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	<title>Sararau</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 21:26:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>

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		<description><![CDATA[(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)
É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)</strong></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/05/joaomelo-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" />É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha &#8220;primeira&#8221; vida literária.<br />
Devo também esclarecer que, na verdade, não me concebo como um &#8220;escritor de laboratório&#8221; ou, como parece uma tendência actual, um &#8220;escritor de conferências, seminários e capas de revista&#8221;. O que eu sou como escritor resulta, desde logo, de todas as minhas vivências.</p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>&#8220;A linha da poesia é a linha da vida&#8221;</strong></span></p>
<p>O verso em epígrafe fecha o meu poema &#8220;Manifesto&#8221;, incluído pela primeira vez no livro <strong>Todas as Palavras</strong>. O mesmo resume, digamos assim, a minha atitude estética.</p>
<p>Não tenho dúvidas de que o meu ambiente familiar me ajudou a encontrar os caminhos que tenho trilhado, quer na vida quer na literatura. Sou filho de um jornalista e nacionalista &#8211; Aníbal de Melo &#8211; que um dia me disse que eu, se quisesse escrever, teria de ler Eça. Felizmente, obedeci-lhe. Além disso, tenho dois tios maternos que fazem parte da história da literatura e das artes plásticas angolanas (além da luta nacionalista): Henrique Guerra e Mário Guerra, ambos ligados à revista Cultura.</p>
<p>Começei a escrever aos 15 anos de idade, por causa, como gosto de dizer, de uma viagem de comboio. O que aconteceu é que, numa viagem entre Luanda e Malanje, a visão espantosa e exuberante da floresta tropical no Morro do Mbinda, perto da hoje cidade de Ndalatando, impressionou-me de tal maneira que, no regresso a casa, começei a escrever de repente, até hoje.</p>
<p>Em 1973, com 17 anos de idade, publiquei os meus primeiros textos, numa revista luandense chamada <em>A Semana Ilustrada</em>. Nesse mesmo ano, fui para Coimbra estudar Direito, depois de ter concluído o segundo ciclo no Liceu Salvador Correia, em Luanda. A viagem para Lisboa, no paquete &#8220;Vera Cruz&#8221;, é uma das minhas memórias mais fortes. O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Coimbra e, a partir daí, a minha vida entrou num processo de transformações absolutamente radicais, proporcionando-me uma série de experiências extraordinárias.</p>
<p>Após o 25 de Abril, conheci em Coimbra o escritor angolano Manuel Rui Monteiro, a quem mostrei os meus primeiros poemas. Ele interessou-se em publicá-los em livro na editora Centelha, mas isso nunca chegou a suceder. Outras urgências me chamavam, assim como a todos os jovens angolanos de então.</p>
<p>Voltei para Angola no dia 1 de Dezembro de 1974, obedecendo mais uma vez à voz do meu pai, que me telefonou de Luanda logo depois de ter regressado do exílio onde tinha estado de 1961 a 1974, combatendo pelo MPLA. Respondia também, juntamente com outros jovens angolanos que, na altura, estudavam em Coimbra e Lisboa, a um apelo de Agostinho Neto, líder do MPLA. Foi a minha primeira viagem de avião. Uma curiosidade: viajei com um bilhete arranjado pelo major Melo Antunes, a pedido do falecido médico e nacionalista angolano Arménio Ferreira.</p>
<p>No dia 8 de Março de 1975, começei a trabalhar na então Emissora Oficial de Angola (hoje Rádio Nacional), como jornalista. Estive na referida estação até Março de 1978, quando fui para a agência de notícias de Angola, ANGOP, primeiro como director adjunto e depois como director geral. Em Dezembro desse ano, passei também a dirigir o <em>Jornal de Angola</em>, em regime de acumulação. Tinha então 23 anos de idade.</p>
<p>Exerci esses cargos até 1982, ano em que fui trabalhar para o MPLA, como chefe da secção de Informação Internacional. Dois anos mais tarde, regressei à ANGOP, desta vez para abrir o escritório da agência no Brasil. Estive nesse país de Abril de 1984 a Dezembro de 1991, como correspondente de imprensa. Foi um período ao qual devo muito, em termos de crescimento humano, profissional e cultural. Aproveitei, inclusive, para me graduar e pós-graduar em Comunicação.</p>
<p>No início de 1992, já de regresso a Luanda, fundei a primeira agência de comunicação e lançei o primeiro jornal privado angolano do pós-independência, respectivamente, a Movimento e o <em>Correio da Semana</em> (este último não existe mais). Em Setembro de 1992, nas primeiras eleições realizadas em Angola, fui eleito deputado pelo MPLA, função que mantenho até o presente, pois fui reeleito no ano passado.</p>
<p>Desde 2000, começei a dar aulas de Comunicação em duas universidades locais. Há três anos atrás, voltei a lançar-me numa aventura jornalística: criei a revista <em>África 21</em>, que dirijo, com o apoio fundamental do jornalista português Carlos Pinto Santos.</p>
<p>Este, resumidamente, o meu percurso pessoal até agora. Não tenho dúvidas de que todas as minhas vivências e experiências estão presentes, de múltiplas formas, na minha obra literária. Eu tive a ventura de protagonizar ou acompanhar alguns acontecimentos extraordinários dos últimos 50 anos, em Angola e no mundo, o que, para um escritor, é uma benesse inegável.</p>
<p><span id="more-415"></span></p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>Vivências, experiências e literatura</strong></span></p>
<p>Confesso que tenho vivido, até agora, de maneira profunda e intensa, mas sem grandes alardes e procurando sempre, pretensiosamente, manter o controlo (para os que crêem nisso, sou virginiano). Como digo em &#8220;Auto-retrato em 3&#215;4&#8243;, &#8220;<em>Aqui esteve alguém que / silencioso / colheu o doce segredo das tempestades&#8221;</em>.</p>
<p>Também já tive algumas perdas. O meu pai morreu em circunstâncias trágicas, apenas seis dias depois da independência de Angola, pela qual fez todos os sacríficios. Depois da morte dele, dediquei-lhe um poema, &#8220;Contribuições para a definição de um herói&#8221;, onde escrevi que &#8220;herói também é / o que escolhe o seu tempo de morrer&#8221;. Tenho pena, até hoje, de não ter convivido mais tempo com ele, embora o meu padrasto, com quem cresci, sempre tenha sido, de facto, outro pai para mim e o meu irmão, Kiluxa.</p>
<p>A morte deste último (ele chamava-se António José, mas lembrar-me-ei dele para sempre como o Kiluxa, &#8220;nosso único guerreiro&#8221;, que enfrentou os zairenses e os sul-africanos, mas morreu inesperadamente em Luanda, por doença, aos 49 anos) foi outra grande perda, que ainda sofro presentemente. Enfim, perdi alguns amigos, assim como velhos amores e numerosas paixões.</p>
<p>Mas ainda tenho a minha família: a minha mulher, Stella, &#8220;meu novo amor para sempre&#8221;, os meus filhos, Helena, Solange, Mário e Matári, a minha mãe e o seu marido, João Gourgel, meu segundo pai, os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus tios e todos os meus primos. Não esqueço igualmente os meus amigos. Como sou um optimista e acredito na generosidade humana, estou convicto que são muitos. Quanto aos inimigos, apenas me dão mais vontade de continuar vivo e interventivo, política, cultural e socialmente.</p>
<p>Além disso, convivo, por força das múltiplas actividades com as quais estou envolvido &#8211; jornalismo, literatura, política, publicidade e ensino -, com uma série de homens e mulheres de todas as idades, profissões, estatutos, nacionalidades e origens. Todas as pessoas com quem, por uma razão ou outra, me tenho cruzado ao longo da vida estão presentes, de qualquer forma, nos onze livros de poesia e quatro de contos que publiquei até este momento.</p>
<p>Obviamente, as minhas vivências e experiências, por si só, não fazem de mim um escritor. Eu sempre intuí isso, mas aprendi-o de uma forma elaborada com Luandino quando lhe entreguei, em 1987, o meu livro <strong>Poemas de Amor</strong>. Disse-me ele:-&#8221;Literatura é mais do que experiência&#8221;. Felizmente, &#8220;captei a mensagem&#8221; e fiz várias mudanças no livro, eliminei alguns textos e reelaborei outros, até que, dois anos depois, o mesmo foi publicado pela União dos Escritores Angolanos.</p>
<p>De Luandino aprendi ainda outra lição: para escrever, é preciso ler. Confirmo que devo muito às minhas leituras. O primeiro deslumbramento aconteceu quando li na casa de Rui Mingas em Lisboa, em 1970, a <em>Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa</em>, organizada por Mário de Andrade. A poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Craveirinha e outros, a que tive acesso pela primeira vez nessa altura, revelou ao então adolescente de 15 anos qual o caminho a seguir.</p>
<p>Angola é o chão de onde eu, orgulhosamente, venho. É desse lugar (como se sabe, lugar é perspectiva) que eu falo com o mundo. Mas também aprendi rapidamente que, embora fiel à tradição literária angolana, sobretudo no que diz respeito à relação entre a literatura, a história e a sociedade, era preciso e possível começar a falar com o mundo de outra maneira. Além de tudo o que vivi, duas leituras foram fundamentais para mim, nesse sentido: António Ramos Rosa e João Cabral de Melo Neto. A elas juntaram-se, mais tarde, as de Saramago, com a sua literatura reflexiva, e a do brasileiro Ruben Fonseca.</p>
<p>&#8220;Eu sou deste mundo e deste tempo&#8221;, escrevi há muitos anos, num dos meus livros preferidos, <strong>Canção do Nosso Tempo</strong>.</p>
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		<title>O peso de algumas palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 00:35:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
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		<description><![CDATA[(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)
Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de &#8220;Oração de Sapiência&#8221;, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)</strong></p>
<p>Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de &#8220;Oração de Sapiência&#8221;, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.</p>
<p>Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.</p>
<p>Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra <strong>engarrafamento </strong>ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou ocalor. O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada paraassaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Nãonego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa. A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana temreflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.</p>
<p><span id="more-408"></span></p>
<p>Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é <strong>crise</strong>. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente, embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros. Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável cerimónia.</p>
<p>Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver. Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente &#8220;O escritor e a crise&#8221;. Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise. E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que estaseria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a resolvê-la, apenas a sofrê-la.</p>
<p>Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo fundamental, único e de importância vital. Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências. De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto. Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro.</p>
<p>Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão. Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos. No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm portarefa relembrá-los.</p>
<p>No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que Angola é um país rico. Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta. Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país. A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado. Mas a crise veio paranos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar oprimeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar. Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dosnossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira. Além do mais, o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes. Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos. Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.</p>
<p>Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.</p>
<p>Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.</p>
<p>A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: <strong>ganância</strong>. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o &#8220;a&#8221;. Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações. Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.</p>
<p>Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem. Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia.</p>
<p>Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.</p>
<p>A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida. Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.</p>
<p>E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular: a palavra <strong>ética</strong>. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.</p>
<p>Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo. Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética. Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.</p>
<p>A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família. Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu. Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas. Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.</p>
<p>Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A <strong>universidade</strong>. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar.</p>
<p>Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor por excelência do desenvolvimento. Este é o espaço ideal para se reflectir e debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis. Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades. É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio. Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa. No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento. Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.</p>
<p>Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível. Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo. Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade.</p>
<p>Universalidade, universidade. Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade.</p>
<p><strong>Pepetela<br />
</strong>Luanda, 13 de Março de 2009</p>
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		<title>A poesia de Ondjaki em entrevista</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 02:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; &#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; </em>&#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os <em>Materiais.. </em>de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. <em>Actu sanguíneu </em>(2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda, também seu primeiro livro publicado, e <em>Há prendisajens com o xão &#8211; O segredo húmido da lesma &amp; outras descoisas </em>(2002), pela Caminho, são os outros dois. É importante lembrar que Ondjaki, aos 31 anos, já tem doze obras publicadas, entre elas as premiadas <em>Bom dia Camaradas </em>(2001), <em>E se amanhã o medo </em>(2005) e <em>Os da minha rua </em>(2007). Para saber mais sobre suas produções, visite <a href="http://www.kazukuta.com/">www.kazukuta.com</a></p>
<p><img class="size-full wp-image-432 alignleft" title="IDE28001" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/ondjaki1.jpg" alt="" width="200" height="250" />Em <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas </em>(2009), encontramos um trabalho que mistura gêneros e propõe um <em>desaprender </em>com as palavras. Convocando outros poetas para olharem juntos o chão do mundo e do próprio sujeito, Ondjaki constrói uma obra lírica de muito boa qualidade.  O poema &#8220;Corpo&#8221; enuncia: <em>&#8220;em cima do que foi olhado pela poesia/ estendo o meu luando/ empresto meu corpo ao chão/ e adormeço.&#8221; </em></p>
<p>Para melhor apresentar Ondjaki e sua nova obra aqui no Sararau, entrei em contato com o escritor e pedi uma entrevista, gentilmente concedida via email.  Conversamos um pouco sobre poesia, os <em>Materiais.. </em>e a vida. Para as perguntas, busquei inspiração também em Clarice Lispector e seu livro &#8220;De corpo inteiro&#8221;, com entrevistas a grandes artistas. &#8220;O que é o amor? Qual é a coisa mais importante do mundo? Vale a pena escrever? Você tem medo?..&#8221; são algumas das questões que eu e Clarice fazemos a Ondjaki. Ele responde a todas essas e muito mais.. Leia na íntegra:</p>
<p><strong>CF -</strong> <strong>O que é poesia para você</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é a poesia que eu leio, que eu gosto de ler, não a que eu faço. A que eu faço fica demasiado pouco-boa, demasiado estranha, para vir a senti-la como poesia. Pode ser &#8211; e oxalá que assim seja &#8211; que um dia isso se altere. A poesia para mim é a frase que emociona. Também posso olhar para o seu requinte, o seu bom gosto, a sua filosofia, a sua mensagem, mas sobretudo gosto que me agrade, que me acrescente, que me arrebate. Que me sonhe. Que me deixe sonhar.<br />
Sabe, não posso falar em termos universais, nem isto que vou dizer é uma consideração muito preparada, mas acho que Manoel de Barros é poesia. Quase todas as suas frases são poesia. Não me incomoda a tautologia, nem rítmica nem ao nível de conteúdos, pelo contrário: acho que ele sabe o que está a fazer (por um lado); e por outro, acho que ele nem sabe bem o que tem estado a fazer, a dizer, e é por isso que ele me parece um poeta-mesmo. Um poeta verdadeiro. Mas houve frases do músico Adoniran Barbosa, e até momentos cantados, que também me cheiram a poesia, isto para falar de brasileiros. A poesia do angolano Ruy Duarte de Carvalho, embora muito mais elaborada em termos linguísticos, numa busca que é interna mas que é também antropológica, essa poesia é muito boa, muito profunda. Não tenho a mínima dúvida, quando olho a poesia do Ruy, que aquilo é poesia. E quando não tenho dúvidas, quando a sinto tão limpa, importante, profunda, seca, séria, divertida, ternurenta, forte, intensa, então não me restam dúvidas, estou perante um poema&#8230;<br />
A poesia também está nos olhares. Sobretudo nos olhares dos velhos e das crianças. Há algo de muito semelhante na inocência do olhar de uma criança que sempre me lembra a candura do olhar dos velhos. Como se ambos seres conseguissem verdadeiramente sorrir pelo lado menos complicado da vida, a criança porque ainda não teve que passar por isso, o velho porque já não se quer preocupar com isso. Então brota a inocência. O mesmo nas mãos: as mãos das crianças e dos velhos são poemas abertos, fáceis de ler, fáceis de encontrar. Nem sempre fáceis de interpretar&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Vinícius de Moraes, em <em>Samba da bênção, </em>cantou que &#8220;pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ se não não se faz um samba não&#8221;. Você diria o mesmo da poesia</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Há qualquer coisa de nostálgico no interior, no útero, do poema&#8230; Há qualquer coisa de humano, e cá dentro do que é humano, muitas vezes, o sangue se move pela força do que não se explica. E às vezes o que não se explica, embora possa não ser totalmente triste, muitas vezes é um pouco melancólico&#8230;<br />
Na poesia de Manoel de Barros (é interessante) eu não encontro tristeza. Apenas nostalgia, saudade do berço quotidiano da infância, saudades de uma chão que lhe fugiu dos pés e que agora ele invoca para se devolver à vida-que-já-foi. Isso é bonito. Mas não é triste.<br />
Em Fernando Pessoa acho que há tristeza. É uma tristeza tão grande e profunda que não chega a ser evidente. É a tristeza do poeta que mistura a saudade do passado com a do futuro, só que em Pessoa, acho eu, isso foi mais longe: Pessoa tinha saudades da pessoa, das pessoas, que ele ainda não tinha sido&#8230;. Isso intensificou a sua poesia ao ponto de ancorar o que fossem os sentimentos humanos que ele usava. Com &#8220;ancorar&#8221; quis dizer &#8220;transformar em âncora&#8221;, e âncora contraditória: uma âncora que navegasse. Pessoa navegava em si e nos outros, nos mares e nos tempos, tanto que teve que se desdobrar para melhor se expressar&#8230;<br />
Talvez sim&#8230; No fundo mesmo, haja um bocadinho de tristeza em cada poeta&#8230;</p>
<p style="padding-left: 60px;"><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/capa-ondjaki.jpg" alt="" width="90" height="139" />tinha aprendido que era muito importante<br />
criar desobjectos.</strong><br />
<strong>certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar</strong><br />
<strong>o cinzento. não munido de nenhum</strong><br />
<strong>artefacto alegre, inventei um espanador de</strong><br />
<strong>tristezas.</strong><br />
<strong>era de difícil manejo &#8211; mas funcionava.</strong><br />
<strong> </strong><em>In: Materiais.., p. 7</em></p>
<p> </p>
<p><strong>CF &#8211; Como se processa em você a criação</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é quase sempre através de esperas. Esperar. Ir sentindo, através da vida, das leituras, das sensações, e depois esperar que a escrita, isto é, o eco desses sentires, apareça em formato literário. É por isso que às vezes a boa estória aparece sob o formato de conto, ou poema, ou livro mais extenso. Mas é com as esperas que funciono melhor, e depois juntar a isso as músicas que eu já sei que provocam emoções boas para escrever. E o milagre vem&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quando é que você começou a escrever</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter começado com os meus cadernos, não eram diários porque não escrevi todos os dias, mas eram cadernos de coisas sérias e internas, de queixumes e rotinas, e depois começaram a aparecer poemas. Também alguns contos. Deve ter sido a partir de 1990&#8230; (Mas isso nunca se sabe, a pessoa começa a escrever quando começa a sentir um mundo de um jeito diferente &#8211; pressentindo coisas pequenas que não sabe explicar, que não sabe dizer&#8230; E isso um dia irrompe, de dentro para fora, e uma urgência nos faz descobrir o caminho. Essa urgência é a escrita&#8230; talvez.)</p>
<p><span id="more-370"></span></p>
<p><strong>CF &#8211; A crítica (literária) constrói?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Costumo levar a sério a crítica que me diz algo que seja sério. Que eu note (ou pense) que veio de leituras e comparações sérias. Se não, nem me afecta. Nem a boa nem a má. Desconfio dos elogios exagerados, levo-os pouco a sério. E tenho uma tendência para valorizar o que é a crítica mais negativa, também porque me parece mais séria, mais sentida. Banalizo um pouco os elogios, enfim, ainda que sejam muito sinceros, não acho que venham acrescentar grande coisa.</p>
<p><strong>CF &#8211; Qual de seus livros você mais gosta? Por quê?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não há um. Realmente não há. Talvez um dia, não sei. Tenho um carinho muito especial pelo &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, foi um livro escrito sem tempo nem pensamento, não tive muito tempo para o preparar, tudo nele é instinto ou memória. E entreguei-o rapidamente, não fiz o longo e habitual (agora é habitual) trabalho de revisão de que tanto gosto. E é sobre a minha infância, sobre a minha Luanda e os meus camaradas professores cubanos. Sinto que tenho por ele um carinho muito especial, sendo que é também o meu primeiro romance.<br />
Acho que o outro seria o &#8220;Quantas madrugadas tem a noite&#8221;, até ao momento o livro que me deu mais trabalho, que foi um desafio literário muito intenso. Custou e foi bom ao mesmo tempo. Doía e dava prazer descobrir a estória, lutei muito para chegar ao ritmo certo de contar a estória, e a meio dela senti que estava certo. E isso é bom, não para dizer bem do livro, é para dizer que é uma sensação fantástica estar a escrever e saber que o ritmo faz parte da estória, e que eu estava muito confortável com aquele ritmo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Que livro de literatura você gostaria de ter escrito? Por quê</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Mas deve haver algum, ou alguns&#8230; Continuo a achar que o &#8220;Cem anos de solidão&#8221; é um grande livro. Acho mesmo. Hoje em dia já está na moda criticar esse livro, tudo bem, não me incomoda isso, continuo a ver nele alguma originalidade no formato, no ritmo e nos conteúdos. E se o comparo com outro livro (&#8220;O amor nos tempos de cólera&#8221;), do mesmo autor, escrito tantos anos depois, sinto a mesma coisa: são dois livros muito bons. E este segundo que refiro é mais difícil ainda, por ser uma estória simples, digamos assim, estruturalmente. É uma estória de amor e de espera, o que intensifica o amor dos personagens e o suspanse do leitor.<br />
Hoje já não, mas durante muito tempo, nessa altura do início dos anos noventa, julguei que queria escrever livros como &#8220;O solitário&#8221;, de Eugene Ionesco. Hoje já não, mas sinto que foi uma grande influência, voltei a esse livro muitas vezes.<br />
Mas não posso dizer, neste momento, que exista um livro concreto que eu gostaria de ter escrito&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Nesse seu novo livro de poesia, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, você dialoga com inúmeros outros escritores: Luandino, Guimarães, Drummond, Adélia, Mia Couto, Borges, Arlindo Barbeitos, Manoel de Barros.. Quais influências você teve desses e de outros autores</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Essa coisa da influência é mesmo um mistério. Para mim. Há pessoas que pensam que se trata de um segredo, no sentido de que o escritor conhece o caminho da influência, e muitas vezes não o quer revelar&#8230; Não se trata disso. Este livro tem a ver com quotidianos, com sentires momentâneos, nem sequer se pode dizer que seja, como um todo, um livro temático. Bom, talvez haja &#8220;a noite&#8221; ou &#8220;a madrugada&#8221; como pano de fundo, não sei&#8230; Mas o que há de influência é algo maior e mais recuado, talvez: Luandino Vieira, Mia Couto, Manoel de Barros, sempre me passaram a ideia (assim eu os li) de que, com alguma imaginação e coerência, e sobretudo descobrindo a voz e um ritmo próprio, tudo era possível em literatura.<br />
Onde eu encontro a minha voz mais única, é nos livros &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, &#8220;Os da minha rua&#8221; e &#8220;AvóDezanove&#8230;&#8221;, aí há um ritmo que é mesmo meu, pelo menos é que sinto por agora. Nos outros livros, é uma espécie de linguagem literária, a que &#8220;me aconteceu&#8221;, digamos assim, para escrever essas estórias. Neste livro de poemas &#8220;materiais para&#8230;&#8221;, eu não sei como descrever ou explicar a linguagem. Nem deveria tentar, para quê explicar a poesia?<br />
A influência está mais nos livros do que nos autores. São os livros que nos emocionam e ensinam. E a vida também, em eco acordado do que sempre se vai sonhando&#8230; São as obras e os ritmos desses autores que me acompanham, e acompanham-me muito, muitas vezes, mesmo quando não escrevo.<br />
A literatura e as palavras já me salvaram muitas vezes do abismo da tristeza.</p>
<p><strong>CF &#8211; O chão vibrante da poesia de Manoel de Barros (também o de Mia, o de Guimarães..), que já aparecia ressignificado em Há prendisajens com o xão (2002), volta a ser explorado, fuçado, por você e sua linguagem própria, carregada de tristezuras e de afeto. O que te atrai no chão</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>O que me atrai no chão deve ser a sua capacidade germinadora, no sentido não só da semente, mas também do sonho; e a sua dimensão de lugar aberto, que contém sem reter, que educa sem viciar, que te solta sem te abandonar. Assim entendo a palavra chão: lugar sagrado de criaturas humanas e outras, ponto de reencontro de sensações e sentimentos. Talvez por isso o chão seja a casa de tantos poetas, e dos pés descalços, e o lugar das sombras, e do pó das asas das borboletas, e o lugar onde com suor o camponês deixa a semente para vir a saber da colheita&#8230;<br />
O meu chão poético é esse, o da esteira (luando), o das crianças correndo, o da poeira de Luanda, o chão verde de esperar as chuvas e de autorizar a passagem e a cantoria das rãs. O que me atrai no chão é que tem tanto a ensinar à Humanidade..</p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>O INÍCIO </strong><strong>[1/7/02]</strong><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância<br />
perdido no tempo. escorreguei no tempo.<br />
nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes<br />
lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a<br />
aldeia de ynari];<br />
adormeci na aldeia.<br />
ouvi um barulho &#8211; era a lesma a sorrir.<br />
o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que<br />
escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele<br />
coleccionava no quarto ou no coração das mãos.<br />
abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;">In: <em>Materiais.., </em>p. 13.</p>
<p><strong>CF &#8211; Quantas estórias tem cada poema seu</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Nem sempre sabemos. Nem sempre sei. Há poeminhas simples e poemas cheios de segredos&#8230; Há de tudo. E há também as estórias que os outros vão sentir ou inventar ao ler o poema&#8230; A beleza é essa, a extensão do labirinto sensorial, depois da criação&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quanto da sua poesia está nas suas estórias? (Me lembro aqui do último conto de Os da minha rua, p. exemplo. as lesmas do seu chão estão lá. a serem olhadas. Há um lirismo especial nas suas narrativas.)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Tudo na vida são vice versas, vice versos, vide versos&#8230; Brincriações, como diria o camarada Mia Couto. A pessoa é a mesma, os mundos é que se desdobram&#8230; Quanto mais tempo passe, melhor se verá o labirinto. E eu escrevo muito com coisas e pessoas de verdade, tiradas da minha vida afectiva e familiar, os meus amigos, as minhas ruas, as minhas luandas, e mesmo o que invento vem cheio de sentimentos e sensações que vi, vivi, olhei para recontar&#8230; é normal que o labirinto se vá revelando aos poucos.</p>
<p><strong>CF &#8211; Estão nos seus versos também, o tempo inteiro, Luanda, a Huíla, o Lubango, Benguela.. A poesia te ajuda a apalpá-los?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>A poesia me ajuda a combater as saudades. A prosa também. É verdade que invoco lugares e pessoas para não estar sempre longe deles, porque muitas vezes estou fisicamente longe de algumas dessas referências afectivas&#8230; A poesia me ajuda a sonhá-los mais perto&#8230;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>MANIPULAR A GRANDE ARDÓSIA </strong><strong>[9/8/02]</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>quando olhei o céu do lubango inundado de estrelas lindas,<br />
</strong><strong>o meu coração lembrou joão vêncio, suas estrelas<br />
</strong><strong>amorosas. todo um makulusu literário me inundou as<br />
</strong><strong>veias. imaginei um desenho para o luandino:<br />
</strong><strong>tropeçando entre as estrelas, dois compadres se abraçavam<br />
</strong><strong>em bebedeira: mais-velho e joão vêncio, o triste e o melancólico,<br />
</strong><strong>apertavam a noite nesse abraço [a imaginária imagem<br />
</strong><strong>era do foro do senhor chaplin].<br />
</strong><strong>manejando a ardósia do universo, tudo poderia ser alterado.<br />
</strong><strong>por exemplo:<br />
</strong><strong>fazer o joão vêncio pontapear uma estrela apagada até ela<br />
</strong><strong>se acender de novo; embebedar de alegria sulista o maisvelho<br />
</strong><strong>até abrandar as tristezas dele.<br />
</strong><strong>[...]<br />
</strong><strong>se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à<br />
</strong><strong>noite<br />
</strong><strong>e terminava este poema assim: etestrelas&#8230;!</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><em>In: <em>Materiais.., </em>p. 24</em></p>
<p><strong>CF &#8211; O que é que você desejaria para Angola?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>O desenvolvimento, obviamente. Foi para isso que o povo angolano lutou pela independência nacional, e é o objectivo social de todos os povos. A igualdade possível, a diminuição da pobreza extremada, porque algum pobreza sempre existirá, existem pobres na Suiça e na Suécia, no Japão, etc. Mas aqui vivemos ainda uma dimensão de pobreza extremada que é preciso extinguir urgentemente.<br />
O que eu mais desejo para Angola é que um dia venha a ter lideres que possam compreender e dar total prioridade à resolução dos problemas da maioria das pessoas. E em Angola a maioria das pessoas tem problemas básicos: nutrição, alimentação, ensino e saúde.<br />
Estou convencido que as principais bases de uma revolução, e precisamos sempre de revoluções (ainda que sejam pacificas), se conseguem a partir do desejo de educar a população. Educando, alimentando, tornando o povo livre para pensar e decidir. Obviamente que os políticos raramente querem isso&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Você escreve de manhã, de tarde ou de noite?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Sobretudo escrevo de noite. Espero os seres e vozes que habitam as madrugadas, os barulhos pequenos, e as ambiências nocturnas que me trazem ou acalmia ou inquietude&#8230; É de noite que pratico melhor o meu desassossego&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, a noite é o tempo da poesia? (Lendo os Materiais.., me sinto no meio da noite, mesmo que esteja lendo de dia.. &#8220;A noite seres&#8221; e &#8220;Imitação da madrugada&#8221; &#8211; os dois momentos da obra &#8211; parecem convocar o leitor para olhar o chão que está dentro, mais fechado, por isso mais noturno..)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter escrito muita coisa de noite, sim&#8230; Também me acontece, raramente, sentir a poesia em outras horas&#8230; Este livro é muito nocturno sim, cheio de ecos que me chegavam de madrugada. Aliás adoro essa palavra que parece estar sempre lânguida e deitada&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Um dos últimos poemas do livro traz velhos e novos sentidos para &#8220;Essa palavra margem&#8221;. Bem, no famoso conto de Guimarães Rosa, o medo do filho em assumir o lugar do pai na canoa é sem dúvida uma das imagens mais significativas. Eu pergunto: você tem medo da terceira margem</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não tenho medo&#8230; Também, na realidade, (e no sonho&#8230;) ainda não conheço bem essa que seja ou virá a ser a minha terceira margem, mas não tenho medo, tenho curiosidade&#8230; Uso abrir os livros de Guimarães (ou &#8220;Man Guimas&#8221;, como diria um certo Adolfo Dido&#8230;) como abro os livros de Clarice, em jeito de por-acaso, em jeito de espera, para respirar ou descobrir outras respirações&#8230; Adoro a palavra margem, prima-como-irmã da palavra varanda, ou maresia&#8230; E acho que gosto de espreitar as margens das pessoas e dos livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Fora sua vocação indiscutível, diga-me: vale a pena escrever?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei se vale a pena escrever. Vale a pena sonhar. Vale a pena escrever um livro no qual se crê. Vale a pena ser honesto com uma estória, isto é, deixar as palavras sangrarem o corpo da imaginação do escritor ao sabor dos ventos internos depois da imaginação falada para ser pensada como pensamento e ritmo de escrever o que às vezes foi sonhado para ser falado mas que vira palavra de parágrafo estético de pedaços da vida também do escritor e dos seus personagens&#8230;<br />
Vale a pena escrever a vida em pedaços de livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>São as pessoas. Seguramente. Elas englobam a amizade, o companheirismo, a ternura e os momentos vivos e humanos que nunca saberemos explicar nem descrever. As pessoas é que são o mundo, bichinhos e poemas incluídos nesse mundo&#8230; As pessoas são a minha bússola, e esse é o meu único medo de morrer no dia que isso vier a acontecer: não poder mais estar com as pessoas, e abraçá-las, e saber delas, e rir com elas&#8230;<br />
As pessoas. As ideias, as comunicações inventadas a fingir que sabemos mostrar aos outros que gostamos deles. As pessoas, partículas bonitas, humanas, movediças e calorosas, do que usamos chamar mundo&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; O que é o amor? Qualquer tipo de amor.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Talvez o amor seja sabermos estar&#8230; Assim como saber estar é saber dar-se, e saber buscar o que no outro nos faz crescer. Companhia. Respeito. Sexo. Ousadia. Rebeldia. Amizade. Companhia. Talvez o amor seja sabermos compreender o outro para voltarmos a nós em paz.</p>
<p><strong>CF &#8211; Diga alguma coisa que me surpreenda.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Esta questão é muito difícil. Não sei o que dizer&#8230; Portanto vou silenciar-me por aqui&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Obama, a &#8220;questão racial&#8221; e o esplendor do equívoco</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 15:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência Negra]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Inocência Mata 
(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no Semanário Angolense, Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)
&#8220;In no other country on Earth is my story even possible.&#8221;
&#8220;My presence on this stage is [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="font-size:12px;">Por Inocência Mata </span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size:11px;"><img style="float:right; margin:10px" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/conceicao_lima_e_inocencia_mata-278x300.jpg" alt="" width="167" height="180" />(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no <em>Semanário Angolense, </em>Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;In no other country on Earth is my story even possible.&#8221;<br />
&#8220;My presence on this stage is pretty unlikely.&#8221;<br />
(Barack Obama)</span></em></p>
<p>Ultimamente<strong> </strong>temos sido confrontados com uma série de textos &#8220;a propósito&#8221; de Barack Obama: artigos de opinião de africanos que decidem reflectir sobre a África com passagem pelos Estados Unidos. Exercício intelectual desafiante, mas que se responde aos propósitos da autoria, revela-se, em muitos casos, bastante temerário na sua mensagem. Ou até faccioso.</p>
<p>Uma das categorias mais resgatadas do caso Obama para discutir a realidade africana (em Angola ou em Moçambique por exemplo) é a questão da &#8220;raça&#8221;. Todos sabemos que <em>raça</em>, sendo categoria discursiva, é uma construção político-social, operando a representação de diferenças que funcionam como marcas simbólicas (como cor da pele, textura do cabelo, características físicas e corporais, etc) &#8211; não uma categoria biológica. Portanto, poupemo-nos do discurso pseudopedagógico sobre esta questão e discutamos o essencial: e o essencial é que declarações de boas intenções sobre o ideal não são performativas, isto é, não transformam a realidade concreta. E a realidade concreta, histórica, é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas.</p>
<p><span id="more-337"></span></p>
<p>E é aqui que começa o meu mal-estar quanto ao muito que tem sido dito sobre a &#8220;questão racial&#8221;. Um deles reporta-se ao facto de muitos que hoje celebram Obama serem os que começaram por dizer que a &#8220;questão racial&#8221; era uma falsa questão porque Barack Obama não era negro, mas sim mestiço e &#8211; pasme- se! &#8211; &#8220;crioulo&#8221;. Ora, como se sabe, esta &#8211; crioulidade &#8211; é uma noção inadequadamente empregue, de forma descontextualizada, referindo o processo de mestiçagem em Angola e que aparece como <em>&#8220;´royalty´ ou penhor da colonização (&#8230;) que intenta a legitimação de um qualquer direito histórico de ressarcimento, por</em> <em>inapagáveis memórias de tempos de discriminação biológica, interdição cultural e proscrição política&#8221;i</em> dos africanos tratados como &#8220;portugueses-outros&#8221;. Com este discurso de neutralização da importância desta questão, encaminhava-se oportunamente para a relativização do que representa, nos Estados Unidos, a eleição de um presidente negro quando, como lembrou o próprio no seu discurso de tomada de posse, há menos de 50 anos, o seu pai não seria servido num qualquer bar &#8211; apenas por ser negro. Subjacente está o estafado discurso do mérito, como se o mérito fosse um absoluto sem laços nenhuns com a realidade, funcionando, deste modo como noção que busca desqualifi car as desigualdades, as assimetrias e as discriminações, e acabando por concorrer para a naturalização de uma situação de desequilíbrio sem qualquer questionamento sobre a condição subalterna dos sujeitos que fazem parte do segmento não representado nas instâncias de poder, em todos os seus circuitos: social, económico, etnocultural, racial.</p>
<p>Relacionada com esta questão está uma possível discriminação de Barack Obama caso ele fosse um candidato africano, como refere Mia Couto<em>ii</em> no seu tão celebrado artigo de opinião. Se muitos duvidam da possibilidade de um Obama africano por não ser negro talvez seja por não terem conhecimento do que vem acontecendo em África, nomeadamente com Jerry Rawlings, ex-presidente do Gana, filho de pai escocês; Seretse Khama Ian Khama, presidente do Botswana, filho de mãe inglesa; Fradique de Menezes, presidente de São Tomé e Príncipe, filho de pai português. Além de que, conviria não esquecer, o próprio não se consideraria negro &#8211; considerar-se-ia diferente e pertencente a &#8220;outro&#8221; grupo. Por isso, quanto a este aspecto mais facilmente haverá um Obama africano do que um Obama europeu (e escusado será dizer que provavelmente não haveria uma primeira dama negra). Por outro lado, e como disse mais do que uma vez, podem ser traçados paralelismos entre a presença do negro na Europa e do branco em África<em>iii</em> . E se formos honestos, concordaremos quanto à muito maior visibilidade deste do que daquele. Assim sendo, porque será mais grave não haver um Obama africano do que não haver um Obama europeu? Além disso, olhando para os meandros do poder em muitos países africanos (sociais e culturais, quando não económicos e/ou militares), como falar de &#8220;marginalização e discriminação&#8221; de um segmento que, mesmo minoritário, se move no topo de uma pirâmide social?! Estranha discriminação! E sobre discriminação, acreditem, não sou apenas espectadora intelectual &#8211; sou catedrática!</p>
<p>O perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira. Por isso, convém relativizar a frase de Obama segundo a qual a sua história só ser possível na América. Em muita África tem sido possível: isto é, a presença de «outros» na ciranda dos muitos poderes (porque se teima em reduzir o poder à esfera política?). Convém que as convicções ideológicas não turvem a análise cultural e científica.</p>
<p><em><span style="font-size:10px;">i Leonel Cosme, «Crioulos e Brasileiros de Angola», Lisboa: Novo Imbondeiro, 2001. P. 57<br />
</span></em><em>ii Mia Couto «E se Obama fosse africano?», Semanário «Savana», Moçambique, 14 de Nov 08<br />
</em><em>iii Inocência Mata, «Na África Negra» tudo caminha para o «inversamente» &#8211; </em><em>Semanário Angolense</em><em>, </em><em>nº 290, 8-15 de Novembro de 2008 </em><em></em></p>
<p>&#8212;-<br />
<span style="font-size:9px;">Foto: Inocência Mata</span></p>
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		<title>Marcelino Freire, “mar que arrebenta”</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jan 2009 01:41:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dicas Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Lei 10639/03]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda aproveitando as férias, estive no evento literário &#8220;Boca de Baco&#8221;, que está acontecendo aos sábados na Livraria Odeon, na Cinelância. Na estréia, além de lançamentos de livros e leituras de textos, houve uma oficina de narrativas breves com Marcelino Freire. Tive oportunidade de conversar um pouco com o escritor, já pretendia apresentá-lo aqui no Sararau e no quente dia 17 o encontro foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/img_19931-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />Ainda aproveitando as férias, estive no evento literário &#8220;Boca de Baco&#8221;, que está acontecendo aos sábados na Livraria Odeon, na Cinelância. Na estréia, além de lançamentos de livros e leituras de textos, houve uma oficina de narrativas breves com Marcelino Freire. Tive oportunidade de conversar um pouco com o escritor, já pretendia apresentá-lo aqui no Sararau e no quente dia 17 o encontro foi feliz.  </p>
<p>Tenho lido alguns escritores brasileiros contemporâneos e, sem sombra de dúvida, Marcelino Freire é um destaque entre tantas linguagens e estilos da nova geração. Seus <em>Contos negreiros </em>me prenderam desde o primeiro instante, levei-os para a sala de aula, para as rodas com amigos, e a cada leitura crescia o impacto da linguagem direta, da pontuação cotidiana, do silêncio significante. Como pequenos socos no estômago que, em uma seqüência permanente, machucam pra valer, os contos são curtos, grossos e cantam em tom irônico-mordaz histórias de um Brasil nada heróico. <em>&#8220;Brasil, do meu amor. Terra de nosso sinhô.&#8221;</em> são os versos da epígrafe. Logo depois, na apresentação do livro, Xico Sá avisa: &#8220;É doce, mas não é mole não&#8221;.</p>
<p>Marcelino Freire é pernambucano, tem 41 anos e desde os 23 vive em São Paulo, onde se diz um &#8220;estrangeiro&#8221;. Com a obra <em>Contos negreiros</em>, publicada em 2005 pela Record, ganhou o prêmio Jabuti de literatura na categoria contos. <em>Angu de Sangue </em>(2000) e <em>Balé Ralé </em>(2003),<em> </em>pela Ateliê Editorial, e seu mais recente <em>Rasif &#8211; Mar que arrebenta </em>(2008), pela Record, são outros livros do gênero eleito pelo escritor. Os títulos sugestivos apontam uma marca de Marcelino: escrever a partir de experiências de seu local de origem, colocando em cena personagens e histórias marcados pela exclusão. No nosso bate papo, Marcelino explica que <em>Racif </em>é a origem árabe do nome Recife e que Pernambuco significa &#8220;mar que arrebenta&#8221;, em tupi-guarani. Suas narrativas nascem exatamente daí.</p>
<p style="text-align: left;"><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/8501072567.jpg" alt="" width="136" height="203" />Histórias que acrescentam, vale lembrar, ao debate sobre a aplicação da lei 10639. <em>Contos negreiros, </em>por exemplo, é uma obra que se insere em um projeto de ensino em diferentes níveis. Cabe ao professor conhecer o material para melhor utilizá-lo.. ..O blog do escritor é um excelente espaço para se obter outras informações: <a href="http://www.eraodito.blogspot.com">www.eraodito.blogspot.com</a></p>
<p style="text-align: left;">..No evento do Odeon, Marcelino leu o conto &#8220;Trabalhadores do Brasil&#8221;, que transcrevo abaixo. Faço uma sugestão: leia-o mais de uma vez, principalmente em voz alta.. Perceba o discurso, as ambiguidades, as possibilidades de leitura.. É realmente &#8221;mar que arrebenta&#8221;..</p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>&#8220;Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enquanto a gente dança no bico da garrafinha Ode trabalha de segurança pega ladrão que não respeita quem ganha o pão que o Tição amassou honestamente enquanto Obatalá faz serviço pra muita gente que não levanta um saco de cimento ta me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar 1 passe ou 2 na praça turbulenta do Pelô fazendo sexo oral anal seja lá com quem for ta me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando de cima da ponte ta me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Hein seu branco safado?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ninguém aqui é escravo de ninguém.&#8221;</strong></p>
<p style="text-align: justify;">______</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 9px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Resenha de &#8220;O racismo explicado aos meus filhos&#8221;</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2009/01/resenha-de-o-racismo-explicado-aos-meus-filhos/</link>
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		<pubDate>Thu, 22 Jan 2009 01:26:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dicas Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Anderson Xavier
(O Sararau recebe mais um colaborador de peso, o professor Anderson Xavier, Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Neste primeiro texto, ele nos traz uma resenha do livro O racismo explicado aos meus filhos, de Nei Lopes, publicado em 2007 pela editora Agir.)
 
Como este é meu primeiro escrito destinado a fazer parte do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="font-size: 12px; font-weight: bold;">Por Anderson Xavier<br />
(O Sararau recebe mais um colaborador de peso, o professor Anderson Xavier, Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Neste primeiro texto, ele nos traz uma resenha do livro <em>O racismo explicado aos meus filhos, </em>de Nei Lopes, publicado em 2007 pela editora Agir.)</p>
<p> </p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/racismo-neilopes.jpg" alt="" width="135" height="214" />Como este é meu primeiro escrito destinado a fazer parte do <em>Sararau</em>, seguirei o conselho de Dona Ivone Lara e vou &#8220;pisar neste chão devagarinho&#8221;. Este texto não é especificamente acerca da literatura africana, contudo creio acertar a veia desse movimento acadêmico-artístico-internético.</p>
<p>Trataremos aqui de <em>O racismo explicado aos meus filhos</em>, de Nei Lopes. Isso posto, contemplamos o feliz neologismo &#8220;sararau&#8221;, pois trazemos à baila um compositor e escritor de mão cheia, que faz jus à palavra sarau; e, por ser um estudioso dos insumos culturais oriundos do continente africano, nos deixa à vontade para dispormos do vocábulo &#8220;sarará&#8221;, segundo a música, imanente a todo brasileiro de sangue crioulo.</p>
<p>É sabido que toda análise resulta em dívidas para com o analisado. Conosco não será diferente, porém nosso intuito é iluminar um consistente trabalho de investigação de nossas raízes e problemas. Por meio de um romance-ensaio, Nei Lopes faz um levantamento acerca da origem das diversas formas de manifestação racista, focando principalmente aquela que vitimiza o negro.O núcleo do livro é a família do historiador Paulão (negro) e da Doutora Lia (judia). O casal tem dois filhos, brancos como a mãe, apresentando traços étnicos do pai, sendo assim sararás. O enredo se concentra em diálogos travados entre os membros dessa família, nascidos das experiências de cada um.</p>
<p>As conversas são comandadas quase sempre pelo professor Paulão que faz verdadeiras palestras, enriquecendo o conteúdo do texto. No entanto, se pensarmos a construção de um romance, constataremos que as conversas tateiam o inverossímil, quando consideramos os temas abordados e o modo como são travados tais diálogos.</p>
<p>Se encaramos o livro como um ensaio acerca da existência humana e uma de suas mais delicadas questões, o racismo, perceberemos um texto refinado e com uma preocupação ética que deveria fazer parte não só das palestras de Paulão, mas de toda e qualquer assembléia, seja futebolística, política ou sambista.</p>
<p>O livro é composto por 16 capítulos que abordam desde o criticismo ao &#8220;racismo cientifico&#8221; do século XIX até uma das polêmicas do século XXI: &#8220;a questão das cotas&#8221;. Nei Lopes faz crítica e literatura em um projeto eticamente eficaz e eficiente, com algumas dívidas estéticas.</p>
<p><em>O racismo explicado aos meus filhos</em> pode apresentar problemas estéticos, contudo presta um serviço incomensurável ao povo brasileiro. Pela composição pluriétnica da família de Paulão, podemos percebê-la como um retrato do Brasil. Sendo assim, o professor explica a todos nós, brasileiros (seus filhos), a dor que é o racismo. Por meio da investigação das origens das questões étnicas, Nei Lopes nos oferece um significativo cabedal de informações sobre nossa gente, de modo genuíno e verdadeiro.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A posse de Obama e a magia do simulacro da nossa posse</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2009/01/a-tecnica-a-posse-de-obama-e-a-magia-do-simulacro-da-nossa-posse/</link>
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		<pubDate>Tue, 20 Jan 2009 17:51:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[ Por Simone Ribeiro da Conceição

Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.
A transmissão concretiza o &#8220;we can&#8221;. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.
Temperatura e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="TEXT-ALIGN: left"> <strong>Por Simone Ribeiro da Conceição</strong></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="aligncenter" style="margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/obama-1-300x196.jpg" alt="" width="300" height="196" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: left">Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.<br />
A transmissão concretiza o &#8220;we can&#8221;. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.<br />
Temperatura e expectativas negativas não afugentam a multidão que se acumula em Washington. Animada, a massa toma posse do local. Em todas as partes do mundo, transmissões são anunciadas. Elas são ingresso para que uma multidão incalculável participe da cerimônia como platéia virtual.<br />
Assistimos hoje a uma representação. Como sociedades do simulacro, a representação nos fascina. Digitalizada, plasmada e ampliada nos telões consumidos pelos mais ávidos, as imagens de cada etapa da posse do novo presidente dos Estados Unidos registram o ineditismo dos passos negros em direção à Casa Branca.<br />
A magia da técnica está em nos permitir compartilhar essa caminhada e tomar como nossa a sensação da posse. A experiência de, enquanto negros, experimentar reconhecer-se na imagem. Experienciar a identificação com os protagonistas. Envaidecer com a beleza, o talento e a competência, até aqui demonstrada pelo casal Obama.<br />
O show da posse é um show da técnica. Nas horas que aproximam o futuro presidente dos futuros problemas, o circo high-tech descontrai a audiência e faz esquecer o pão ou as dificuldades em ter um trabalho para obter esse e outros alimentos do corpo e da alma.<br />
A cultura do espetáculo transforma os eventos em espetáculo. A diferença na próxima atração é que há muita emoção no ar. Não precisaremos de cristais, a técnica e reprodutibilidade técnica nos apresentarão as imagens que nos trarão reflexões e inevitáveis lágrimas. Filmadas e fotografadas, as imagens da posse servirão ao futuro como memória de um momento de união de todos em torno da representação de um evento que confirma que podemos mudar. E porque não crer que podemos melhorar?!</p>
<p> &#8212;&#8211;<br />
<span style="font-size:9px">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Elisa Lucinda e a Casa Poema</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2009/01/elisa-lucinda-e-a-casa-poema/</link>
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		<pubDate>Sun, 18 Jan 2009 23:50:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Educação pela Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Estou de férias desde as vésperas do Natal e só agora volto a escrever no Sararau e a pensar em projetos no novo ano.. Tenho caminhado todos os dias, respirando o verão e observando belas e diversas paisagens do Rio: a orla da zona sul, a arquitetura e o movimento do Centro, as miudezas do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/img_1997.jpg"><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/img_1997-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Estou de férias desde as vésperas do Natal e só agora volto a escrever no Sararau e a pensar em projetos no novo ano.. Tenho caminhado todos os dias, respirando o verão e observando belas e diversas paisagens do Rio: a orla da zona sul, a arquitetura e o movimento do Centro, as miudezas do Saara, os labirintos do Grajaú, a lua cheia nos casarios de Santa Teresa, a Lagoa com olhar a 360˚, o bairro da Urca, a minha própria rua. Ainda ontem fui à <strong><em>Casa Poema</em></strong>, bem aqui ao lado. Descobri o lugar no ano passado e há muito me prometia passar por lá para conhecê-lo.</p>
<p>A <em>Casa Poema </em>abriga a<em> Escola Lucinda de Poesia Viva, </em>criada pela poeta e atriz Elisa Lucinda em 1998. Ela oferece cursos e oficinas de poesia falada para adultos e crianças durante todo o ano. A idéia é mostrar que a poesia está no cotidiano e ler, falar um poema pode ser muito prazeroso e enriquecedor. Juliana Garcia, uma das professoras da equipe de Elisa, conversou comigo durante a minha visita e reforçou a proposta da escola: &#8220;Falar poesia sem ser chato&#8221;. E comentou que além das aulas despertarem situações curiosas de aprendizado, os recitais organizados ao final de cada curso são sempre motivadores de novas experiências. Há aqueles que sempre dizem em tom de descoberta: &#8220;Mas poesia é legal mesmo!&#8221;</p>
<p>A falsa idéia de que poesia é algo chato vem principalmente de uma educação desvinculada da realidade e do prazer de ler e de estudar. Metodologias ultrapassadas, aulas descomprometidas com a formação intelectual e raros acessos aos bens culturais, tanto por alunos quanto por professores, são alguns dos fatores que contribuem para o afastamento da poesia das escolas e da vida. É certo que há aqueles que gostam mais do gênero e outros não. Contudo, todos deveriam experimentar, certamente há prazeres a serem descobertos.. Eu, por exemplo, nunca vou me esquecer da minha avó preparando o almoço e eu sentada na mesa da cozinha lendo Fernando Pessoa. Ela balançava a cabeça toda vez que discordava de um verso, e depois falava de cor &#8221;O pássaro cativo&#8221;, de Olavo Bilac. Quanto ensinamento em uma simples manhã da minha adolescência..</p>
<p>Fiquei surpresa quando descobri uma afinidade de Elisa Lucinda com o poema de Bilac. Ela conta essa e outras histórias em uma conversa com Rubem Alves sobre poesia e educação, publicada recentemente pela editora Papirus, no livro chamado <em>A poesia do encontro </em>(2008). O bate papo dos dois percorre veredas poéticas que nos ensinam caminhos novos e nos fazem recuperar estradas antigas. O livro traz ainda um DVD do encontro, o filme &#8220;Poesia à vista&#8221;, que serve inclusive como material didático.</p>
<p>Para quem não conhece a poesia de Elisa Lucinda, posso dizer que ela é também outra experiência de encontro e renovação. Desde o seu poema &#8220;Aviso da lua que menstrua&#8221;, que me foi apresentado pela Cinda, professora especial da graduação, e que vibra na voz da minha amiga Fabiana, admiro o trabalho da poeta, sua linguagem e seu compromisso com a transformação. Entre os livros publicados estão <em>O semelhante </em>(1994), <em>Eu te amo e suas estréias </em>(2003) e <em>A fúria da beleza </em>(2006).</p>
<p>Enfim, aí estão as primeiras dicas de 2009. A Casa Poema, Escola Lucinda de Poesia Viva fica na Rua Paulino Fernandes, 15. Há workshops que acontecerão na última semana de janeiro. O site da casa é <a href="http://www.escolalucinda.com.br/">www.escolalucinda.com.br</a> . Lá você encontra outras informações e todo um histórico do trabalho de Elisa Lucinda e sua equipe. E.. para ficar um gostinho de quero mais, ouça &#8220;O poema do semelhante&#8221;, faixa do CD &#8220;O semelhante&#8221;, em download a partir do site da Escola Lucinda.</p>
<p style="text-align: center;"><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="320" height="340" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="flashvars" value="thumbsinplaylist=true&amp;width=320&amp;height=340&amp;file=http://sararau.podOmatic.com/xspf_stream.xml&amp;autoscroll=false&amp;displayheight=240&amp;searchbar=false" /><param name="src" value="http://www.podomatic.com/swf/mediaplayer.swf" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="320" height="340" src="http://www.podomatic.com/swf/mediaplayer.swf" flashvars="thumbsinplaylist=true&amp;width=320&amp;height=340&amp;file=http://sararau.podOmatic.com/xspf_stream.xml&amp;autoscroll=false&amp;displayheight=240&amp;searchbar=false"></embed></object></p>
<div style="text-align: center;"><a href="http://sararau.podOmatic.com" target="sararau"><img src="http://www.podomatic.com/images/share/player_logo.jpg" border="0" alt="" /></a></div>
<p style="text-align: center;"><a href="http://www.gigyamailbutton.com/wildfire/gigyamailbutton.ashx?url=aHR*cDovL3d3dy5naWd5YS5jb2*vd2lsZGZpcmUvd2Zwb3AuYXNweD9tb2R1bGU9ZW1haWwmdXJsPWh*dHAlM*ElMkYlMkZ3d3clMkVwb2RvbWF*aWMlMkVjb2*lMkZwb2RjYXN*JTJGZW1iZWQlMkZzYXJhcmF1" target="_blank"><img class="aligncenter" src="http://cdn.gigya.com/wildfire/i/includeShareButton.gif" border="0" alt="" width="60" height="20" /></a><img style="visibility: hidden; width: 0px; height: 0px;" src="http://counters.gigya.com/wildfire/IMP/CXNID=2000002.0NXC/bT*xJmx*PTEyMzI*MDcwMzQ5ODQmcHQ9MTIzMjQwNzE5MDE*MCZwPTg*NjgxJmQ9Jmc9MSZ*PSZvPThjZDg2NWNiOGFlODQwOGZhMDgxM2RlZGI1N2U2OTg5.gif" border="0" alt="" width="0" height="0" /></p>
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		<title>Todo cabo-verdiano é um pouco… Poeta</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Dec 2008 02:51:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia
por isso trago dentro de mim
todos os mares do Mundo&#8221;
                       (Ovídio Martins)
Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia<br />
por isso trago dentro de mim<br />
todos os mares do Mundo&#8221;<br />
                       </span></em>(Ovídio Martins)</p>
<p>Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do cuidado, do esmero que é a ação do ritmo, da seleção criteriosa das palavras; as rimas, as imagens&#8230; e outras mil estratégias de textualidade lírica _ os ditos recursos estilísticos.</p>
<p>No falar e no escrever próprios dos cabo-verdianos, numa cultura herdeira e conviva da tradição oral, eis que a musicalidade intrínseca ao contar das estórias e do bater do pilão, do batuque<em> </em>e do <em>finason</em>, dos choros das visitas de pêsames e dos rituais matrimoniais, torna-se mana da arte da palavra. Tudo são poemas: ditos, cantados ou chorados. Versos que ora beiram à epopeia em memória do morto, ora lhe lastimam a saudade. Embalado pelo mesmo Mar que leva os bilhetinhos de saudade e os suspiros salgados das cristas das ondas, o homem crioulo é e se faz com o outro um pouco&#8230; poeta. <span id="more-254"></span></p>
<p>São dizeres de recomendação na despedida da nubente, logo antes das cerimónias oficiais &#8211; <em>noiba ba sentu</em> (noiva no assento); e, mais tarde, na <em>bênção</em> de acolhida dos noivos à casa dos ancestrais, após as cerimónias oficiais do &#8220;Registo&#8221; ou do &#8220;Religioso&#8221;. Vejamos um momento de <em>noiba na sentu </em>de improviso. O texto foi recolhido no interior de Santiago, em meio a cantares de batuque, acompanhados de palmas ritmadas e a seguinte melopeia:</p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;"><em>Kazamentu ê mel / </em><em>Kasamentu ê fel /</em><em>Txora! / </em><em>Noiba na sentu ê bonitu.(&#8230;) /Kazamentu ê grandi! /<br />
</em><em>Pensa dretu, bu bá d&#8217;um bês / </em><em>Mara bu korda séku, boita-l / </em><em>Boita-l na nkunhal di bu kasa (&#8230;)<br />
</em><em>Deus libra-u di amizadi fingidu / </em><em>Deus libra-u di kumida kumprádu (&#8230;) /</em><em>Deus ba bu dianti! /<br />
</em></span><span style="font-size:10px;"><em>Nossa Senhora di bem kazadu pega-u na mô, / </em><em>Deus faze-u mudjer filis y honrada! </em></span></em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-258" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento1.jpg" alt="" width="277" height="99" /><img class="alignnone size-full wp-image-259" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento2.jpg" alt="" width="276" height="99" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size:10px;"><em>Casamento é mel, Casamento é fel. /Chora sim, chora porque casamento é coisa grande!/<br />
Amarra bem a tua corda, faz um nó cego e dá-lhe voltas: /E prende-o, no &#8220;nkunhal&#8221;da tua casa.(&#8230;) /<br />
Que Deus te livre de amizade fingida, /E que Deus te livre de comida comprada.(&#8230;) /Deus te guie, /<br />
Nossa Senhora dos bens casados te segure pela mão /Deus te faça mulher feliz e honrada!</em></span></p>
<p>Estas são imagens que ilustram a idiossincrasia cabo-verdiana: antes do casamento, a nubente, sentada no meio de uma roda feita de mulheres de todas as idades, escuta suas vizinhas e familiares, antes de sair, pela última vez como solteira, da casa onde nasceu.</p>
<p>Nas fotos acima, após o casamento civil, a nova família é recepcionada, em ritual tradicional, que inclui discursos dos pais, padrinhos e outros familiares mais velhos &#8211; a benção. A passagem do pano, tal qual nas danças tradicionais, é, ao mesmo tempo, razão de alegria e de apreensão: alegria pela confiança depositada e apreensão pelo sentido de responsabilidade. Nos rituais do matrimónio, o pano traz alívio por simbolizar proteção dos mais velhos; mas também a emoção no assumir da continuidade dos valores das famílias de origem, que são legados à nova família.</p>
<p>Tal como o casamento, todos os rituais dos ciclos de vida são momentos de poesia: gravidez, parto, <em>festa</em> <em>de guarda cabeça</em> , <em>festa de cristão</em>, batismo, noivado, casamento e morte. Os rituais tradicionais possuem gestos próprios, indumentária própria, gastronomia própria, mas, principalmente, palavras próprias! Diga-se o mesmo das <em>festas de função</em> e de todos os momentos importantes da vida social e de lazer do povo das ilhas.</p>
<p>Do Pelourinho na Ribeira Grande de Santiago, símbolo da repressão mas também da resistência, à dança e música contemporâneas, convido você, caro leitor, a nos acompanhar nas estórias e outras manifestações culturais detse país, onde a palavra se faz arte. Deixemos os itálicos em itálico, pois serão motivos para as próximas viagens. Descubramos juntos um Cabo Verde Crioulo, onde tradição e modernidade se completam. Tudo é poesia acalentada pela musicalidade dos sete mares do Mundo.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size:10px;">Fotos: José Teixeira</span></p>
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		<title>Cabo Verde: terra do ka tem?</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 22:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
Didikason:
Pa: Zé, Clarissa y Isabel
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:
  Mar di nha Pêtu*

O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.
                                                                           Onésimo Silveira
Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do Ka tem prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right; font-size: 10px;"><em>Didikason:<br />
Pa: Zé, Clarissa y Isabel<br />
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:<br />
  Mar di nha Pêtu*</em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-238" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/cabo-verde-guta1.jpg" alt="" width="492" height="124" /></p>
<p style="text-align: center;"><strong><em>O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.<br />
                                                                           </em></strong><span style="font-size: 10px;">Onésimo Silveira</span></p>
<p>Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do <em>Ka tem </em>prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra moldada e criada por Deus, como foram outras terras. Não foi o barro que deu forma, onde depois se fizeram terras&#8230; terras onde há chuva e há fartura; onde a chuva vem sempre e quando vem não mata a gente; essas são terras feitas por Deus Nossenhor. Cabo Verde teria sido _ diz o povo _ dez <em>respingos </em>de lama que o Pai do Céu sacudiu após seis dias de trabalho. Dez dedos sujos de um barro desorientado, das duas mãos celestes, fazem cair, no meio do mar: da mão esquerda o Barlavento e da direita o Sotavento. Obra do acaso.</p>
<p>Entre 1460-1462 navegadores portugueses descobrem dez ilhas e cinco ilhéus que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Dois grupos de ilhas e uma superfície de 4033km2, com um clima tropical seco. Foi nesse <em>balão de ensaio</em> que teve vez uma das experiências mais espantosas<em> </em>de miscigenação na era moderna. <span id="more-235"></span></p>
<p>Na formação da nação cabo-verdiana deve-se considerar que, para além de ter sido um achado, Cabo Verde teve, desde os primeiros momentos da sua história, a característica de ser um (não) lugar de encontros, de intercâmbio e de miscigenação de povos, de culturas e bens comerciais. Um <em>não-lugar habitado por ninguém</em> cuja posição estratégica intercontinental permitiu a utilização das ilhas, primeiramente a de Santiago, como entreposto comercial.</p>
<p>Homens livres e cativos da Europa e da África continental, pertencentes a diferentes povos, em contacto entre si e com os europeus, em sua maioria portugueses, deram origem ao <em>homem da terra</em>, na designação de Elisa Andrade, desde o início, um mestiço.</p>
<p>O homem da terra falou e ainda fala a língua da terra, resultante, ela também, do <em>caldeamento cultural, </em>segundo João Lopes Filho. O cabo-verdiano, língua, como todos os cabo-verdianos, cidadãos, tem um nome de registo que é seu nome oficial (Língua cabo-verdiana) e um nome &#8220;de casa&#8221; (Crioulo). Ele convive, num contexto linguístico de diglossia, com a Língua Portuguesa, desde que atingiu maturidade como sistema linguístico independente. É o veículo privilegiado de transmissão de saber e cultura. O Crioulo foi o principal ingrediente da caboverdianidade, um terceiro produto cujo passado remonta ao presente, da época, e faz da bipolaridade entre as africanidades e o Ocidente uma simbiose sui generis.  <!--more--></p>
<p>A música e os contos tradicionais, por exemplo, utilizam o Crioulo-Cabo-verdiano. E mesmo a Literatura considerada erudita, clássica, dialoga, desde a Claridade e mesmo antes dela, com a língua de berço. A cultura que essa língua, ao lado do português, transmite é multicolorida e diversificada. Tão rica e tão específica que, em alguns momentos da história das ilhas, ela é tomada como referência, alento nas adversidades e factor de união inter-ilhas e com a diáspora.</p>
<p>Diversidade cultural, diversidade natural, união na adversidade&#8230; foram ingredientes que compuseram uma nova visão sobre Cabo Verde: uma nação rica, de confiança no verde do seu nome, cor da esperança que é &#8211; o que é.</p>
<p>É sobre Cabo Verde, sua literatura e cultura que pretendemos falar. De uma nação que faz de suas fraquezas força e de sua pobreza um desafio, aos deuses e aos homens; do teimosamente continuar de pé, com Ovídio Martins e outros nomes da literatura das ilhas.</p>
<p>Venha conhecer os flagelados do vento leste, que morrem e ressuscitam todos os anos. Homens e mulheres que conjugam a seca com a esperança e a pobreza com a coragem, sem perder a Morabeza! Terra do Ka tem? Não, porque há sempre um crioulo inventando um poema diferente, como quis Onésimo.</p>
<p>O seu interesse e contribuição serão um estímulo.</p>
<p>_______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Fotos: José Teixeira e Augusta ÉTT<br />
* Tradução: &#8220;Este trabalho é dedicado ao Zé, à Clarissa e à Isabel, que são o meu Chão, o meu Céu e o meu Sol. E são também o Mar, onde o meu coração se banha.&#8221;</span></p>
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		<title>Parceria Atlântica</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 21:22:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do Porto, onde também fez um Mestrado. Lecionou em inúmeras instituições de ensino em Cabo Verde, como o Instituto Superior de Educação e o Liceu Amílcar Cabral. É quadro da Assembléia Nacional onde ocupa o cargo de redatora, desde 1999, e cursa o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UFF.</p>
<p><span id="more-224"></span></p>
<p>Para o blog assim nossa &#8220;correspondente Mana-Guta&#8221; se apresentou:</p>
<p><em>&#8220;Nos registos oficiais, eu sou Maria Augusta Évora Tavares Teixeira, um nome demasiado longo para se apresentar seja quem for. Mas como selecionar um dos sobrenomes seria cortar parte significativa de mim, prefiro que, entre tradição e modernidade, oficial e familiar, seja chamada simplesmente de Augusta ÉTT, abreviando-o e que, na minha vertente de aprendiz de escrevinhadora, me apelidem de Mana-Guta.<br />
Sobre o meu trabalho, considero ser meu dever servir, em primeiro lugar, Cabo Verde, minha terra, lá onde for prioritário, em cada etapa da nossa História. O percurso e os títulos académicos são importantes para que eu possa legitimar, aos olhos do mundo, o que eu faço. Mas ser, primeiramente cabo-verdiana e africana, e ser digna dessas identidades, isso, sim, é o que pretendo ser.&#8221;</em></p>
<p>Todos nós temos muito a ganhar com esse intercâmbio e já nos próximos artigos compartilharemos os primeiros textos enviados pela Guta, mulher de fibra, com uma escrita e uma voz singulares. Axé!</p>
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		<title>Ondjaki, um contador de histórias</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Dec 2008 14:25:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura infantil]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, O Leão e o Coelho Saltitão, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_11721-246x300.jpg" alt="" width="246" height="300" />O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, <em>O Leão e o Coelho Saltitão</em>, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que seduz pela palavra, transmitindo ao leitor/ ouvinte experiências e formas de ver o mundo. <em></em></p>
<p>Baseado em um conto tradicional Luvale, o livro traz alegorias que, em linguagem figurativa, &#8220;dizem o outro&#8221;, e nos fazem imaginar, quem sabe, um novo traço, mais harmonioso e criativo, para as relações humanas e sociais.</p>
<p><span id="more-203"></span>Vejam uma pequena mostra do que o &#8220;leão da Floresta Grande&#8221; e o &#8220;coelho Saltitão&#8221; vão armar para resolverem o problema da fome&#8230;&#8230;.. Na seção <em>Eventos, </em>há toda a programação do lançamento do livro, com a presença dos autores, de 2 a 13 de dezembro, em Portugal.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-207" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_2172.jpg" alt="" width="500" height="332" /></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_31721.jpg" alt="" width="500" height="474" /></p>
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		<title>Ganzás poéticos em Recife</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Dec 2008 14:35:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Durante os quatro dias em que estive em Porto de Galinhas, no início do mês de novembro, procurei pelo maracatu e não o encontrei. Era inconcebível, pra mim, ir a uma &#8220;festa literária&#8221; em Pernambuco e não ouvir um maracatu ou não dançar uma ciranda.  No fim da tarde de domingo, antes de voltar ao Rio, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante os quatro dias em que estive em Porto de Galinhas, no início do mês de novembro, procurei pelo maracatu e não o encontrei. Era inconcebível, pra mim, ir a uma &#8220;festa literária&#8221; em Pernambuco e não ouvir um maracatu ou não dançar uma ciranda.  No fim da tarde de domingo, antes de voltar ao Rio, fui atrás dos tambores e dos abês em Recife. Os deuses confabularam sempre em meu favor e entre tantas pessoas maravilhosas que estiveram comigo em Porto, eles me apresentaram à professora Noemi Araújo, com quem fui à cidade evocada por Manuel Bandeira. A cidade dos poetas, sem sombra de dúvida.</p>
<p>Misturados aos sons das alfaias vindos de praças e esquinas, os poetas vão tocando seus ganzás literários, são erês que circulam entre as gentes e brincam e riem e falam coisas sérias. Conheci pelas mãos de Noemi um em especial, irradiando luz nas andanças que fizemos pelas ruas de Recife: Jomard Muniz de Britto. <span id="more-175"></span></p>
<p><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/jomard-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /> Mas como falar de Jomard? Difícil, pois ele é como o maracatu, por mais que se tente defini-lo, só estando bem próximo do batuque para sentir o ritmo pulsar nas batidas do coração. É preciso ler e ouvir Jomard, é preciso degustar Jomard, com ou sem manifestos verdes, azuis ou vermelhos. Já sinto saudades dele e de seus &#8220;atentados poéticos&#8221;, distribuídos às mais diferentes gentes, há muito tempo&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. Ele é multi muita coisa desde os anos 60: professor, intelectual, engajado, escritor, performático, cineasta, agitador cultural, poeta.. Seus textos, de inúmeras linguagens, falam de um mundo em retalhos, é o contemporâneo fragmentado e por vezes (quase) inteiro, tornado em colcha. Sua &#8220;obra-em-processo&#8221; está sempre, porque, como já escreveu o próprio JMB, &#8220;poeticidade é o nômade&#8221;. </p>
<p> Alguns de seus trabalhos podem ser conhecidos através do endereço <a href="http://www.myspace.com/jomardmuniz">www.myspace.com/jomardmuniz</a> . Lá na seção Sararau deixo o atentado que recebi naquela noite de domingo, noite de maracatu, de &#8220;zabumba de bombos&#8221;, de &#8220;estouro de bombas&#8221;, que me fez lembrar poetas, pernambucanos, Bandeira, Jomard, e o Ascenso, quando pergunto e respondo, com este, &#8220;Luanda, Luanda, onde estou?&#8230; Luanda, Luanda, onde estás?&#8230; Cantigas de banzos, Rangir de ganzás&#8230;.&#8221;</p>
<p>_______<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Uma homenagem a Michel Laban</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Nov 2008 00:21:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Homenagem]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sararau acaba de receber a notícia do falecimento nesta terça-feira, em Paris, do professor Michel Laban, grande pesquisador das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, com uma obra de referência na área, como a série Encontro com escritores &#8211; Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, em um total de 9 volumes. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sararau acaba de receber a notícia do falecimento nesta terça-feira, em Paris, do professor Michel Laban, grande pesquisador das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, com uma obra de referência na área, como a série <em>Encontro com escritores &#8211; Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau</em>, em um total de 9 volumes. Há algum tempo, dedicava-se também à elaboração de um dicionário de regionalismos e de neologismos de inúmeros escritores estudados. Parte desse trabalho vinha sendo publicada em revistas e periódicos. Em um desses momentos, encontramos, por exemplo, os sentidos dados por José Craveirinha à palavra <em>belecar. </em>Vejam:</p>
<p><span id="more-165"></span></p>
<p>&#8221; <strong><em>belecar:</em></strong><em> v. tr. dir. José Craveirinha, Karingana ua Karingana [1ª ed.] p. 75: &#8220;mamana Saquina beleca o filho&#8221;  «</em><em>K</em><em>Beleca:</em><em> costume tradicional de levar os bébés às costas ou na ilharga. (Para &#8220;belecar&#8221; há um pano especial que se vende nas &#8220;cantinas&#8221;, que é mais resistente. Também se utiliza a própria &#8220;capulana&#8221;.) Assim, o filho vive o dia-a-dia da mãe. Ela não o larga durante os serviços: quando está a &#8220;fazer a machamba&#8221;, quando está a cozinhar, leva-o às costas. Só faz um movimento para dar de mamar. Ela não o entrega a uma criada, não o põe num berço&#8230; O filho cresce ligado à mãe. Diz-se que aquele que não foi &#8220;belecado&#8221; não sai bom filho, porque não sentiu, não respirou as costas da mãe. Quando há um mulato que tem o preconceito de ter a mãe preta, diz-se-lhe: &#8220;Não sabes o que perdeste, por isso é que és assim &#8211; não foste belecado&#8221;&#8230; Isto é: perdeu o sentido de filho de uma mãe negra que tinha as suas próprias costas, a sua própria carne, para lhe dar uma identidade. (&#8230;)» </em><strong>&#8221; </strong>(In: Laban, 2002.)</p>
<p>A respeito desse inventário de expressões, Michel Laban ressaltou, no mesmo artigo, também o valor antropológico de certas definições, como essa de Craveirinha, pois fala de <em>&#8220;um mundo composto de várias raízes&#8221;, &#8220;em que alguns mulatos se voltaram inteiramente para o pai branco enquanto outros, como o poeta Craveirinha, não quiseram esquecer a mãe negra&#8230;&#8221;. </em> </p>
<p>Enfim, o destaque para um dos últimos trabalhos do professor Michel Laban apenas reforça a vasta contribuição desse grande investigador que foi &#8220;belecado&#8221; pelas literaturas africanas. <strong>Prestamos aqui nossa homenagem.</strong></p>
<p>Artigo citado: Laban, Michel. &#8220;Reflexões sobre a elaboração de um inventário das particularidades do português de Moçambique através da literatura&#8221;. In: Revista Veredas n˚ 3, 2002.</p>
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		<title>Na semana da consciência, o inconsciente da linguagem</title>
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		<pubDate>Thu, 20 Nov 2008 23:07:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência Negra]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania). 
NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania). </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE DA LINGUAGEM <br />
</strong><strong>Por Simone Ribeiro da Conceição</strong></p>
<p>A linguagem revela o que se quer dizer e o que convém calar.  Mais precisamente, é o inconsciente que revela aquilo que o sujeito consciente de fazer parte de um país não racista, se esmera por mascarar em seu discurso.</p>
<p>Nessa semana de consciência negra em pauta, destaco dois momentos da linguagem que dão voz ao discurso da diferença, retido no inconsciente coletivo brasileiro, em um ambiente democrático racial que pressupõe igualdade. </p>
<p>Antes dos fatos, um retorno à história. História que deu margem para a fantasia de democracia racial do cordial cidadão miscigenado, indefinido e, portanto, brasileiro. No cenário de convivência de diferentes, instaurado pós-achamento do Brasil, a ausência de segregação legal fez supor que o mesmo espaço e oportunidades foram partilhados igualmente por todos os filhos da terra. Mas, um simples passeio pelos discursos, permite ver que ao longo de nossa formação, a linguagem identifica a valorização diferenciada dos grupos étnicos formadores da amálgama social brasileira.</p>
<p><span id="more-160"></span></p>
<p>Fazendo uso da linguagem científico-acadêmica Gilberto Freyre &#8220;viaja&#8221; ao traduzir a harmonia da sociedade brasileira. Justificando a falta de conflitos com a &#8220;<em>degradação das raças atrasadas pelas raças adiantadas&#8221;</em> o discurso do teórico reforçou as raízes de um Brasil de negros e índios cordiais, mediante à superioridade branca.</p>
<p>O século XX trouxe como achado a idéia de que dominar os inferiores e criar lugares a serem preenchidos por seu atraso foi a receita do sucesso para uma formação social brasileira que oferece espaço para todos. Negros, índios e seus descendentes foram dominados. Acomodados em espaços de subalternidade,  ajustado a seu atraso, deram sua  contribuição ao progresso da sociedade. As idéias de atraso e dominação marcaram a figura dos não-brancos. Ao longo do tempo, senso comum e discurso científico, portanto, prática e teoria, sedimentaram um perfil de inferioridade dos não-brancos, que causa espanto quando rompido.  </p>
<p>O espanto é o elo entre a linguagem consciente e a expressão do inconsciente analisada em dois discursos ouvidos séculos depois do percurso descrito acima. O grito do inconsciente  projeta na linguagem do brasileiro, as amarras que prendem o pensamento do século XXI aos pré-conceitos erguidos no passado e agregados às raízes de um Brasil que condena a afirmação da diferença positiva, mas, inconscientemente, afirma um imaginário de desigualdades.</p>
<p>Meses atrás, ouvi de uma colega de universidade a frase: &#8220;Nossa, como você fala bem!&#8221; Mas a desagradável consciência faz ver o que intenciona ser elogio, como uma manifestação de espanto diante da capacidade de um incapaz.  A experiência kafkiana do macaco fora do seu habitat, admirado pela academia. As chagas de Pedro Rubro e de meus antepassados ainda vicejam sempre que experimento estar onde não é lugar para o meu perfil. Minha habilidade surpreende uma colega que, por certo, teve por colegas, em instituições de ensino classe média, poucos colegas negros. Movida pelo impulso, a linguagem ajuda a dar visibilidade ao espanto em encontrar numa estudante negra uma qualidade previsível para qualquer estudante que atinge o degrau da pós-graduação.</p>
<p>A linguagem é uma ferramenta que permite provar o pensamento racista incutido nas relações sociais brasileiras. Na linguagem nossa de cada dia, empregamos um apuro para discursar com correção político-ideológica, burilando a fala para banir dela os termos pejorativos que, literalmente, condenam o usuário. No entanto, a linguagem está repleta de expressões ligadas à inferioridade característica aos pobres não-brancos. É imensa a coletânea de expressões que afirmam a depreciação daquilo que não tem os padrões que dominam o mundo e refletem a imagem dos dominadores e vencedores.</p>
<p>As piadas que ouvimos, os filmes que vemos e a realidade que vivemos apontam uma pobreza inata aos mestiços de pele mais negra. Em nosso inconsciente, a pele escura empurra o cidadão para a periferia do poder, da beleza, da inteligência e demais aspectos positivos. Ter consciência disso é um dever, de casa e rua, para brancos e não-brancos que produzem e reproduzem o pensamento social, na prática ou na teoria.</p>
<p>Na manhã que antecede o dia nacional da consciência negra, via mídia televisiva, a linguagem me presenteia com outra pérola: &#8220;<strong>A miss Angola é linda, gente!&#8221;</strong> Eufórica, a jornalista exibe seu espanto, diante de uma miss linda, como toda miss, apesar de negra. Reprimido conscientemente, o discurso racista retido no inconsciente, é projetado na linguagem redundante da apresentadora.</p>
<p>Produtos de seu tempo, as frases que renderam tantas linhas de reflexão são, sobretudo, reflexo do discurso enfatizado pelo pensamento social brasileiro na última década: &#8220;Não somos racistas&#8221;. A consciência que se quer afirmar publicamente não varrerá as imagens guardadas na &#8220;outra cena&#8221; freudiana ou inconsciente. </p>
<p>Numa sociedade que apostou na mistura e na afirmação da igualdade, separar é um crime. Distinguir e valorizar as diferenças de brancos e não-brancos, que, somadas, fazem o Brasil, é ruir. Espantado com as ações que apóiam a visibilidade e respeito às diferenças, um jornalista, como a que provocou meu espanto, e teórico, como aquele que &#8220;viajou&#8221; e redescobriu o Brasil, produz o <em>best seller</em> que lê a questão das divisões perigosas.</p>
<p>A consciência permite ao homem construir uma linguagem e distanciar-se do real, especialmente o perigo real de partilharmos o pequeno bolo dos privilégios, com a implementação de medidas que visam reparar desigualdades históricas e inserir egressos dos grupos estigmatizados em espaços &#8220;inexplicavelmente&#8221; habitados por uma minoria não-negra da população de maioria negra.</p>
<p>A linguagem é a embalagem daquele produto, que permanece o mesmo, mas recorre ao apelo do novo para vender. <em>Experts </em>no domínio do pensamento, intelectuais brasileiros do século XXI recorrem à linguagem, especialmente ao ato da designação, para produzir um discurso que, inconscientemente, afirma a existência do racismo que se quer negar. É o velho discurso da mistura, utilizado para valorizar a falta de identidade como nossa marca. Como marca do &#8220;somos todos mestiços, portanto, somos todos iguais&#8221;. Fruto das discriminações, a desigualdade econômica é elemento que renova o discurso da desigualdade. Falar de raça/etnia é desconsiderado, descabido e desautorizado pela ciência.</p>
<p>Fora dos centros de pesquisa, no calor do laboratório das ruas, a linguagem corporal emite discurso bem diferente. Num primeiro olhar, todo preto é pobre, e não escapa ao pré-conceito de sinonímia entre pobreza e negritude.  O sorriso jocoso do manobrista é a primeira saudação de desconfiança, da qual o branco pobre e bem vestido facilmente escapa.  O franzir de sobrancelhas, o olhar apertado e tantas muitas reações inconscientes da linguagem corporal acompanham quem carrega na pele o fenótipo que nos diferencia mesmo quando temos a mesma condição social.</p>
<p>Somos diferentes, esse é o ponto que não pode causar espanto. A condição humana é marcada pela diversidade. Afirmar a diferença e reclamar diante das desigualdades étnicas e sociais parece ser a mistura de atitudes mais cabível, para quem tem consciência de que brasileiro é construir uma identidade calcada no respeito às especificidades históricas que determinaram a posição de brancos e negros na cena e na &#8220;outra cena&#8221; da sociedade brasileira.</p>
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