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	<title>Sararau &#187; Fliporto</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Entrevista com Pepetela</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 18:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
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		<description><![CDATA[No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro O quase fim do mundo, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/pepeentrevista-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" />No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro <em>O quase fim do mundo</em>, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. Nosso encontro em Porto foi outro prazer. Falamos um pouco de tudo: literatura, cinema, política, temas contemporâneos etc. </strong></p>
<p><strong>Veja aqui a entrevista.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>CF &#8211; O que o inspirou a dar a sua versão para o tema &#8220;fim do mundo&#8221;?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>A idéia surgiu de uma conversa com minha filha há muito tempo, quando aconteceu o atentado no metrô de Tóquio, com gás sarin, na década de 90. Isso é muito comum em mim. Tenho uma idéia e penso: &#8220;um dia vou escrever sobre isso&#8221;. Anoto várias idéias, algumas se perdem e outras voltam, mesmo muito tempo depois, quando acho que está na hora de escrever. Aconteceu com vários outros romances, <em>Lueji</em>, <em>A Gloriosa Família</em>, <em>Parábola do Cágado Velho</em>, <em>Jaime Bunda</em>, em parte com <em>A Geração da Utopia</em>.<br />
Em <em>O quase fim do mundo</em> o importante foi tentar imaginar um universo em que há pouco de tudo; há mais do vegetal e do mineral, mas do animal muito pouco. Também tive logo a idéia de que não poderia ser em Angola. É um tema universal e a história tinha que acontecer em algum sítio com um significado outro. Foi aí que cheguei à região dos Grandes Lagos, que é o paraíso na terra, mas é o inferno em África. Há quarenta anos, pelo menos, estão a matar uns aos outros estupidamente e hoje em dia já não se sabe muito bem porque se está a matar. Recomeçou agora a guerra na parte oriental do Kivu*.<br />
Enfim, a idéia é: na parte mais desgraçada do continente mais desgraçado, que corresponde ao sítio onde há os vestígios humanos mais antigos, ou seja, onde começou a humanidade, o mundo vai recomeçar.<br />
*Lago que separa Ruanda da República Democrática do Congo</p>
<p><strong>CF &#8211; Calpe, a cidade imaginária que está em outros romances, aparece em <em>O quase fim do mundo </em>como o único lugar em que há sobreviventes de uma hecatombe. Por que em Calpe?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Calpe aparece primeiro em <em>Muana Puó</em> e é um lugar do sonho. Já em <em>O cão e os calus</em> é a cidade do autor. Aparece também em <em>A parábola do cágado velho</em>, e em cada um dos livros ela é diferente. Nesse último romance ela pode ser até mais parecida com Luanda, mas tive o cuidado de colocá-la rodeada de montanhas, o que não há em Luanda.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas ela é aqui também o lugar da utopia e do sonho, não é? Porque você está contando a história de um &#8220;quase&#8221; fim do mundo, de um novo começo exatamente em Calpe.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Eu uso Calpe para fazer uma ligação com outros textos e para trazer a idéia do recomeço. Em um determinado momento a personagem somali fala que a humanidade provavelmente já teve outros recomeços. E não há novidade nisso. Há inúmeros fenômenos que aconteceram e ainda não há explicação, como as figuras gigantes nos Andes que só podem ser vistas do alto, ou o calendário solar em pedra construído pelos incas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Além dos dados históricos, você busca inspiração no cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Certamente eu tenho uma influência do cinema, sobretudo do cinema americano. E aí me refiro ao filme de ação. Entrar logo na ação foi algo que aprendi com o cinema, não com a literatura. É a minha preocupação: agarrar logo o leitor.</p>
<p><span id="more-145"></span></p>
<p><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/capa-livro-pepetela.jpg" alt="" width="100" height="150" />CF &#8211; O romance faz isso realmente. E a linguagem é muito cinematográfica. O que pensa sobre uma adaptação da obra para o cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O grande problema é que já não acredito. Já me propuseram vários roteiros de livros meus, mas nenhum avançou realmente. <em>Mayombe</em> teve um grande roteiro e foi um pouco mais à frente, mas parou com a falta de dinheiro.</p>
<p><strong>CF &#8211; A ironia e o riso estão presentes o tempo inteiro no romance. Você tem acentuado cada vez mais o tom irônico no seu discurso ficcional. No caso desse livro, os personagens em nenhum momento se desesperam com o &#8220;fim do mundo&#8221;.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É porque é um fim do mundo africano, contado por um africano, por isso tem que ter humor e ironia. O africano consegue rir de sua própria desgraça. Digo o africano por causa do livro, mas nesse aspecto ele é bem angolano. O cinema e a literatura já estão cheios de catástrofes, queria fazer algo não pessimista, mas no fundo também é.<br />
A ironia é a melhor forma para prender o leitor e por outro lado colocá-lo a pensar. <em>O cão e os caluandas </em>talvez seja meu livro mais satírico. Escrevi entre 1979 e 1980, na época eu estava no governo. Foi nessa altura que eu descobri a ironia como arma.<br />
Ou seja, a ironia é uma arma, é usada de forma consciente e tem a ver com uma maneira de contar angolana. Está lá nos contos tradicionais e na literatura angolana em geral, como, por exemplo, em Uanhenga Xitu, nos contos do João Melo, em Ondjaki etc.</p>
<p><strong>CF &#8211; Os sobreviventes precisam conviver e buscar alternativas. Em um &#8220;quase fim do mundo&#8221; a saída para renovar os ciclos é a reflexão e o diálogo?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Uma coisa importante foi recriar as relações sociais com os preconceitos que os personagens já traziam. Porque há algumas coisas que eu queria tratar, como a questão da luta de grupos, e o que ficou, por exemplo, das lutas em Ruanda, no Congo etc. No fundo é uma pergunta: que raio de pessoas são essas para começar uma humanidade? Ora, a nossa humanidade atual, como é que começa? Com um irmão a matar o outro, Caim a matar Abel. E essa nova humanidade começaria da mesma maneira como a outra acabou. Não há aí muita inovação, não é? Enfim, a idéia era jogar com isso tudo, mas de fato o que ficam são as relações entre as pessoas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Entre os personagens estão alguns moradores de Calpe, uma somali, um etíope, uma americana e um sul-africano. Há um momento em que eles chegam à Europa de avião e vêem que tudo ali está morto. A Europa é de fato um &#8220;velho mundo&#8221; e dela só restariam os monumentos?  </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É isso, mas há uma tentativa de chamar a atenção para as relações atuais entre a Europa e os países que enviam pessoas para lá. É de fato um problema muito sério. E a ironia está também no fato da personagem Isis, a somali que é historiadora, estar grávida de um etíope e ficar na França. É uma piada com os franceses, porque o primeiro francês que nasce é na verdade africano.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mais uma vez são vários os narradores em um romance seu. Há quebras e mudanças de voz a todo instante. Dramatizar diferentes experiências é uma maneira melhor de olhar o mundo? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um escritor não pode limitar-se a sua própria visão. É preciso dar a visão dos personagens, porque cada um deles é um outro. Eu descobri isso já em <em>Mayombe</em>. Estava a escrever e de repente vem um personagem e diz &#8220;Eu, o narrador, sou Teoria&#8221; e conta um pouco da sua história pessoal. Depois outros personagens-narradores foram aparecendo, um pouco de maneira inconsciente. Eu escrevi <em>Mayombe </em>na guerrilha, a mão, e ele resistiu à chuva e outras coisas. Quando eu tive tempo de revê-lo, após a independência, fui passar a história para a máquina de escrever e pensei bastante se mantinha do mesmo jeito ou não, então vi que tinha que ser assim. No fundo é isso: dar a voz aos personagens.</p>
<p><strong>CF &#8211; Uma curiosidade: você tem preferência por algum personagem de <em>O quase fim do mundo</em>?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Talvez a Ísis, embora eu a tenha deixado na França. Vibrei quando ela apareceu. Ou talvez a Jude, a adolescente. As duas. Raramente seria um homem. As mulheres são mais fortes.</p>
<p><strong>CF &#8211; São elas as responsáveis por gerar vida também. E é interessante como o sexo e os desejos estão em cena no romance.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um amigo leu antes de ser publicado e disse que o livro era muito erótico. Mas tem que ser, ora. Ele está a tratar da vida.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas diga: quais são os segredos dos chás preparados pelo curandeiro Riek, que a sua maneira vai ajudando a unir os casais?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Há um conhecimento profundo de plantas pelos curandeiros africanos, sobretudo no que diz respeito à reprodução e à fertilidade. Há plantas que são conhecidas como afrodisíacas, como o pau de cabinda.<br />
Mas há uma preocupação de passar um pouco do conhecimento tradicional africano, que muitas vezes é desprezado pela dita civilização. De vez em quando é preciso dar uma lição.</p>
<p><strong>CF &#8211; Há muitas lições na narrativa. Como o debate sobre a excisão do clitóris de meninas e mulheres em certas regiões da África e outras partes do mundo.    </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Aproveito a ficção para dar recados. A mutilação genital é um problema muito debatido. Há situações conflituosas que chegam ao tribunal, casos de crianças de 11 ou 12 anos que sofrem com a castração, a retirada do clitóris, e discute-se o direito do Estado em interferir naquela cultura, indo contra determinadas tradições. É muito complicada não só a conseqüência física mas também a causa da prática, que é a submissão da mulher. Porque ela não consegue libertar-se e buscar o seu próprio prazer e sua condição de vida.</p>
<p><strong>CF -  Em <em>A geração da utopia</em>, na última parte da obra, a crítica à propagação de determinadas seitas e igrejas já aparecia de maneira irônica e mordaz. Agora, ela é um dos focos no romance, até porque várias teorias sobre o fim do mundo vêm das religiões. A maneira como muitas dessas religiões se apresentam é de fato arma letal, representando uma barreira enorme para as consciências e para relações mais solidárias. É essa a sua preocupação?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Na altura de <em>A geração da utopia</em> o fenômeno da propagação de maneira desordenada de igrejas estava a começar em Angola e achei oportuno discutir a questão. Mas as seitas foram crescendo. Neste momento, é um problema grave. No mês passado, por exemplo, foram presos líderes de duas seitas religiosas não legalizadas que mantinham 40 crianças de 4 a 10 anos aprisionadas e as torturavam todos os dias porque diziam que elas eram feiticeiras. Esse é um fenômeno novo, em Angola não existia. O feiticeiro, diferente do curandeiro, faz o mal e é sempre um adulto; o feitiço está ligado a alguma ambição ou inveja, portanto, não tem nada a ver com as crianças. E são práticas que vêm do Congo, isso não existia em Angola. Agora fecharam as tais seitas e as crianças foram para um lar e estão sendo acompanhadas por psicólogos. Os traumas são enormes, estavam a ser torturadas e chegariam à morte. O pior é que este episódio aconteceu em Luanda, na capital.<br />
Também em <em>Os predadores </em>ponho essa questão, mas ninguém lê os livros. Enfim, me sinto na obrigação de discutir os problemas antes que se tornem graves, mas não adianta. Eles tornam-se graves e depois as pessoas descobrem o que está acontecendo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Espero que a máquina do fim do mundo não funcione&#8230;</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Mas outro dia, à boa moda angolana, nós rimos com uma tragédia. No livro <em>O desejo de Kianda </em>acontece o desmoronamento de prédios na lagoa de Kinaxixe, ninguém sabe por que e tal. Esse ano o edifício da DNIC, a polícia de investigação criminal, caiu em Angola. Houve avisos de que o prédio estava mal. Duas horas antes do desabamento se ouviu um estrondo e uma parede abriu. Os polícias saíram e deixaram os presos, muitos morreram. Um drama, não se falava em outra coisa. José Luís Mendonça, dois ou três dias depois, diz: &#8220;Pepetela é feiticeiro&#8221;. Nós rimos, foi uma coincidência, é claro, mas o fato é que se espera muitas vezes pela desgraça.</p>
<p><strong>CF &#8211; <em>O quase fim do mundo </em>traz questões universais. Quais são suas expectativas quanto à divulgação do livro, inclusive a tradução e a circulação em outros países? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Em Portugal o livro já está na segunda edição, e isso é bom. Mais cedo ou mais tarde ele sairá aqui no Brasil. E por enquanto ninguém propôs tradução. Geralmente demora um pouco. Já nos Estados Unidos, acho mais difícil sair. Tentou-se com <em>O terrorista de Berkeley</em>, mas não aconteceu. Vamos ver.</p>
<p><strong>CF &#8211; Por falar nos Estados Unidos, como você está vendo a eleição de Barack Obama? Chegou a ver o texto de Manuel Rui sobre essa vitória?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Eu também quis escrever sobre as eleições, mas não deu tempo. Bem, Obama vai tomar posse em janeiro, provavelmente em fevereiro eu estou contra ele, já terei críticas a fazer, isso é normal. Mas acho que é um salto civilizacional extremamente importante. Pensar no que eram os Estados Unidos nessas questões, por exemplo, raciais, nos anos 60, de Mater Luther King, sobretudo no sul do país, e o que são hoje, 48 anos depois, com um presidente negro, mesmo que para os africanos ele não seja exatamente negro, é extraordinário. A primeira vez que fui aos Estados Unidos, nos anos 80, notei, sobretudo, nas publicidades, anúncios para negros. Eles estavam aparecendo e interessavam também como consumidores. Depois fui acompanhando e houve uma ascensão, hoje praticamente têm os mesmos direitos, mas com algumas restrições.<br />
Ouvi falar do Obama pela primeira vez em 2004 e pra mim não foi surpresa quando ele veio como possível candidato dos Democratas. Agora a eleição dele, mesmo pra África, é importante. A ironia é ele ser mestiço. Por enquanto a África está a fazer festa. Mas ela também tem minorias mestiças ou brancas, que são vistas de lado pela maioria negra hoje. Há um reverso da medalha do tempo colonial. E existe uma ironia porque o homem mais poderoso do mundo é mulato.</p>
<p><strong>CF &#8211; A nova civilização que você pensa neste último romance ironicamente também é mestiça.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Exatamente. E gosto sempre de lembrar que Jesus Cristo era mestiço. Essa história de Jesus loiro de olhos azuis é invenção da Idade Média européia. É evidente que os hebreus daquela época eram mestiços, com cabelos ondulados, nariz achatado e cor castanha. Tudo comprovado cientificamente. Isso é bom pra desmistificar. Porque só há uma raça, a raça humana, e acabou.</p>
<p><strong>CF &#8211; No Brasil discute-se bastante essa questão, mas há uma separação ainda muito grande.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O Brasil é muito ambíguo. Uma questão complicada é, por exemplo, pensar em um Movimento Negro seguindo os padrões do Movimento Negro americano. Porque a segregação nos Estados Unidos foi feita de maneira diferente. O Brasil tem que encontrar o seu caminho.<br />
Uma vez um representante do Movimento Negro no Brasil me chamou para falar aos &#8220;irmãos negros&#8221;, nos anos 80, do período de luta pela independência angolana e me disse, nas palavras dele, que &#8220;o nosso inimigo é o branco&#8221;. Eu lembrei a ele que a nossa luta nunca foi contra o branco, mas contra o colonizador, contra o sistema, o que é diferente. E no sistema colonizador havia também muitos negros. Uma grande parte do exército português era de negros. Em toda a história de Angola sempre houve uma parte de negros a lutarem a favor dos portugueses. Nossa luta era de libertação, libertação de todos. E outra coisa é a luta de classes.</p>
<p>Enfim, eles não gostaram muito da minha conversa, mas acho que no Brasil se mistura muito as coisas. Eu acho que o Movimento Negro americano teve um papel negativo aqui, porque começaram a tratar aqui de uma forma de segregação que não eram as próprias. A luta assim fica mais difícil. Mas com as novas políticas acho que as coisas estão melhorando.</p>
<p>______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>O papel da literatura em Angola e Moçambique</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 17:43:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Já falei de inúmeros encontros na Fliporto, mas um deles foi realmente especial. Em uma das mesas de encerramento, a reunião dos moçambicanos Marcelino Santos, Luís Carlos Patraquim e Paulina Chiziane e dos angolanos Pepetela, João Melo e Amélia Dalomba foi emocionante. Com um moderador competente, o professor Patrick Chabal, da King´s College London, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já falei de inúmeros encontros na Fliporto, mas um deles foi realmente especial. Em uma das mesas de encerramento, a reunião dos moçambicanos Marcelino Santos, Luís Carlos Patraquim e Paulina Chiziane e dos angolanos Pepetela, João Melo e Amélia Dalomba foi emocionante. Com um moderador competente, o professor Patrick Chabal, da King´s College London, a conversa destacou aproximações entre as literaturas angolana e moçambicana e homenagens especiais a Marcelino Santos e Pepetela. Na verdade, mais uma vez por conta do tempo, os escritores versaram sobre uma única questão: <em>&#8220;Qual é o papel da literatura?&#8221;</em></p>
<div style="float: left; margin: 10px; text-align: center; font-style: italic;"><img src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/pepemarc2-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /><br />
Marcelino Santos e Pepetela</div>
<p>Marcelino Santos lembrou de José Craveirinha e disse que os moçambicanos vêm &#8220;de uma nação que ainda não existe&#8221;. Leu, então, seu poema &#8220;É preciso plantar&#8221; (na íntegra na seção Sararau).</p>
<p>Pepetela recorda a geração de Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Antonio Jacinto, Marcelino, &#8220;aqueles que inventaram essa coisa de libertação nacional&#8221;.</p>
<p>Paulina Chiziane também volta à Craveirinha e à poesia que transformou algo nela. &#8220;A literatura da geração de Craveirinha e Marcelino Santos fizeram a mim&#8221;, diz. E continua: &#8220;Eles colocaram a pedra do edifício da nação. Foi aí que pensei que deveria falar do que há no interior das casas, dos relacionamentos humanos.&#8221; Sobre o papel da sua literatura fala com sabedoria: &#8220;Só se conhece a altura da palma depois que morre. Talvez, quando eu cair, alguém diga ‘a literatura dela serviu pra isso&#8217; &#8220;.</p>
<p><span id="more-118"></span></p>
<p>Para Patraquim, <em>Mayombe</em>, de Pepetela,<em> </em>foi sua obra de referência. A narrativa o fez pensar melhor sobre a luta pelas independências porque falava de dentro dela. &#8220;A literatura teve um papel fundamental nas consciências nacionais. E o processo ainda não acabou. Agora são outras lutas e a poesia continua a ser de combate&#8221;, afirma o poeta.</p>
<p>Amélia Dalombe também fala de <em>Mayombe </em>e diz que &#8220;sonhava um dia ser Ondina&#8221;. Queria ser capaz de caminhar com suas próprias pernas e que seus sentimentos se colocassem em causa. &#8220;A literatura lado a lado com todas as outras formas de luta é a grande impulsionadora da nossa liberdade&#8221;, conclui.</p>
<p>Por fim, João Melo destaca que o papel da literatura muda com as mudanças, sociais, políticas, culturais. Faz uma crítica à falsa idéia de que faltava à literatura engajada uma depuração formal e estética. &#8220;A poesia revolucionária exige uma estética revolucionária&#8221;, afirma. O primeiro contato que teve com a poesia foi com a <em>Antologia da poesia negra de expressão portuguesa</em>, organizada por Mário Pinto de Andrade. Para ele, é preciso lembrar que a literatura é sobretudo linguagem e &#8220;não se pode perder a ligação com a realidade&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-134 aligncenter" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/mesafliporto1-300x139.jpg" alt="" width="300" height="139" /></p>
<p>_____________<br />
<span style="font-size: 10px;">Fotos: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Tony Tcheka e a poesia da Guiné-Bissau</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 17:17:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/tonytcheka-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />No último dia da Fliporto conversei um pouco com o escritor Tony Tcheka, um dos grandes nomes da literatura guineense. Tony Tcheka, de 56 anos, é um dos poetas que participa da primeira publicação de poesia na Guiné-Bissau, em 1976, em uma antologia intitulada &#8220;Mantenhas para quem luta&#8221;. Junto com mais 12 poetas, chamados por Mário Pinto de Andrade de &#8220;meninos da hora de Pindjiguiti&#8221;, faz naquele momento uma poesia engajada, ligada à independência da Guiné-Bissau em 1975. Foi um dos fundadores da UNAE &#8211; União dos Escritores da Guiné-Bissau, também é jornalista e agitador cultural.</p>
<p>Tony Tcheka me fala do problema da falta de política editorial no seu país. &#8220;Em uma sociedade onde tudo é prioritário, a cultura fica na segunda margem&#8221;, diz ele. Daí a reunião de escritores em antologias. Ele participa de várias, entre elas <em>Momentos primeiros de construção</em> (1978),<em> Poesia moderna guineense, Eco do Pranto </em>(1992)<em>, Barkafon di Poesia na Kriol </em>(1996)<em>. Eco do pranto </em>traz uma temática sobre a criança, ele conta. Já a <em>Poesia moderna guineense</em> marca um outro período, de ruptura com o sistema. Surgem grandes nomes depois da década de 80, como Abdulai Silá, Odete Semedo e Jorge Cabral. Tony Tcheka publica seu primeiro livro individual em 1996, <em>Noites de insónia na terra adormecida</em>, pelo INEP, Instituto Nacional de Estudo e Pesquisa, na coleção <em>Kebur</em>.</p>
<p>Os escritores enfrentam os desafios da publicação e outras barreiras, mas na Guiné-Bissau a cultura da oralidade é uma aliada e &#8220;o escritor escreve e publica todos os dias&#8221;, conta Tony. Há lá o djunbai, espaço de encontro, acrescenta. Embaixo de um baobá, diferentes pessoas se reúnem constantemente para contar estórias, ler versos, cantar e sorrir, em um convívio amistoso.</p>
<p><span id="more-114"></span></p>
<p>Por fim, preciso ressaltar o trabalho da professora Moema Parente Augel, que esteve presente no evento e me apresentou ao Tony Tcheka. Ela se dedica há muito tempo ao estudo das literaturas guineense e afro-brasileira, e, na ocasião, mais uma vez se mostrou empenhada na divulgação dessas literaturas. Para aqueles que começam a estudar a literatura da Guiné-Bissau, um bom texto da professora Moema é &#8220;Sol na Iardi &#8211; perspectivas otimistas para a literatura guineense&#8221;, disponível na internet: http://www.didinho.org/estudosepesquisas.html</p>
<p>Deixo um poema de Tony Tcheka, do seu mais recente livro <em>Guiné sabura que dói</em> (2008), pela UNEAS, União Nacional dos Escritores e Artistas de S. Tomé e Príncipe. Veja outros poemas também na seção Sararau.</p>
<p><strong>Globalizado excluído</strong></p>
<p>A<br />
Carta<br />
de<br />
alforria<br />
que<br />
floriu<br />
no templo<br />
das proclamações<br />
decretos<br />
e<br />
convênios<br />
libertadores<br />
murchou<br />
desandou<br />
como<br />
a<br />
flor<br />
sahel</p>
<p>amnésica<br />
ficou<br />
sem<br />
os<br />
pergaminhos</p>
<p>globalizada</p>
<p>nos<br />
grilhões<br />
dos<br />
novos<br />
navios<br />
negreiros<br />
ressurge<br />
sob formas<br />
manhetas<br />
manietada pelas<br />
fronteiras farpadas<br />
impostas por patriarcas ilusionistas<br />
batutadores da escrita família<br />
do comércio proteccionista de exclu$ão &amp;<br />
companhia Lda.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Encontros e desencontros na/da Fliporto</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 11:43:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
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		<description><![CDATA[A Fliporto promoveu encontros e desencontros entre os dias 6 e 9 de novembro.  Se por um lado a circulação de inúmeros escritores brasileiros, africanos, latino-americanos e a presença de professores e pesquisadores da literatura contribuíram para uma série de diálogos e intercâmbios, principalmente nos bastidores, a ausência de um público maior de estudantes e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Fliporto promoveu encontros e desencontros entre os dias 6 e 9 de novembro.  Se por um lado a circulação de inúmeros escritores brasileiros, africanos, latino-americanos e a presença de professores e pesquisadores da literatura contribuíram para uma série de diálogos e intercâmbios, principalmente nos bastidores, a ausência de um público maior de estudantes e comunidade locais esvaziou a festa.  As sessões simultâneas também foram um problema. Além disso, com o tempo curtíssimo para cada participante e a presença de moderadores muitas vezes despreparados, o público precisou de disposição e paciência para acompanhar a programação.</p>
<p>Aliás, foi impossível acompanhar tudo. No dia 7, por exemplo, na mesma hora que Paulina Chiziane e Patraquim conversavam, a literatura de São Tomé e Príncipe era apresentada pela professora Margarida Paredes, da Universidade de Lisboa, com a participação de Ondjaki lendo poemas de Conceição Lima. A poeta foi homenageada junto com a pesquisadora Inocência Mata, duas são-tomenses que refletem sobre o universo sócio-cultural do arquipélago. Conceição Lima nasceu em Santana, em 1961, e tem dois livros de poesia publicados pela Editorial Caminho: <em>O útero da casa (2004) </em>e <em>A dolorosa raiz do micondó (2006). </em>Veja na seção Sararau o poema &#8220;A casa&#8221;, de Conceição Lima, lido na ocasião.</p>
<p>Ainda na sexta-feira, apesar dos desencontros dos moderadores de uma das mesas mais esperadas do evento &#8211; Agualusa, Ondjaki e Pepetela &#8211; foi bonita a homenagem da filha de Solano Trindade, Raquel Trindade, ao centenário do poeta, com a fala emocionada do poema &#8220;Tem gente com fome&#8221;. Uma pena eu não ter gravado esse momento, merecia ser ouvido por todos, inúmeras vezes. Mas deixo o poema também lá na roda/página Sararau.</p>
<p>A homenagem a Solano se estendeu no sábado, quando outras vozes quilombolas se juntaram. Em especial a de Conceição Evaristo. A mineira foi uma das poucas representantes da literatura afro-brasileira na Fliporto. Ao lado de Paulina Chiziane, nos lembra que precisamos cada vez mais de encontros entre África e Brasil.  </p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-104 aligncenter" title="img_1618" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1618-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p>_________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Paulina Chiziane e a metáfora do véu</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Nov 2008 13:45:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular &#8220;Quem conta um conto aumenta um ponto&#8221;. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float:left" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/paulina-207x300.jpg" alt="" hspace="10" vspace="10" width="186" height="270" />Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular &#8220;Quem conta um conto aumenta um ponto&#8221;. A questão estava exatamente em &#8220;que ponto acrescentar depois de tudo o que inúmeros outros escritores já fizeram&#8221;. E pensa: &#8220;Primeiro preciso conhecer o que se conta. E o que se conta foi construído basicamente pelo masculino. Depois preciso tirar o véu. Eu tiro o véu quando faço as minhas leituras. Por fim vou ficar com a minha tradição oral.&#8221;</p>
<p>Tirar o véu é uma prática constantemente necessária, afirma Paulina. Desde o primeiro acesso que tem da escrita, com a Bíblia sagrada, percebe que havia algo de errado quando lia o livro de Gênesis e encontrava ali um Adão negro e várias Evas. Faltava algo nessa escrita feita por homens, que &#8220;quando enumeram a mulher, falam do seu ponto de vista&#8221;, muitas vezes apresentando-a como um corpo-objeto. Em tom provocativo-reflexivo, Paulina lança uma pergunta aos integrantes da mesa, todos homens: &#8220;Que direito têm os artistas de me despirem em literatura?&#8221;</p>
<p><span id="more-95"></span></p>
<p>Alguns apelaram para o romantismo como saída, mas o fato é que Chiziane não faz um discurso feminista rotulado, para ela &#8220;o que está em causa é a desigualdade das relações entre as pessoas&#8221;.  Por isso, desde o seu primeiro livro, <em>Balada de amor ao vento (1990)</em>, problematiza um cotidiano africano cheio de tradições e relações injustas entre homens e mulheres.</p>
<p>As próprias mulheres sustentam muitos preconceitos, lembra Paulina. Como exemplo, &#8220;a letra da canção da mulher moçambicana, escrita por mulheres, mas que coloca a mulher em condição subalterna&#8221;.  Daí a necessidade de &#8220;tirar o véu&#8221;, como reforça a todo instante.</p>
<p> </p>
<p>Um trecho de <em>Niketche: uma história de poligamia (2002)</em>. Com ele, Paulina Chiziane ganha o prêmio José Craveirinha, em 2003. É o único romance da escritora até agora publicado no Brasil, em 2004, pela Companhia das Letras. Para Paulina, o sucesso de <em>Niketche</em> talvez esteja exatamente na &#8220;descoberta do feminino&#8221;.</p>
<p><em>&#8220;Meu Deus, ajuda-me a descobrir a alma e a força do meu rio. Para fazer as águas correr, os moinhos girar, a natureza vibrar. Para trazer ao meu leito a luz de todas as estrelas do firmamento e deixar o arco-íris mergulhar-me em toda a sua imensidão.<br />
</em><em>Sou um rio. Os rios contornam todos os obstáculos. Quero libertar a raiva de todos os anos de silêncio. Quero explodir com o vento e trazer de volta o fogo para o meu leito, hoje quero existir.&#8221;</em></p>
<p>_________<br />
<span style="font-size:10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Novo encontro com o canavial</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Nov 2008 23:38:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Via plantas de cana
com sua cabeleira, ou crina,
muita folha de cana
com sua lâmina fina,
muita soca de cana
com sua aparência franzina,
e canas com pendões
que são as canas maninhas.
Como terras de cana,
são muito mais brandas e femininas.
Foram terras de engenho,
agora são terras de usina.&#8221;
(João Cabral de Melo Neto)

Desembarquei no aeroporto de Recife às 6h30 da última quinta-feira, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><img class="alignleft size-medium wp-image-77" style="float: left;" title="img_1633" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1633-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /><em>&#8220;Via plantas de cana<br />
com sua cabeleira, ou crina,<br />
muita folha de cana<br />
com sua lâmina fina,<br />
muita soca de cana<br />
com sua aparência franzina,<br />
e canas com pendões<br />
que são as canas maninhas.<br />
Como terras de cana,<br />
são muito mais brandas e femininas.<br />
Foram terras de engenho,<br />
agora são terras de usina.&#8221;<br />
(João Cabral de Melo Neto)</em></p>
<p style="text-align: left;"><strong><br />
</strong>Desembarquei no aeroporto de Recife às 6h30 da última quinta-feira, dia 6 de novembro, e fui direto para Porto de Galinhas, participar da Fliporto, &#8220;festa literária&#8221; que destacou as literaturas africanas e latino-americana. No caminho, meu primeiro encontro com uma paisagem que só conhecia nos livros: os canaviais. É essa paisagem que para mim marca os quatro dias que passei por lá. Quando fecho os olhos e penso em Porto vejo a cana nos dois lados da estrada e um painel pintado com as trilhas por ela deixadas. Também penso no Amir Klink, mas essa é outra história.</p>
<p>Seu Guilhonel, pernambucano, conhece bem as trilhas da cana e me explica, já na volta, que a queimada faz parte do processo do corte e que o cheiro desagradável que eu senti num fim de tarde vem do vinhoto, a parte tóxica da decantação da cana. Nas usinas, a cana é moída e o caldo fervido. Do melaço sairá o açúcar, mas o vinhoto, espécie de espuma acima do melaço, será pulverizado no terreno, espalhando um cheiro forte na área. É a ironia de tudo na vida, a junção do doce e do amargo.</p>
<p>Pergunto a ele como estão as condições de trabalho na região, diz que os bóias-frias continuam e que a mecanização nas usinas se, por um lado, facilita o trabalho, por outro gera desemprego. Mas para seu Guilhonel o grande problema ainda é o alcoolismo, muito mais uma questão de fome. Lembro de João Cabral e da &#8220;Morte e vida severina&#8221;, em tempos outros, mas ainda o mesmo.  Lembro de Ferreira Gullar e do açúcar &#8220;branco e puro&#8221; que ainda é produzido por &#8220;homens de vida amarga/ e dura&#8221; e continua a adoçar cafés &#8220;em Ipanema&#8221;.</p>
<p><span id="more-76"></span></p>
<p>Acho que por isso tudo, quando penso na festa, penso na cana. A Fliporto também me mostrou contradições. Muitos escritores de peso, grandes nomes da intelectualidade, encontros e homenagens históricas, ótimos patrocínios, mas falhas grosseiras na organização e ausência de um público maior de estudantes e comunidade local.  Nos próximos artigos, vamos conversar um pouco mais sobre.</p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-78" style="float: right;" title="img_1596" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1596-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />Por ora, quero destacar a aula espetáculo de Ariano Suassuna, que nos conta estórias, convoca memórias e nos apresenta artistas locais, como o grupo formado pelos filhos do mestre Salustiano. Mestre Salu, grande nome da cultura pernambucana, morreu este ano. Ele foi, como diz o professor Biu Vicente, da Ufpe, um &#8220;menino pobre de engenho&#8221; e aprendeu com o pai, que também cortava cana, a tocar a rabeca e a animar os bailes nos terreiros.  De geração a geração cantigas do Cavalo Marinho e outras expressões culturais da região se perpetuam. </p>
<p>Fico com o gosto doce da rabeca e das estórias de Ariano, e junto com Thiago de Mello, que fechou a noite de abertura da festa de Porto, &#8220;Volto armado de amor&#8221; &#8211; poema lido e espalhado na paisagem:</p>
<p><em><a href="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1599.jpg"><img class="size-medium wp-image-79 alignright" title="img_1599" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1599-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Volto armado de amor<br />
para trabalhar cantando<br />
na construção da manhã.<br />
Anor dá tudo o que tem.<br />
Reparto a minha esperança<br />
e planto a clara certeza<br />
da vida nova que vem.</em></p>
<p><em>Um dia, a cordilheira em fogo,<br />
quase calaram para sempre<br />
o meu coração de companheiro.<br />
Mas atravessei o incêndio<br />
e continuo a cantar.</em></p>
<p><em>Ganhei sofrendo a certeza<br />
de que o mundo não é só meu.<br />
Mais que viver, o que importa<br />
(antes que a vida apodreça)<br />
é trabalhar na mudança<br />
de que é preciso mudar.</em></p>
<p><em>Cada um na sua vez,<br />
cada qual no seu lugar.</em></p>
<p><span style="text-decoration: line-through;">Fotos: Claudia Fabiana</span></p>
<p><em> </em></p>
]]></content:encoded>
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