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	<title>Sararau &#187; Cabo Verde</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Todo cabo-verdiano é um pouco… Poeta</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Dec 2008 02:51:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia
por isso trago dentro de mim
todos os mares do Mundo&#8221;
                       (Ovídio Martins)
Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia<br />
por isso trago dentro de mim<br />
todos os mares do Mundo&#8221;<br />
                       </span></em>(Ovídio Martins)</p>
<p>Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do cuidado, do esmero que é a ação do ritmo, da seleção criteriosa das palavras; as rimas, as imagens&#8230; e outras mil estratégias de textualidade lírica _ os ditos recursos estilísticos.</p>
<p>No falar e no escrever próprios dos cabo-verdianos, numa cultura herdeira e conviva da tradição oral, eis que a musicalidade intrínseca ao contar das estórias e do bater do pilão, do batuque<em> </em>e do <em>finason</em>, dos choros das visitas de pêsames e dos rituais matrimoniais, torna-se mana da arte da palavra. Tudo são poemas: ditos, cantados ou chorados. Versos que ora beiram à epopeia em memória do morto, ora lhe lastimam a saudade. Embalado pelo mesmo Mar que leva os bilhetinhos de saudade e os suspiros salgados das cristas das ondas, o homem crioulo é e se faz com o outro um pouco&#8230; poeta. <span id="more-254"></span></p>
<p>São dizeres de recomendação na despedida da nubente, logo antes das cerimónias oficiais &#8211; <em>noiba ba sentu</em> (noiva no assento); e, mais tarde, na <em>bênção</em> de acolhida dos noivos à casa dos ancestrais, após as cerimónias oficiais do &#8220;Registo&#8221; ou do &#8220;Religioso&#8221;. Vejamos um momento de <em>noiba na sentu </em>de improviso. O texto foi recolhido no interior de Santiago, em meio a cantares de batuque, acompanhados de palmas ritmadas e a seguinte melopeia:</p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;"><em>Kazamentu ê mel / </em><em>Kasamentu ê fel /</em><em>Txora! / </em><em>Noiba na sentu ê bonitu.(&#8230;) /Kazamentu ê grandi! /<br />
</em><em>Pensa dretu, bu bá d&#8217;um bês / </em><em>Mara bu korda séku, boita-l / </em><em>Boita-l na nkunhal di bu kasa (&#8230;)<br />
</em><em>Deus libra-u di amizadi fingidu / </em><em>Deus libra-u di kumida kumprádu (&#8230;) /</em><em>Deus ba bu dianti! /<br />
</em></span><span style="font-size:10px;"><em>Nossa Senhora di bem kazadu pega-u na mô, / </em><em>Deus faze-u mudjer filis y honrada! </em></span></em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-258" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento1.jpg" alt="" width="277" height="99" /><img class="alignnone size-full wp-image-259" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento2.jpg" alt="" width="276" height="99" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size:10px;"><em>Casamento é mel, Casamento é fel. /Chora sim, chora porque casamento é coisa grande!/<br />
Amarra bem a tua corda, faz um nó cego e dá-lhe voltas: /E prende-o, no &#8220;nkunhal&#8221;da tua casa.(&#8230;) /<br />
Que Deus te livre de amizade fingida, /E que Deus te livre de comida comprada.(&#8230;) /Deus te guie, /<br />
Nossa Senhora dos bens casados te segure pela mão /Deus te faça mulher feliz e honrada!</em></span></p>
<p>Estas são imagens que ilustram a idiossincrasia cabo-verdiana: antes do casamento, a nubente, sentada no meio de uma roda feita de mulheres de todas as idades, escuta suas vizinhas e familiares, antes de sair, pela última vez como solteira, da casa onde nasceu.</p>
<p>Nas fotos acima, após o casamento civil, a nova família é recepcionada, em ritual tradicional, que inclui discursos dos pais, padrinhos e outros familiares mais velhos &#8211; a benção. A passagem do pano, tal qual nas danças tradicionais, é, ao mesmo tempo, razão de alegria e de apreensão: alegria pela confiança depositada e apreensão pelo sentido de responsabilidade. Nos rituais do matrimónio, o pano traz alívio por simbolizar proteção dos mais velhos; mas também a emoção no assumir da continuidade dos valores das famílias de origem, que são legados à nova família.</p>
<p>Tal como o casamento, todos os rituais dos ciclos de vida são momentos de poesia: gravidez, parto, <em>festa</em> <em>de guarda cabeça</em> , <em>festa de cristão</em>, batismo, noivado, casamento e morte. Os rituais tradicionais possuem gestos próprios, indumentária própria, gastronomia própria, mas, principalmente, palavras próprias! Diga-se o mesmo das <em>festas de função</em> e de todos os momentos importantes da vida social e de lazer do povo das ilhas.</p>
<p>Do Pelourinho na Ribeira Grande de Santiago, símbolo da repressão mas também da resistência, à dança e música contemporâneas, convido você, caro leitor, a nos acompanhar nas estórias e outras manifestações culturais detse país, onde a palavra se faz arte. Deixemos os itálicos em itálico, pois serão motivos para as próximas viagens. Descubramos juntos um Cabo Verde Crioulo, onde tradição e modernidade se completam. Tudo é poesia acalentada pela musicalidade dos sete mares do Mundo.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size:10px;">Fotos: José Teixeira</span></p>
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		<title>Cabo Verde: terra do ka tem?</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 22:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
Didikason:
Pa: Zé, Clarissa y Isabel
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:
  Mar di nha Pêtu*

O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.
                                                                           Onésimo Silveira
Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do Ka tem prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right; font-size: 10px;"><em>Didikason:<br />
Pa: Zé, Clarissa y Isabel<br />
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:<br />
  Mar di nha Pêtu*</em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-238" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/cabo-verde-guta1.jpg" alt="" width="492" height="124" /></p>
<p style="text-align: center;"><strong><em>O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.<br />
                                                                           </em></strong><span style="font-size: 10px;">Onésimo Silveira</span></p>
<p>Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do <em>Ka tem </em>prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra moldada e criada por Deus, como foram outras terras. Não foi o barro que deu forma, onde depois se fizeram terras&#8230; terras onde há chuva e há fartura; onde a chuva vem sempre e quando vem não mata a gente; essas são terras feitas por Deus Nossenhor. Cabo Verde teria sido _ diz o povo _ dez <em>respingos </em>de lama que o Pai do Céu sacudiu após seis dias de trabalho. Dez dedos sujos de um barro desorientado, das duas mãos celestes, fazem cair, no meio do mar: da mão esquerda o Barlavento e da direita o Sotavento. Obra do acaso.</p>
<p>Entre 1460-1462 navegadores portugueses descobrem dez ilhas e cinco ilhéus que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Dois grupos de ilhas e uma superfície de 4033km2, com um clima tropical seco. Foi nesse <em>balão de ensaio</em> que teve vez uma das experiências mais espantosas<em> </em>de miscigenação na era moderna. <span id="more-235"></span></p>
<p>Na formação da nação cabo-verdiana deve-se considerar que, para além de ter sido um achado, Cabo Verde teve, desde os primeiros momentos da sua história, a característica de ser um (não) lugar de encontros, de intercâmbio e de miscigenação de povos, de culturas e bens comerciais. Um <em>não-lugar habitado por ninguém</em> cuja posição estratégica intercontinental permitiu a utilização das ilhas, primeiramente a de Santiago, como entreposto comercial.</p>
<p>Homens livres e cativos da Europa e da África continental, pertencentes a diferentes povos, em contacto entre si e com os europeus, em sua maioria portugueses, deram origem ao <em>homem da terra</em>, na designação de Elisa Andrade, desde o início, um mestiço.</p>
<p>O homem da terra falou e ainda fala a língua da terra, resultante, ela também, do <em>caldeamento cultural, </em>segundo João Lopes Filho. O cabo-verdiano, língua, como todos os cabo-verdianos, cidadãos, tem um nome de registo que é seu nome oficial (Língua cabo-verdiana) e um nome &#8220;de casa&#8221; (Crioulo). Ele convive, num contexto linguístico de diglossia, com a Língua Portuguesa, desde que atingiu maturidade como sistema linguístico independente. É o veículo privilegiado de transmissão de saber e cultura. O Crioulo foi o principal ingrediente da caboverdianidade, um terceiro produto cujo passado remonta ao presente, da época, e faz da bipolaridade entre as africanidades e o Ocidente uma simbiose sui generis.  <!--more--></p>
<p>A música e os contos tradicionais, por exemplo, utilizam o Crioulo-Cabo-verdiano. E mesmo a Literatura considerada erudita, clássica, dialoga, desde a Claridade e mesmo antes dela, com a língua de berço. A cultura que essa língua, ao lado do português, transmite é multicolorida e diversificada. Tão rica e tão específica que, em alguns momentos da história das ilhas, ela é tomada como referência, alento nas adversidades e factor de união inter-ilhas e com a diáspora.</p>
<p>Diversidade cultural, diversidade natural, união na adversidade&#8230; foram ingredientes que compuseram uma nova visão sobre Cabo Verde: uma nação rica, de confiança no verde do seu nome, cor da esperança que é &#8211; o que é.</p>
<p>É sobre Cabo Verde, sua literatura e cultura que pretendemos falar. De uma nação que faz de suas fraquezas força e de sua pobreza um desafio, aos deuses e aos homens; do teimosamente continuar de pé, com Ovídio Martins e outros nomes da literatura das ilhas.</p>
<p>Venha conhecer os flagelados do vento leste, que morrem e ressuscitam todos os anos. Homens e mulheres que conjugam a seca com a esperança e a pobreza com a coragem, sem perder a Morabeza! Terra do Ka tem? Não, porque há sempre um crioulo inventando um poema diferente, como quis Onésimo.</p>
<p>O seu interesse e contribuição serão um estímulo.</p>
<p>_______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Fotos: José Teixeira e Augusta ÉTT<br />
* Tradução: &#8220;Este trabalho é dedicado ao Zé, à Clarissa e à Isabel, que são o meu Chão, o meu Céu e o meu Sol. E são também o Mar, onde o meu coração se banha.&#8221;</span></p>
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		<title>Parceria Atlântica</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 21:22:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do Porto, onde também fez um Mestrado. Lecionou em inúmeras instituições de ensino em Cabo Verde, como o Instituto Superior de Educação e o Liceu Amílcar Cabral. É quadro da Assembléia Nacional onde ocupa o cargo de redatora, desde 1999, e cursa o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UFF.</p>
<p><span id="more-224"></span></p>
<p>Para o blog assim nossa &#8220;correspondente Mana-Guta&#8221; se apresentou:</p>
<p><em>&#8220;Nos registos oficiais, eu sou Maria Augusta Évora Tavares Teixeira, um nome demasiado longo para se apresentar seja quem for. Mas como selecionar um dos sobrenomes seria cortar parte significativa de mim, prefiro que, entre tradição e modernidade, oficial e familiar, seja chamada simplesmente de Augusta ÉTT, abreviando-o e que, na minha vertente de aprendiz de escrevinhadora, me apelidem de Mana-Guta.<br />
Sobre o meu trabalho, considero ser meu dever servir, em primeiro lugar, Cabo Verde, minha terra, lá onde for prioritário, em cada etapa da nossa História. O percurso e os títulos académicos são importantes para que eu possa legitimar, aos olhos do mundo, o que eu faço. Mas ser, primeiramente cabo-verdiana e africana, e ser digna dessas identidades, isso, sim, é o que pretendo ser.&#8221;</em></p>
<p>Todos nós temos muito a ganhar com esse intercâmbio e já nos próximos artigos compartilharemos os primeiros textos enviados pela Guta, mulher de fibra, com uma escrita e uma voz singulares. Axé!</p>
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