Foi um período ao qual devo muito, em termos de crescimento humano, profissional e cultural. Aproveitei, inclusive, para me graduar e pós-graduar em Comunicação.</p>
<p>No início de 1992, já de regresso a Luanda, fundei a primeira agência de comunicação e lançei o primeiro jornal privado angolano do pós-independência, respectivamente, a Movimento e o <em>Correio da Semana</em> (este último não existe mais). Em Setembro de 1992, nas primeiras eleições realizadas em Angola, fui eleito deputado pelo MPLA, função que mantenho até o presente, pois fui reeleito no ano passado.</p>
<p>Desde 2000, começei a dar aulas de Comunicação em duas universidades locais. Há três anos atrás, voltei a lançar-me numa aventura jornalística: criei a revista <em>África 21</em>, que dirijo, com o apoio fundamental do jornalista português Carlos Pinto Santos.</p>
<p>Este, resumidamente, o meu percurso pessoal até agora. Não tenho dúvidas de que todas as minhas vivências e experiências estão presentes, de múltiplas formas, na minha obra literária. Eu tive a ventura de protagonizar ou acompanhar alguns acontecimentos extraordinários dos últimos 50 anos, em Angola e no mundo, o que, para um escritor, é uma benesse inegável.</p>
<p><span id="more-415"></span></p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>Vivências, experiências e literatura</strong></span></p>
<p>Confesso que tenho vivido, até agora, de maneira profunda e intensa, mas sem grandes alardes e procurando sempre, pretensiosamente, manter o controlo (para os que crêem nisso, sou virginiano). Como digo em &#8220;Auto-retrato em 3&#215;4&#8243;, &#8220;<em>Aqui esteve alguém que / silencioso / colheu o doce segredo das tempestades&#8221;</em>.</p>
<p>Também já tive algumas perdas. O meu pai morreu em circunstâncias trágicas, apenas seis dias depois da independência de Angola, pela qual fez todos os sacríficios. Depois da morte dele, dediquei-lhe um poema, &#8220;Contribuições para a definição de um herói&#8221;, onde escrevi que &#8220;herói também é / o que escolhe o seu tempo de morrer&#8221;. Tenho pena, até hoje, de não ter convivido mais tempo com ele, embora o meu padrasto, com quem cresci, sempre tenha sido, de facto, outro pai para mim e o meu irmão, Kiluxa.</p>
<p>A morte deste último (ele chamava-se António José, mas lembrar-me-ei dele para sempre como o Kiluxa, &#8220;nosso único guerreiro&#8221;, que enfrentou os zairenses e os sul-africanos, mas morreu inesperadamente em Luanda, por doença, aos 49 anos) foi outra grande perda, que ainda sofro presentemente. Enfim, perdi alguns amigos, assim como velhos amores e numerosas paixões.</p>
<p>Mas ainda tenho a minha família: a minha mulher, Stella, &#8220;meu novo amor para sempre&#8221;, os meus filhos, Helena, Solange, Mário e Matári, a minha mãe e o seu marido, João Gourgel, meu segundo pai, os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus tios e todos os meus primos. Não esqueço igualmente os meus amigos. Como sou um optimista e acredito na generosidade humana, estou convicto que são muitos. Quanto aos inimigos, apenas me dão mais vontade de continuar vivo e interventivo, política, cultural e socialmente.</p>
<p>Além disso, convivo, por força das múltiplas actividades com as quais estou envolvido &#8211; jornalismo, literatura, política, publicidade e ensino -, com uma série de homens e mulheres de todas as idades, profissões, estatutos, nacionalidades e origens. Todas as pessoas com quem, por uma razão ou outra, me tenho cruzado ao longo da vida estão presentes, de qualquer forma, nos onze livros de poesia e quatro de contos que publiquei até este momento.</p>
<p>Obviamente, as minhas vivências e experiências, por si só, não fazem de mim um escritor. Eu sempre intuí isso, mas aprendi-o de uma forma elaborada com Luandino quando lhe entreguei, em 1987, o meu livro <strong>Poemas de Amor</strong>. Disse-me ele:-&#8221;Literatura é mais do que experiência&#8221;. Felizmente, &#8220;captei a mensagem&#8221; e fiz várias mudanças no livro, eliminei alguns textos e reelaborei outros, até que, dois anos depois, o mesmo foi publicado pela União dos Escritores Angolanos.</p>
<p>De Luandino aprendi ainda outra lição: para escrever, é preciso ler. Confirmo que devo muito às minhas leituras. O primeiro deslumbramento aconteceu quando li na casa de Rui Mingas em Lisboa, em 1970, a <em>Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa</em>, organizada por Mário de Andrade. A poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Craveirinha e outros, a que tive acesso pela primeira vez nessa altura, revelou ao então adolescente de 15 anos qual o caminho a seguir.</p>
<p>Angola é o chão de onde eu, orgulhosamente, venho. É desse lugar (como se sabe, lugar é perspectiva) que eu falo com o mundo. Mas também aprendi rapidamente que, embora fiel à tradição literária angolana, sobretudo no que diz respeito à relação entre a literatura, a história e a sociedade, era preciso e possível começar a falar com o mundo de outra maneira. Além de tudo o que vivi, duas leituras foram fundamentais para mim, nesse sentido: António Ramos Rosa e João Cabral de Melo Neto. A elas juntaram-se, mais tarde, as de Saramago, com a sua literatura reflexiva, e a do brasileiro Ruben Fonseca.</p>
<p>&#8220;Eu sou deste mundo e deste tempo&#8221;, escrevi há muitos anos, num dos meus livros preferidos, <strong>Canção do Nosso Tempo</strong>.</p>
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