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	<title>Sararau &#187; Colaboradores</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Obama, a &#8220;questão racial&#8221; e o esplendor do equívoco</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2009/01/obama-a-questao-racial-e-o-esplendor-do-equivoco/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 15:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência Negra]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Inocência Mata 
(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no Semanário Angolense, Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)
&#8220;In no other country on Earth is my story even possible.&#8221;
&#8220;My presence on this stage is [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="font-size:12px;">Por Inocência Mata </span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size:11px;"><img style="float:right; margin:10px" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/conceicao_lima_e_inocencia_mata-278x300.jpg" alt="" width="167" height="180" />(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no <em>Semanário Angolense, </em>Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;In no other country on Earth is my story even possible.&#8221;<br />
&#8220;My presence on this stage is pretty unlikely.&#8221;<br />
(Barack Obama)</span></em></p>
<p>Ultimamente<strong> </strong>temos sido confrontados com uma série de textos &#8220;a propósito&#8221; de Barack Obama: artigos de opinião de africanos que decidem reflectir sobre a África com passagem pelos Estados Unidos. Exercício intelectual desafiante, mas que se responde aos propósitos da autoria, revela-se, em muitos casos, bastante temerário na sua mensagem. Ou até faccioso.</p>
<p>Uma das categorias mais resgatadas do caso Obama para discutir a realidade africana (em Angola ou em Moçambique por exemplo) é a questão da &#8220;raça&#8221;. Todos sabemos que <em>raça</em>, sendo categoria discursiva, é uma construção político-social, operando a representação de diferenças que funcionam como marcas simbólicas (como cor da pele, textura do cabelo, características físicas e corporais, etc) &#8211; não uma categoria biológica. Portanto, poupemo-nos do discurso pseudopedagógico sobre esta questão e discutamos o essencial: e o essencial é que declarações de boas intenções sobre o ideal não são performativas, isto é, não transformam a realidade concreta. E a realidade concreta, histórica, é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas.</p>
<p><span id="more-337"></span></p>
<p>E é aqui que começa o meu mal-estar quanto ao muito que tem sido dito sobre a &#8220;questão racial&#8221;. Um deles reporta-se ao facto de muitos que hoje celebram Obama serem os que começaram por dizer que a &#8220;questão racial&#8221; era uma falsa questão porque Barack Obama não era negro, mas sim mestiço e &#8211; pasme- se! &#8211; &#8220;crioulo&#8221;. Ora, como se sabe, esta &#8211; crioulidade &#8211; é uma noção inadequadamente empregue, de forma descontextualizada, referindo o processo de mestiçagem em Angola e que aparece como <em>&#8220;´royalty´ ou penhor da colonização (&#8230;) que intenta a legitimação de um qualquer direito histórico de ressarcimento, por</em> <em>inapagáveis memórias de tempos de discriminação biológica, interdição cultural e proscrição política&#8221;i</em> dos africanos tratados como &#8220;portugueses-outros&#8221;. Com este discurso de neutralização da importância desta questão, encaminhava-se oportunamente para a relativização do que representa, nos Estados Unidos, a eleição de um presidente negro quando, como lembrou o próprio no seu discurso de tomada de posse, há menos de 50 anos, o seu pai não seria servido num qualquer bar &#8211; apenas por ser negro. Subjacente está o estafado discurso do mérito, como se o mérito fosse um absoluto sem laços nenhuns com a realidade, funcionando, deste modo como noção que busca desqualifi car as desigualdades, as assimetrias e as discriminações, e acabando por concorrer para a naturalização de uma situação de desequilíbrio sem qualquer questionamento sobre a condição subalterna dos sujeitos que fazem parte do segmento não representado nas instâncias de poder, em todos os seus circuitos: social, económico, etnocultural, racial.</p>
<p>Relacionada com esta questão está uma possível discriminação de Barack Obama caso ele fosse um candidato africano, como refere Mia Couto<em>ii</em> no seu tão celebrado artigo de opinião. Se muitos duvidam da possibilidade de um Obama africano por não ser negro talvez seja por não terem conhecimento do que vem acontecendo em África, nomeadamente com Jerry Rawlings, ex-presidente do Gana, filho de pai escocês; Seretse Khama Ian Khama, presidente do Botswana, filho de mãe inglesa; Fradique de Menezes, presidente de São Tomé e Príncipe, filho de pai português. Além de que, conviria não esquecer, o próprio não se consideraria negro &#8211; considerar-se-ia diferente e pertencente a &#8220;outro&#8221; grupo. Por isso, quanto a este aspecto mais facilmente haverá um Obama africano do que um Obama europeu (e escusado será dizer que provavelmente não haveria uma primeira dama negra). Por outro lado, e como disse mais do que uma vez, podem ser traçados paralelismos entre a presença do negro na Europa e do branco em África<em>iii</em> . E se formos honestos, concordaremos quanto à muito maior visibilidade deste do que daquele. Assim sendo, porque será mais grave não haver um Obama africano do que não haver um Obama europeu? Além disso, olhando para os meandros do poder em muitos países africanos (sociais e culturais, quando não económicos e/ou militares), como falar de &#8220;marginalização e discriminação&#8221; de um segmento que, mesmo minoritário, se move no topo de uma pirâmide social?! Estranha discriminação! E sobre discriminação, acreditem, não sou apenas espectadora intelectual &#8211; sou catedrática!</p>
<p>O perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira. Por isso, convém relativizar a frase de Obama segundo a qual a sua história só ser possível na América. Em muita África tem sido possível: isto é, a presença de «outros» na ciranda dos muitos poderes (porque se teima em reduzir o poder à esfera política?). Convém que as convicções ideológicas não turvem a análise cultural e científica.</p>
<p><em><span style="font-size:10px;">i Leonel Cosme, «Crioulos e Brasileiros de Angola», Lisboa: Novo Imbondeiro, 2001. P. 57<br />
</span></em><em>ii Mia Couto «E se Obama fosse africano?», Semanário «Savana», Moçambique, 14 de Nov 08<br />
</em><em>iii Inocência Mata, «Na África Negra» tudo caminha para o «inversamente» &#8211; </em><em>Semanário Angolense</em><em>, </em><em>nº 290, 8-15 de Novembro de 2008 </em><em></em></p>
<p>&#8212;-<br />
<span style="font-size:9px;">Foto: Inocência Mata</span></p>
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		<title>Resenha de &#8220;O racismo explicado aos meus filhos&#8221;</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2009/01/resenha-de-o-racismo-explicado-aos-meus-filhos/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Jan 2009 01:26:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dicas Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Anderson Xavier
(O Sararau recebe mais um colaborador de peso, o professor Anderson Xavier, Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Neste primeiro texto, ele nos traz uma resenha do livro O racismo explicado aos meus filhos, de Nei Lopes, publicado em 2007 pela editora Agir.)
 
Como este é meu primeiro escrito destinado a fazer parte do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="font-size: 12px; font-weight: bold;">Por Anderson Xavier<br />
(O Sararau recebe mais um colaborador de peso, o professor Anderson Xavier, Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Neste primeiro texto, ele nos traz uma resenha do livro <em>O racismo explicado aos meus filhos, </em>de Nei Lopes, publicado em 2007 pela editora Agir.)</p>
<p> </p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/racismo-neilopes.jpg" alt="" width="135" height="214" />Como este é meu primeiro escrito destinado a fazer parte do <em>Sararau</em>, seguirei o conselho de Dona Ivone Lara e vou &#8220;pisar neste chão devagarinho&#8221;. Este texto não é especificamente acerca da literatura africana, contudo creio acertar a veia desse movimento acadêmico-artístico-internético.</p>
<p>Trataremos aqui de <em>O racismo explicado aos meus filhos</em>, de Nei Lopes. Isso posto, contemplamos o feliz neologismo &#8220;sararau&#8221;, pois trazemos à baila um compositor e escritor de mão cheia, que faz jus à palavra sarau; e, por ser um estudioso dos insumos culturais oriundos do continente africano, nos deixa à vontade para dispormos do vocábulo &#8220;sarará&#8221;, segundo a música, imanente a todo brasileiro de sangue crioulo.</p>
<p>É sabido que toda análise resulta em dívidas para com o analisado. Conosco não será diferente, porém nosso intuito é iluminar um consistente trabalho de investigação de nossas raízes e problemas. Por meio de um romance-ensaio, Nei Lopes faz um levantamento acerca da origem das diversas formas de manifestação racista, focando principalmente aquela que vitimiza o negro.O núcleo do livro é a família do historiador Paulão (negro) e da Doutora Lia (judia). O casal tem dois filhos, brancos como a mãe, apresentando traços étnicos do pai, sendo assim sararás. O enredo se concentra em diálogos travados entre os membros dessa família, nascidos das experiências de cada um.</p>
<p>As conversas são comandadas quase sempre pelo professor Paulão que faz verdadeiras palestras, enriquecendo o conteúdo do texto. No entanto, se pensarmos a construção de um romance, constataremos que as conversas tateiam o inverossímil, quando consideramos os temas abordados e o modo como são travados tais diálogos.</p>
<p>Se encaramos o livro como um ensaio acerca da existência humana e uma de suas mais delicadas questões, o racismo, perceberemos um texto refinado e com uma preocupação ética que deveria fazer parte não só das palestras de Paulão, mas de toda e qualquer assembléia, seja futebolística, política ou sambista.</p>
<p>O livro é composto por 16 capítulos que abordam desde o criticismo ao &#8220;racismo cientifico&#8221; do século XIX até uma das polêmicas do século XXI: &#8220;a questão das cotas&#8221;. Nei Lopes faz crítica e literatura em um projeto eticamente eficaz e eficiente, com algumas dívidas estéticas.</p>
<p><em>O racismo explicado aos meus filhos</em> pode apresentar problemas estéticos, contudo presta um serviço incomensurável ao povo brasileiro. Pela composição pluriétnica da família de Paulão, podemos percebê-la como um retrato do Brasil. Sendo assim, o professor explica a todos nós, brasileiros (seus filhos), a dor que é o racismo. Por meio da investigação das origens das questões étnicas, Nei Lopes nos oferece um significativo cabedal de informações sobre nossa gente, de modo genuíno e verdadeiro.</p>
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		<title>A posse de Obama e a magia do simulacro da nossa posse</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2009/01/a-tecnica-a-posse-de-obama-e-a-magia-do-simulacro-da-nossa-posse/</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Jan 2009 17:51:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[ Por Simone Ribeiro da Conceição

Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.
A transmissão concretiza o &#8220;we can&#8221;. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.
Temperatura e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="TEXT-ALIGN: left"> <strong>Por Simone Ribeiro da Conceição</strong></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="aligncenter" style="margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/obama-1-300x196.jpg" alt="" width="300" height="196" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: left">Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.<br />
A transmissão concretiza o &#8220;we can&#8221;. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.<br />
Temperatura e expectativas negativas não afugentam a multidão que se acumula em Washington. Animada, a massa toma posse do local. Em todas as partes do mundo, transmissões são anunciadas. Elas são ingresso para que uma multidão incalculável participe da cerimônia como platéia virtual.<br />
Assistimos hoje a uma representação. Como sociedades do simulacro, a representação nos fascina. Digitalizada, plasmada e ampliada nos telões consumidos pelos mais ávidos, as imagens de cada etapa da posse do novo presidente dos Estados Unidos registram o ineditismo dos passos negros em direção à Casa Branca.<br />
A magia da técnica está em nos permitir compartilhar essa caminhada e tomar como nossa a sensação da posse. A experiência de, enquanto negros, experimentar reconhecer-se na imagem. Experienciar a identificação com os protagonistas. Envaidecer com a beleza, o talento e a competência, até aqui demonstrada pelo casal Obama.<br />
O show da posse é um show da técnica. Nas horas que aproximam o futuro presidente dos futuros problemas, o circo high-tech descontrai a audiência e faz esquecer o pão ou as dificuldades em ter um trabalho para obter esse e outros alimentos do corpo e da alma.<br />
A cultura do espetáculo transforma os eventos em espetáculo. A diferença na próxima atração é que há muita emoção no ar. Não precisaremos de cristais, a técnica e reprodutibilidade técnica nos apresentarão as imagens que nos trarão reflexões e inevitáveis lágrimas. Filmadas e fotografadas, as imagens da posse servirão ao futuro como memória de um momento de união de todos em torno da representação de um evento que confirma que podemos mudar. E porque não crer que podemos melhorar?!</p>
<p> &#8212;&#8211;<br />
<span style="font-size:9px">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Todo cabo-verdiano é um pouco… Poeta</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2008/12/todo-cabo-verdiano-e-um-pouco%e2%80%a6-poeta/</link>
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		<pubDate>Mon, 22 Dec 2008 02:51:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia
por isso trago dentro de mim
todos os mares do Mundo&#8221;
                       (Ovídio Martins)
Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia<br />
por isso trago dentro de mim<br />
todos os mares do Mundo&#8221;<br />
                       </span></em>(Ovídio Martins)</p>
<p>Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do cuidado, do esmero que é a ação do ritmo, da seleção criteriosa das palavras; as rimas, as imagens&#8230; e outras mil estratégias de textualidade lírica _ os ditos recursos estilísticos.</p>
<p>No falar e no escrever próprios dos cabo-verdianos, numa cultura herdeira e conviva da tradição oral, eis que a musicalidade intrínseca ao contar das estórias e do bater do pilão, do batuque<em> </em>e do <em>finason</em>, dos choros das visitas de pêsames e dos rituais matrimoniais, torna-se mana da arte da palavra. Tudo são poemas: ditos, cantados ou chorados. Versos que ora beiram à epopeia em memória do morto, ora lhe lastimam a saudade. Embalado pelo mesmo Mar que leva os bilhetinhos de saudade e os suspiros salgados das cristas das ondas, o homem crioulo é e se faz com o outro um pouco&#8230; poeta. <span id="more-254"></span></p>
<p>São dizeres de recomendação na despedida da nubente, logo antes das cerimónias oficiais &#8211; <em>noiba ba sentu</em> (noiva no assento); e, mais tarde, na <em>bênção</em> de acolhida dos noivos à casa dos ancestrais, após as cerimónias oficiais do &#8220;Registo&#8221; ou do &#8220;Religioso&#8221;. Vejamos um momento de <em>noiba na sentu </em>de improviso. O texto foi recolhido no interior de Santiago, em meio a cantares de batuque, acompanhados de palmas ritmadas e a seguinte melopeia:</p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;"><em>Kazamentu ê mel / </em><em>Kasamentu ê fel /</em><em>Txora! / </em><em>Noiba na sentu ê bonitu.(&#8230;) /Kazamentu ê grandi! /<br />
</em><em>Pensa dretu, bu bá d&#8217;um bês / </em><em>Mara bu korda séku, boita-l / </em><em>Boita-l na nkunhal di bu kasa (&#8230;)<br />
</em><em>Deus libra-u di amizadi fingidu / </em><em>Deus libra-u di kumida kumprádu (&#8230;) /</em><em>Deus ba bu dianti! /<br />
</em></span><span style="font-size:10px;"><em>Nossa Senhora di bem kazadu pega-u na mô, / </em><em>Deus faze-u mudjer filis y honrada! </em></span></em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-258" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento1.jpg" alt="" width="277" height="99" /><img class="alignnone size-full wp-image-259" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento2.jpg" alt="" width="276" height="99" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size:10px;"><em>Casamento é mel, Casamento é fel. /Chora sim, chora porque casamento é coisa grande!/<br />
Amarra bem a tua corda, faz um nó cego e dá-lhe voltas: /E prende-o, no &#8220;nkunhal&#8221;da tua casa.(&#8230;) /<br />
Que Deus te livre de amizade fingida, /E que Deus te livre de comida comprada.(&#8230;) /Deus te guie, /<br />
Nossa Senhora dos bens casados te segure pela mão /Deus te faça mulher feliz e honrada!</em></span></p>
<p>Estas são imagens que ilustram a idiossincrasia cabo-verdiana: antes do casamento, a nubente, sentada no meio de uma roda feita de mulheres de todas as idades, escuta suas vizinhas e familiares, antes de sair, pela última vez como solteira, da casa onde nasceu.</p>
<p>Nas fotos acima, após o casamento civil, a nova família é recepcionada, em ritual tradicional, que inclui discursos dos pais, padrinhos e outros familiares mais velhos &#8211; a benção. A passagem do pano, tal qual nas danças tradicionais, é, ao mesmo tempo, razão de alegria e de apreensão: alegria pela confiança depositada e apreensão pelo sentido de responsabilidade. Nos rituais do matrimónio, o pano traz alívio por simbolizar proteção dos mais velhos; mas também a emoção no assumir da continuidade dos valores das famílias de origem, que são legados à nova família.</p>
<p>Tal como o casamento, todos os rituais dos ciclos de vida são momentos de poesia: gravidez, parto, <em>festa</em> <em>de guarda cabeça</em> , <em>festa de cristão</em>, batismo, noivado, casamento e morte. Os rituais tradicionais possuem gestos próprios, indumentária própria, gastronomia própria, mas, principalmente, palavras próprias! Diga-se o mesmo das <em>festas de função</em> e de todos os momentos importantes da vida social e de lazer do povo das ilhas.</p>
<p>Do Pelourinho na Ribeira Grande de Santiago, símbolo da repressão mas também da resistência, à dança e música contemporâneas, convido você, caro leitor, a nos acompanhar nas estórias e outras manifestações culturais detse país, onde a palavra se faz arte. Deixemos os itálicos em itálico, pois serão motivos para as próximas viagens. Descubramos juntos um Cabo Verde Crioulo, onde tradição e modernidade se completam. Tudo é poesia acalentada pela musicalidade dos sete mares do Mundo.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size:10px;">Fotos: José Teixeira</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cabo Verde: terra do ka tem?</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2008/12/cabo-verde-terra-do-ka-tem/</link>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 22:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
Didikason:
Pa: Zé, Clarissa y Isabel
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:
  Mar di nha Pêtu*

O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.
                                                                           Onésimo Silveira
Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do Ka tem prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right; font-size: 10px;"><em>Didikason:<br />
Pa: Zé, Clarissa y Isabel<br />
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:<br />
  Mar di nha Pêtu*</em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-238" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/cabo-verde-guta1.jpg" alt="" width="492" height="124" /></p>
<p style="text-align: center;"><strong><em>O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.<br />
                                                                           </em></strong><span style="font-size: 10px;">Onésimo Silveira</span></p>
<p>Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do <em>Ka tem </em>prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra moldada e criada por Deus, como foram outras terras. Não foi o barro que deu forma, onde depois se fizeram terras&#8230; terras onde há chuva e há fartura; onde a chuva vem sempre e quando vem não mata a gente; essas são terras feitas por Deus Nossenhor. Cabo Verde teria sido _ diz o povo _ dez <em>respingos </em>de lama que o Pai do Céu sacudiu após seis dias de trabalho. Dez dedos sujos de um barro desorientado, das duas mãos celestes, fazem cair, no meio do mar: da mão esquerda o Barlavento e da direita o Sotavento. Obra do acaso.</p>
<p>Entre 1460-1462 navegadores portugueses descobrem dez ilhas e cinco ilhéus que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Dois grupos de ilhas e uma superfície de 4033km2, com um clima tropical seco. Foi nesse <em>balão de ensaio</em> que teve vez uma das experiências mais espantosas<em> </em>de miscigenação na era moderna. <span id="more-235"></span></p>
<p>Na formação da nação cabo-verdiana deve-se considerar que, para além de ter sido um achado, Cabo Verde teve, desde os primeiros momentos da sua história, a característica de ser um (não) lugar de encontros, de intercâmbio e de miscigenação de povos, de culturas e bens comerciais. Um <em>não-lugar habitado por ninguém</em> cuja posição estratégica intercontinental permitiu a utilização das ilhas, primeiramente a de Santiago, como entreposto comercial.</p>
<p>Homens livres e cativos da Europa e da África continental, pertencentes a diferentes povos, em contacto entre si e com os europeus, em sua maioria portugueses, deram origem ao <em>homem da terra</em>, na designação de Elisa Andrade, desde o início, um mestiço.</p>
<p>O homem da terra falou e ainda fala a língua da terra, resultante, ela também, do <em>caldeamento cultural, </em>segundo João Lopes Filho. O cabo-verdiano, língua, como todos os cabo-verdianos, cidadãos, tem um nome de registo que é seu nome oficial (Língua cabo-verdiana) e um nome &#8220;de casa&#8221; (Crioulo). Ele convive, num contexto linguístico de diglossia, com a Língua Portuguesa, desde que atingiu maturidade como sistema linguístico independente. É o veículo privilegiado de transmissão de saber e cultura. O Crioulo foi o principal ingrediente da caboverdianidade, um terceiro produto cujo passado remonta ao presente, da época, e faz da bipolaridade entre as africanidades e o Ocidente uma simbiose sui generis.  <!--more--></p>
<p>A música e os contos tradicionais, por exemplo, utilizam o Crioulo-Cabo-verdiano. E mesmo a Literatura considerada erudita, clássica, dialoga, desde a Claridade e mesmo antes dela, com a língua de berço. A cultura que essa língua, ao lado do português, transmite é multicolorida e diversificada. Tão rica e tão específica que, em alguns momentos da história das ilhas, ela é tomada como referência, alento nas adversidades e factor de união inter-ilhas e com a diáspora.</p>
<p>Diversidade cultural, diversidade natural, união na adversidade&#8230; foram ingredientes que compuseram uma nova visão sobre Cabo Verde: uma nação rica, de confiança no verde do seu nome, cor da esperança que é &#8211; o que é.</p>
<p>É sobre Cabo Verde, sua literatura e cultura que pretendemos falar. De uma nação que faz de suas fraquezas força e de sua pobreza um desafio, aos deuses e aos homens; do teimosamente continuar de pé, com Ovídio Martins e outros nomes da literatura das ilhas.</p>
<p>Venha conhecer os flagelados do vento leste, que morrem e ressuscitam todos os anos. Homens e mulheres que conjugam a seca com a esperança e a pobreza com a coragem, sem perder a Morabeza! Terra do Ka tem? Não, porque há sempre um crioulo inventando um poema diferente, como quis Onésimo.</p>
<p>O seu interesse e contribuição serão um estímulo.</p>
<p>_______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Fotos: José Teixeira e Augusta ÉTT<br />
* Tradução: &#8220;Este trabalho é dedicado ao Zé, à Clarissa e à Isabel, que são o meu Chão, o meu Céu e o meu Sol. E são também o Mar, onde o meu coração se banha.&#8221;</span></p>
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		<title>Parceria Atlântica</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 21:22:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
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		<description><![CDATA[O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do Porto, onde também fez um Mestrado. Lecionou em inúmeras instituições de ensino em Cabo Verde, como o Instituto Superior de Educação e o Liceu Amílcar Cabral. É quadro da Assembléia Nacional onde ocupa o cargo de redatora, desde 1999, e cursa o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UFF.</p>
<p><span id="more-224"></span></p>
<p>Para o blog assim nossa &#8220;correspondente Mana-Guta&#8221; se apresentou:</p>
<p><em>&#8220;Nos registos oficiais, eu sou Maria Augusta Évora Tavares Teixeira, um nome demasiado longo para se apresentar seja quem for. Mas como selecionar um dos sobrenomes seria cortar parte significativa de mim, prefiro que, entre tradição e modernidade, oficial e familiar, seja chamada simplesmente de Augusta ÉTT, abreviando-o e que, na minha vertente de aprendiz de escrevinhadora, me apelidem de Mana-Guta.<br />
Sobre o meu trabalho, considero ser meu dever servir, em primeiro lugar, Cabo Verde, minha terra, lá onde for prioritário, em cada etapa da nossa História. O percurso e os títulos académicos são importantes para que eu possa legitimar, aos olhos do mundo, o que eu faço. Mas ser, primeiramente cabo-verdiana e africana, e ser digna dessas identidades, isso, sim, é o que pretendo ser.&#8221;</em></p>
<p>Todos nós temos muito a ganhar com esse intercâmbio e já nos próximos artigos compartilharemos os primeiros textos enviados pela Guta, mulher de fibra, com uma escrita e uma voz singulares. Axé!</p>
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		<title>Na semana da consciência, o inconsciente da linguagem</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Nov 2008 23:07:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência Negra]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania). 
NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania). </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE DA LINGUAGEM <br />
</strong><strong>Por Simone Ribeiro da Conceição</strong></p>
<p>A linguagem revela o que se quer dizer e o que convém calar.  Mais precisamente, é o inconsciente que revela aquilo que o sujeito consciente de fazer parte de um país não racista, se esmera por mascarar em seu discurso.</p>
<p>Nessa semana de consciência negra em pauta, destaco dois momentos da linguagem que dão voz ao discurso da diferença, retido no inconsciente coletivo brasileiro, em um ambiente democrático racial que pressupõe igualdade. </p>
<p>Antes dos fatos, um retorno à história. História que deu margem para a fantasia de democracia racial do cordial cidadão miscigenado, indefinido e, portanto, brasileiro. No cenário de convivência de diferentes, instaurado pós-achamento do Brasil, a ausência de segregação legal fez supor que o mesmo espaço e oportunidades foram partilhados igualmente por todos os filhos da terra. Mas, um simples passeio pelos discursos, permite ver que ao longo de nossa formação, a linguagem identifica a valorização diferenciada dos grupos étnicos formadores da amálgama social brasileira.</p>
<p><span id="more-160"></span></p>
<p>Fazendo uso da linguagem científico-acadêmica Gilberto Freyre &#8220;viaja&#8221; ao traduzir a harmonia da sociedade brasileira. Justificando a falta de conflitos com a &#8220;<em>degradação das raças atrasadas pelas raças adiantadas&#8221;</em> o discurso do teórico reforçou as raízes de um Brasil de negros e índios cordiais, mediante à superioridade branca.</p>
<p>O século XX trouxe como achado a idéia de que dominar os inferiores e criar lugares a serem preenchidos por seu atraso foi a receita do sucesso para uma formação social brasileira que oferece espaço para todos. Negros, índios e seus descendentes foram dominados. Acomodados em espaços de subalternidade,  ajustado a seu atraso, deram sua  contribuição ao progresso da sociedade. As idéias de atraso e dominação marcaram a figura dos não-brancos. Ao longo do tempo, senso comum e discurso científico, portanto, prática e teoria, sedimentaram um perfil de inferioridade dos não-brancos, que causa espanto quando rompido.  </p>
<p>O espanto é o elo entre a linguagem consciente e a expressão do inconsciente analisada em dois discursos ouvidos séculos depois do percurso descrito acima. O grito do inconsciente  projeta na linguagem do brasileiro, as amarras que prendem o pensamento do século XXI aos pré-conceitos erguidos no passado e agregados às raízes de um Brasil que condena a afirmação da diferença positiva, mas, inconscientemente, afirma um imaginário de desigualdades.</p>
<p>Meses atrás, ouvi de uma colega de universidade a frase: &#8220;Nossa, como você fala bem!&#8221; Mas a desagradável consciência faz ver o que intenciona ser elogio, como uma manifestação de espanto diante da capacidade de um incapaz.  A experiência kafkiana do macaco fora do seu habitat, admirado pela academia. As chagas de Pedro Rubro e de meus antepassados ainda vicejam sempre que experimento estar onde não é lugar para o meu perfil. Minha habilidade surpreende uma colega que, por certo, teve por colegas, em instituições de ensino classe média, poucos colegas negros. Movida pelo impulso, a linguagem ajuda a dar visibilidade ao espanto em encontrar numa estudante negra uma qualidade previsível para qualquer estudante que atinge o degrau da pós-graduação.</p>
<p>A linguagem é uma ferramenta que permite provar o pensamento racista incutido nas relações sociais brasileiras. Na linguagem nossa de cada dia, empregamos um apuro para discursar com correção político-ideológica, burilando a fala para banir dela os termos pejorativos que, literalmente, condenam o usuário. No entanto, a linguagem está repleta de expressões ligadas à inferioridade característica aos pobres não-brancos. É imensa a coletânea de expressões que afirmam a depreciação daquilo que não tem os padrões que dominam o mundo e refletem a imagem dos dominadores e vencedores.</p>
<p>As piadas que ouvimos, os filmes que vemos e a realidade que vivemos apontam uma pobreza inata aos mestiços de pele mais negra. Em nosso inconsciente, a pele escura empurra o cidadão para a periferia do poder, da beleza, da inteligência e demais aspectos positivos. Ter consciência disso é um dever, de casa e rua, para brancos e não-brancos que produzem e reproduzem o pensamento social, na prática ou na teoria.</p>
<p>Na manhã que antecede o dia nacional da consciência negra, via mídia televisiva, a linguagem me presenteia com outra pérola: &#8220;<strong>A miss Angola é linda, gente!&#8221;</strong> Eufórica, a jornalista exibe seu espanto, diante de uma miss linda, como toda miss, apesar de negra. Reprimido conscientemente, o discurso racista retido no inconsciente, é projetado na linguagem redundante da apresentadora.</p>
<p>Produtos de seu tempo, as frases que renderam tantas linhas de reflexão são, sobretudo, reflexo do discurso enfatizado pelo pensamento social brasileiro na última década: &#8220;Não somos racistas&#8221;. A consciência que se quer afirmar publicamente não varrerá as imagens guardadas na &#8220;outra cena&#8221; freudiana ou inconsciente. </p>
<p>Numa sociedade que apostou na mistura e na afirmação da igualdade, separar é um crime. Distinguir e valorizar as diferenças de brancos e não-brancos, que, somadas, fazem o Brasil, é ruir. Espantado com as ações que apóiam a visibilidade e respeito às diferenças, um jornalista, como a que provocou meu espanto, e teórico, como aquele que &#8220;viajou&#8221; e redescobriu o Brasil, produz o <em>best seller</em> que lê a questão das divisões perigosas.</p>
<p>A consciência permite ao homem construir uma linguagem e distanciar-se do real, especialmente o perigo real de partilharmos o pequeno bolo dos privilégios, com a implementação de medidas que visam reparar desigualdades históricas e inserir egressos dos grupos estigmatizados em espaços &#8220;inexplicavelmente&#8221; habitados por uma minoria não-negra da população de maioria negra.</p>
<p>A linguagem é a embalagem daquele produto, que permanece o mesmo, mas recorre ao apelo do novo para vender. <em>Experts </em>no domínio do pensamento, intelectuais brasileiros do século XXI recorrem à linguagem, especialmente ao ato da designação, para produzir um discurso que, inconscientemente, afirma a existência do racismo que se quer negar. É o velho discurso da mistura, utilizado para valorizar a falta de identidade como nossa marca. Como marca do &#8220;somos todos mestiços, portanto, somos todos iguais&#8221;. Fruto das discriminações, a desigualdade econômica é elemento que renova o discurso da desigualdade. Falar de raça/etnia é desconsiderado, descabido e desautorizado pela ciência.</p>
<p>Fora dos centros de pesquisa, no calor do laboratório das ruas, a linguagem corporal emite discurso bem diferente. Num primeiro olhar, todo preto é pobre, e não escapa ao pré-conceito de sinonímia entre pobreza e negritude.  O sorriso jocoso do manobrista é a primeira saudação de desconfiança, da qual o branco pobre e bem vestido facilmente escapa.  O franzir de sobrancelhas, o olhar apertado e tantas muitas reações inconscientes da linguagem corporal acompanham quem carrega na pele o fenótipo que nos diferencia mesmo quando temos a mesma condição social.</p>
<p>Somos diferentes, esse é o ponto que não pode causar espanto. A condição humana é marcada pela diversidade. Afirmar a diferença e reclamar diante das desigualdades étnicas e sociais parece ser a mistura de atitudes mais cabível, para quem tem consciência de que brasileiro é construir uma identidade calcada no respeito às especificidades históricas que determinaram a posição de brancos e negros na cena e na &#8220;outra cena&#8221; da sociedade brasileira.</p>
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