Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)

(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.) É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha "primeira" vida literária. Devo...

O peso de algumas palavras

(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto) Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de "Oração de Sapiência", mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura...

A poesia de Ondjaki em entrevista

"Tristeza não tem fim, felicidade sim" ... Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os Materiais.. de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. Actu sanguíneu (2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda,...

Ondjaki, um contador de histórias

O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, O Leão e o Coelho Saltitão, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que seduz pela palavra, transmitindo ao leitor/ ouvinte experiências e formas de ver o mundo. Baseado em um conto tradicional Luvale, o livro traz alegorias que, em linguagem figurativa, "dizem o outro", e nos fazem imaginar, quem...

Entrevista com Pepetela

No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro O quase fim do mundo, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. Nosso encontro em Porto foi outro prazer. Falamos um pouco de tudo: literatura, cinema, política, temas contemporâneos etc. Veja aqui a entrevista.   CF - O que o inspirou a dar a sua versão para o tema "fim do mundo"? Pepetela - A idéia surgiu de uma conversa...

O papel da literatura em Angola e Moçambique

Já falei de inúmeros encontros na Fliporto, mas um deles foi realmente especial. Em uma das mesas de encerramento, a reunião dos moçambicanos Marcelino Santos, Luís Carlos Patraquim e Paulina Chiziane e dos angolanos Pepetela, João Melo e Amélia Dalomba foi emocionante. Com um moderador competente, o professor Patrick Chabal, da King´s College London, a conversa destacou aproximações entre as literaturas angolana e moçambicana e homenagens especiais a Marcelino Santos e Pepetela. Na verdade, mais uma vez por conta do tempo, os escritores versaram sobre uma única...