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	<title>Sararau &#187; Literaturas Africanas</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 21:26:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>

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		<description><![CDATA[(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)
É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)</strong></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/05/joaomelo-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" />É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha &#8220;primeira&#8221; vida literária.<br />
Devo também esclarecer que, na verdade, não me concebo como um &#8220;escritor de laboratório&#8221; ou, como parece uma tendência actual, um &#8220;escritor de conferências, seminários e capas de revista&#8221;. O que eu sou como escritor resulta, desde logo, de todas as minhas vivências.</p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>&#8220;A linha da poesia é a linha da vida&#8221;</strong></span></p>
<p>O verso em epígrafe fecha o meu poema &#8220;Manifesto&#8221;, incluído pela primeira vez no livro <strong>Todas as Palavras</strong>. O mesmo resume, digamos assim, a minha atitude estética.</p>
<p>Não tenho dúvidas de que o meu ambiente familiar me ajudou a encontrar os caminhos que tenho trilhado, quer na vida quer na literatura. Sou filho de um jornalista e nacionalista &#8211; Aníbal de Melo &#8211; que um dia me disse que eu, se quisesse escrever, teria de ler Eça. Felizmente, obedeci-lhe. Além disso, tenho dois tios maternos que fazem parte da história da literatura e das artes plásticas angolanas (além da luta nacionalista): Henrique Guerra e Mário Guerra, ambos ligados à revista Cultura.</p>
<p>Começei a escrever aos 15 anos de idade, por causa, como gosto de dizer, de uma viagem de comboio. O que aconteceu é que, numa viagem entre Luanda e Malanje, a visão espantosa e exuberante da floresta tropical no Morro do Mbinda, perto da hoje cidade de Ndalatando, impressionou-me de tal maneira que, no regresso a casa, começei a escrever de repente, até hoje.</p>
<p>Em 1973, com 17 anos de idade, publiquei os meus primeiros textos, numa revista luandense chamada <em>A Semana Ilustrada</em>. Nesse mesmo ano, fui para Coimbra estudar Direito, depois de ter concluído o segundo ciclo no Liceu Salvador Correia, em Luanda. A viagem para Lisboa, no paquete &#8220;Vera Cruz&#8221;, é uma das minhas memórias mais fortes. O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Coimbra e, a partir daí, a minha vida entrou num processo de transformações absolutamente radicais, proporcionando-me uma série de experiências extraordinárias.</p>
<p>Após o 25 de Abril, conheci em Coimbra o escritor angolano Manuel Rui Monteiro, a quem mostrei os meus primeiros poemas. Ele interessou-se em publicá-los em livro na editora Centelha, mas isso nunca chegou a suceder. Outras urgências me chamavam, assim como a todos os jovens angolanos de então.</p>
<p>Voltei para Angola no dia 1 de Dezembro de 1974, obedecendo mais uma vez à voz do meu pai, que me telefonou de Luanda logo depois de ter regressado do exílio onde tinha estado de 1961 a 1974, combatendo pelo MPLA. Respondia também, juntamente com outros jovens angolanos que, na altura, estudavam em Coimbra e Lisboa, a um apelo de Agostinho Neto, líder do MPLA. Foi a minha primeira viagem de avião. Uma curiosidade: viajei com um bilhete arranjado pelo major Melo Antunes, a pedido do falecido médico e nacionalista angolano Arménio Ferreira.</p>
<p>No dia 8 de Março de 1975, começei a trabalhar na então Emissora Oficial de Angola (hoje Rádio Nacional), como jornalista. Estive na referida estação até Março de 1978, quando fui para a agência de notícias de Angola, ANGOP, primeiro como director adjunto e depois como director geral. Em Dezembro desse ano, passei também a dirigir o <em>Jornal de Angola</em>, em regime de acumulação. Tinha então 23 anos de idade.</p>
<p>Exerci esses cargos até 1982, ano em que fui trabalhar para o MPLA, como chefe da secção de Informação Internacional. Dois anos mais tarde, regressei à ANGOP, desta vez para abrir o escritório da agência no Brasil. Estive nesse país de Abril de 1984 a Dezembro de 1991, como correspondente de imprensa. Foi um período ao qual devo muito, em termos de crescimento humano, profissional e cultural. Aproveitei, inclusive, para me graduar e pós-graduar em Comunicação.</p>
<p>No início de 1992, já de regresso a Luanda, fundei a primeira agência de comunicação e lançei o primeiro jornal privado angolano do pós-independência, respectivamente, a Movimento e o <em>Correio da Semana</em> (este último não existe mais). Em Setembro de 1992, nas primeiras eleições realizadas em Angola, fui eleito deputado pelo MPLA, função que mantenho até o presente, pois fui reeleito no ano passado.</p>
<p>Desde 2000, começei a dar aulas de Comunicação em duas universidades locais. Há três anos atrás, voltei a lançar-me numa aventura jornalística: criei a revista <em>África 21</em>, que dirijo, com o apoio fundamental do jornalista português Carlos Pinto Santos.</p>
<p>Este, resumidamente, o meu percurso pessoal até agora. Não tenho dúvidas de que todas as minhas vivências e experiências estão presentes, de múltiplas formas, na minha obra literária. Eu tive a ventura de protagonizar ou acompanhar alguns acontecimentos extraordinários dos últimos 50 anos, em Angola e no mundo, o que, para um escritor, é uma benesse inegável.</p>
<p><span id="more-415"></span></p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>Vivências, experiências e literatura</strong></span></p>
<p>Confesso que tenho vivido, até agora, de maneira profunda e intensa, mas sem grandes alardes e procurando sempre, pretensiosamente, manter o controlo (para os que crêem nisso, sou virginiano). Como digo em &#8220;Auto-retrato em 3&#215;4&#8243;, &#8220;<em>Aqui esteve alguém que / silencioso / colheu o doce segredo das tempestades&#8221;</em>.</p>
<p>Também já tive algumas perdas. O meu pai morreu em circunstâncias trágicas, apenas seis dias depois da independência de Angola, pela qual fez todos os sacríficios. Depois da morte dele, dediquei-lhe um poema, &#8220;Contribuições para a definição de um herói&#8221;, onde escrevi que &#8220;herói também é / o que escolhe o seu tempo de morrer&#8221;. Tenho pena, até hoje, de não ter convivido mais tempo com ele, embora o meu padrasto, com quem cresci, sempre tenha sido, de facto, outro pai para mim e o meu irmão, Kiluxa.</p>
<p>A morte deste último (ele chamava-se António José, mas lembrar-me-ei dele para sempre como o Kiluxa, &#8220;nosso único guerreiro&#8221;, que enfrentou os zairenses e os sul-africanos, mas morreu inesperadamente em Luanda, por doença, aos 49 anos) foi outra grande perda, que ainda sofro presentemente. Enfim, perdi alguns amigos, assim como velhos amores e numerosas paixões.</p>
<p>Mas ainda tenho a minha família: a minha mulher, Stella, &#8220;meu novo amor para sempre&#8221;, os meus filhos, Helena, Solange, Mário e Matári, a minha mãe e o seu marido, João Gourgel, meu segundo pai, os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus tios e todos os meus primos. Não esqueço igualmente os meus amigos. Como sou um optimista e acredito na generosidade humana, estou convicto que são muitos. Quanto aos inimigos, apenas me dão mais vontade de continuar vivo e interventivo, política, cultural e socialmente.</p>
<p>Além disso, convivo, por força das múltiplas actividades com as quais estou envolvido &#8211; jornalismo, literatura, política, publicidade e ensino -, com uma série de homens e mulheres de todas as idades, profissões, estatutos, nacionalidades e origens. Todas as pessoas com quem, por uma razão ou outra, me tenho cruzado ao longo da vida estão presentes, de qualquer forma, nos onze livros de poesia e quatro de contos que publiquei até este momento.</p>
<p>Obviamente, as minhas vivências e experiências, por si só, não fazem de mim um escritor. Eu sempre intuí isso, mas aprendi-o de uma forma elaborada com Luandino quando lhe entreguei, em 1987, o meu livro <strong>Poemas de Amor</strong>. Disse-me ele:-&#8221;Literatura é mais do que experiência&#8221;. Felizmente, &#8220;captei a mensagem&#8221; e fiz várias mudanças no livro, eliminei alguns textos e reelaborei outros, até que, dois anos depois, o mesmo foi publicado pela União dos Escritores Angolanos.</p>
<p>De Luandino aprendi ainda outra lição: para escrever, é preciso ler. Confirmo que devo muito às minhas leituras. O primeiro deslumbramento aconteceu quando li na casa de Rui Mingas em Lisboa, em 1970, a <em>Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa</em>, organizada por Mário de Andrade. A poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Craveirinha e outros, a que tive acesso pela primeira vez nessa altura, revelou ao então adolescente de 15 anos qual o caminho a seguir.</p>
<p>Angola é o chão de onde eu, orgulhosamente, venho. É desse lugar (como se sabe, lugar é perspectiva) que eu falo com o mundo. Mas também aprendi rapidamente que, embora fiel à tradição literária angolana, sobretudo no que diz respeito à relação entre a literatura, a história e a sociedade, era preciso e possível começar a falar com o mundo de outra maneira. Além de tudo o que vivi, duas leituras foram fundamentais para mim, nesse sentido: António Ramos Rosa e João Cabral de Melo Neto. A elas juntaram-se, mais tarde, as de Saramago, com a sua literatura reflexiva, e a do brasileiro Ruben Fonseca.</p>
<p>&#8220;Eu sou deste mundo e deste tempo&#8221;, escrevi há muitos anos, num dos meus livros preferidos, <strong>Canção do Nosso Tempo</strong>.</p>
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		<title>O peso de algumas palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 00:35:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>

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		<description><![CDATA[(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)
Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de &#8220;Oração de Sapiência&#8221;, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)</strong></p>
<p>Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de &#8220;Oração de Sapiência&#8221;, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.</p>
<p>Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.</p>
<p>Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra <strong>engarrafamento </strong>ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou ocalor. O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada paraassaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Nãonego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa. A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana temreflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.</p>
<p><span id="more-408"></span></p>
<p>Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é <strong>crise</strong>. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente, embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros. Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável cerimónia.</p>
<p>Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver. Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente &#8220;O escritor e a crise&#8221;. Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise. E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que estaseria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a resolvê-la, apenas a sofrê-la.</p>
<p>Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo fundamental, único e de importância vital. Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências. De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto. Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro.</p>
<p>Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão. Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos. No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm portarefa relembrá-los.</p>
<p>No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que Angola é um país rico. Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta. Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país. A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado. Mas a crise veio paranos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar oprimeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar. Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dosnossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira. Além do mais, o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes. Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos. Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.</p>
<p>Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.</p>
<p>Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.</p>
<p>A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: <strong>ganância</strong>. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o &#8220;a&#8221;. Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações. Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.</p>
<p>Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem. Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia.</p>
<p>Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.</p>
<p>A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida. Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.</p>
<p>E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular: a palavra <strong>ética</strong>. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.</p>
<p>Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo. Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética. Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.</p>
<p>A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família. Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu. Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas. Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.</p>
<p>Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A <strong>universidade</strong>. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar.</p>
<p>Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor por excelência do desenvolvimento. Este é o espaço ideal para se reflectir e debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis. Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades. É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio. Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa. No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento. Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.</p>
<p>Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível. Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo. Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade.</p>
<p>Universalidade, universidade. Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade.</p>
<p><strong>Pepetela<br />
</strong>Luanda, 13 de Março de 2009</p>
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		<title>A poesia de Ondjaki em entrevista</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 02:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; &#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; </em>&#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os <em>Materiais.. </em>de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. <em>Actu sanguíneu </em>(2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda, também seu primeiro livro publicado, e <em>Há prendisajens com o xão &#8211; O segredo húmido da lesma &amp; outras descoisas </em>(2002), pela Caminho, são os outros dois. É importante lembrar que Ondjaki, aos 31 anos, já tem doze obras publicadas, entre elas as premiadas <em>Bom dia Camaradas </em>(2001), <em>E se amanhã o medo </em>(2005) e <em>Os da minha rua </em>(2007). Para saber mais sobre suas produções, visite <a href="http://www.kazukuta.com/">www.kazukuta.com</a></p>
<p><img class="size-full wp-image-432 alignleft" title="IDE28001" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/ondjaki1.jpg" alt="" width="200" height="250" />Em <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas </em>(2009), encontramos um trabalho que mistura gêneros e propõe um <em>desaprender </em>com as palavras. Convocando outros poetas para olharem juntos o chão do mundo e do próprio sujeito, Ondjaki constrói uma obra lírica de muito boa qualidade.  O poema &#8220;Corpo&#8221; enuncia: <em>&#8220;em cima do que foi olhado pela poesia/ estendo o meu luando/ empresto meu corpo ao chão/ e adormeço.&#8221; </em></p>
<p>Para melhor apresentar Ondjaki e sua nova obra aqui no Sararau, entrei em contato com o escritor e pedi uma entrevista, gentilmente concedida via email.  Conversamos um pouco sobre poesia, os <em>Materiais.. </em>e a vida. Para as perguntas, busquei inspiração também em Clarice Lispector e seu livro &#8220;De corpo inteiro&#8221;, com entrevistas a grandes artistas. &#8220;O que é o amor? Qual é a coisa mais importante do mundo? Vale a pena escrever? Você tem medo?..&#8221; são algumas das questões que eu e Clarice fazemos a Ondjaki. Ele responde a todas essas e muito mais.. Leia na íntegra:</p>
<p><strong>CF -</strong> <strong>O que é poesia para você</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é a poesia que eu leio, que eu gosto de ler, não a que eu faço. A que eu faço fica demasiado pouco-boa, demasiado estranha, para vir a senti-la como poesia. Pode ser &#8211; e oxalá que assim seja &#8211; que um dia isso se altere. A poesia para mim é a frase que emociona. Também posso olhar para o seu requinte, o seu bom gosto, a sua filosofia, a sua mensagem, mas sobretudo gosto que me agrade, que me acrescente, que me arrebate. Que me sonhe. Que me deixe sonhar.<br />
Sabe, não posso falar em termos universais, nem isto que vou dizer é uma consideração muito preparada, mas acho que Manoel de Barros é poesia. Quase todas as suas frases são poesia. Não me incomoda a tautologia, nem rítmica nem ao nível de conteúdos, pelo contrário: acho que ele sabe o que está a fazer (por um lado); e por outro, acho que ele nem sabe bem o que tem estado a fazer, a dizer, e é por isso que ele me parece um poeta-mesmo. Um poeta verdadeiro. Mas houve frases do músico Adoniran Barbosa, e até momentos cantados, que também me cheiram a poesia, isto para falar de brasileiros. A poesia do angolano Ruy Duarte de Carvalho, embora muito mais elaborada em termos linguísticos, numa busca que é interna mas que é também antropológica, essa poesia é muito boa, muito profunda. Não tenho a mínima dúvida, quando olho a poesia do Ruy, que aquilo é poesia. E quando não tenho dúvidas, quando a sinto tão limpa, importante, profunda, seca, séria, divertida, ternurenta, forte, intensa, então não me restam dúvidas, estou perante um poema&#8230;<br />
A poesia também está nos olhares. Sobretudo nos olhares dos velhos e das crianças. Há algo de muito semelhante na inocência do olhar de uma criança que sempre me lembra a candura do olhar dos velhos. Como se ambos seres conseguissem verdadeiramente sorrir pelo lado menos complicado da vida, a criança porque ainda não teve que passar por isso, o velho porque já não se quer preocupar com isso. Então brota a inocência. O mesmo nas mãos: as mãos das crianças e dos velhos são poemas abertos, fáceis de ler, fáceis de encontrar. Nem sempre fáceis de interpretar&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Vinícius de Moraes, em <em>Samba da bênção, </em>cantou que &#8220;pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ se não não se faz um samba não&#8221;. Você diria o mesmo da poesia</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Há qualquer coisa de nostálgico no interior, no útero, do poema&#8230; Há qualquer coisa de humano, e cá dentro do que é humano, muitas vezes, o sangue se move pela força do que não se explica. E às vezes o que não se explica, embora possa não ser totalmente triste, muitas vezes é um pouco melancólico&#8230;<br />
Na poesia de Manoel de Barros (é interessante) eu não encontro tristeza. Apenas nostalgia, saudade do berço quotidiano da infância, saudades de uma chão que lhe fugiu dos pés e que agora ele invoca para se devolver à vida-que-já-foi. Isso é bonito. Mas não é triste.<br />
Em Fernando Pessoa acho que há tristeza. É uma tristeza tão grande e profunda que não chega a ser evidente. É a tristeza do poeta que mistura a saudade do passado com a do futuro, só que em Pessoa, acho eu, isso foi mais longe: Pessoa tinha saudades da pessoa, das pessoas, que ele ainda não tinha sido&#8230;. Isso intensificou a sua poesia ao ponto de ancorar o que fossem os sentimentos humanos que ele usava. Com &#8220;ancorar&#8221; quis dizer &#8220;transformar em âncora&#8221;, e âncora contraditória: uma âncora que navegasse. Pessoa navegava em si e nos outros, nos mares e nos tempos, tanto que teve que se desdobrar para melhor se expressar&#8230;<br />
Talvez sim&#8230; No fundo mesmo, haja um bocadinho de tristeza em cada poeta&#8230;</p>
<p style="padding-left: 60px;"><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/capa-ondjaki.jpg" alt="" width="90" height="139" />tinha aprendido que era muito importante<br />
criar desobjectos.</strong><br />
<strong>certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar</strong><br />
<strong>o cinzento. não munido de nenhum</strong><br />
<strong>artefacto alegre, inventei um espanador de</strong><br />
<strong>tristezas.</strong><br />
<strong>era de difícil manejo &#8211; mas funcionava.</strong><br />
<strong> </strong><em>In: Materiais.., p. 7</em></p>
<p> </p>
<p><strong>CF &#8211; Como se processa em você a criação</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é quase sempre através de esperas. Esperar. Ir sentindo, através da vida, das leituras, das sensações, e depois esperar que a escrita, isto é, o eco desses sentires, apareça em formato literário. É por isso que às vezes a boa estória aparece sob o formato de conto, ou poema, ou livro mais extenso. Mas é com as esperas que funciono melhor, e depois juntar a isso as músicas que eu já sei que provocam emoções boas para escrever. E o milagre vem&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quando é que você começou a escrever</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter começado com os meus cadernos, não eram diários porque não escrevi todos os dias, mas eram cadernos de coisas sérias e internas, de queixumes e rotinas, e depois começaram a aparecer poemas. Também alguns contos. Deve ter sido a partir de 1990&#8230; (Mas isso nunca se sabe, a pessoa começa a escrever quando começa a sentir um mundo de um jeito diferente &#8211; pressentindo coisas pequenas que não sabe explicar, que não sabe dizer&#8230; E isso um dia irrompe, de dentro para fora, e uma urgência nos faz descobrir o caminho. Essa urgência é a escrita&#8230; talvez.)</p>
<p><span id="more-370"></span></p>
<p><strong>CF &#8211; A crítica (literária) constrói?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Costumo levar a sério a crítica que me diz algo que seja sério. Que eu note (ou pense) que veio de leituras e comparações sérias. Se não, nem me afecta. Nem a boa nem a má. Desconfio dos elogios exagerados, levo-os pouco a sério. E tenho uma tendência para valorizar o que é a crítica mais negativa, também porque me parece mais séria, mais sentida. Banalizo um pouco os elogios, enfim, ainda que sejam muito sinceros, não acho que venham acrescentar grande coisa.</p>
<p><strong>CF &#8211; Qual de seus livros você mais gosta? Por quê?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não há um. Realmente não há. Talvez um dia, não sei. Tenho um carinho muito especial pelo &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, foi um livro escrito sem tempo nem pensamento, não tive muito tempo para o preparar, tudo nele é instinto ou memória. E entreguei-o rapidamente, não fiz o longo e habitual (agora é habitual) trabalho de revisão de que tanto gosto. E é sobre a minha infância, sobre a minha Luanda e os meus camaradas professores cubanos. Sinto que tenho por ele um carinho muito especial, sendo que é também o meu primeiro romance.<br />
Acho que o outro seria o &#8220;Quantas madrugadas tem a noite&#8221;, até ao momento o livro que me deu mais trabalho, que foi um desafio literário muito intenso. Custou e foi bom ao mesmo tempo. Doía e dava prazer descobrir a estória, lutei muito para chegar ao ritmo certo de contar a estória, e a meio dela senti que estava certo. E isso é bom, não para dizer bem do livro, é para dizer que é uma sensação fantástica estar a escrever e saber que o ritmo faz parte da estória, e que eu estava muito confortável com aquele ritmo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Que livro de literatura você gostaria de ter escrito? Por quê</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Mas deve haver algum, ou alguns&#8230; Continuo a achar que o &#8220;Cem anos de solidão&#8221; é um grande livro. Acho mesmo. Hoje em dia já está na moda criticar esse livro, tudo bem, não me incomoda isso, continuo a ver nele alguma originalidade no formato, no ritmo e nos conteúdos. E se o comparo com outro livro (&#8220;O amor nos tempos de cólera&#8221;), do mesmo autor, escrito tantos anos depois, sinto a mesma coisa: são dois livros muito bons. E este segundo que refiro é mais difícil ainda, por ser uma estória simples, digamos assim, estruturalmente. É uma estória de amor e de espera, o que intensifica o amor dos personagens e o suspanse do leitor.<br />
Hoje já não, mas durante muito tempo, nessa altura do início dos anos noventa, julguei que queria escrever livros como &#8220;O solitário&#8221;, de Eugene Ionesco. Hoje já não, mas sinto que foi uma grande influência, voltei a esse livro muitas vezes.<br />
Mas não posso dizer, neste momento, que exista um livro concreto que eu gostaria de ter escrito&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Nesse seu novo livro de poesia, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, você dialoga com inúmeros outros escritores: Luandino, Guimarães, Drummond, Adélia, Mia Couto, Borges, Arlindo Barbeitos, Manoel de Barros.. Quais influências você teve desses e de outros autores</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Essa coisa da influência é mesmo um mistério. Para mim. Há pessoas que pensam que se trata de um segredo, no sentido de que o escritor conhece o caminho da influência, e muitas vezes não o quer revelar&#8230; Não se trata disso. Este livro tem a ver com quotidianos, com sentires momentâneos, nem sequer se pode dizer que seja, como um todo, um livro temático. Bom, talvez haja &#8220;a noite&#8221; ou &#8220;a madrugada&#8221; como pano de fundo, não sei&#8230; Mas o que há de influência é algo maior e mais recuado, talvez: Luandino Vieira, Mia Couto, Manoel de Barros, sempre me passaram a ideia (assim eu os li) de que, com alguma imaginação e coerência, e sobretudo descobrindo a voz e um ritmo próprio, tudo era possível em literatura.<br />
Onde eu encontro a minha voz mais única, é nos livros &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, &#8220;Os da minha rua&#8221; e &#8220;AvóDezanove&#8230;&#8221;, aí há um ritmo que é mesmo meu, pelo menos é que sinto por agora. Nos outros livros, é uma espécie de linguagem literária, a que &#8220;me aconteceu&#8221;, digamos assim, para escrever essas estórias. Neste livro de poemas &#8220;materiais para&#8230;&#8221;, eu não sei como descrever ou explicar a linguagem. Nem deveria tentar, para quê explicar a poesia?<br />
A influência está mais nos livros do que nos autores. São os livros que nos emocionam e ensinam. E a vida também, em eco acordado do que sempre se vai sonhando&#8230; São as obras e os ritmos desses autores que me acompanham, e acompanham-me muito, muitas vezes, mesmo quando não escrevo.<br />
A literatura e as palavras já me salvaram muitas vezes do abismo da tristeza.</p>
<p><strong>CF &#8211; O chão vibrante da poesia de Manoel de Barros (também o de Mia, o de Guimarães..), que já aparecia ressignificado em Há prendisajens com o xão (2002), volta a ser explorado, fuçado, por você e sua linguagem própria, carregada de tristezuras e de afeto. O que te atrai no chão</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>O que me atrai no chão deve ser a sua capacidade germinadora, no sentido não só da semente, mas também do sonho; e a sua dimensão de lugar aberto, que contém sem reter, que educa sem viciar, que te solta sem te abandonar. Assim entendo a palavra chão: lugar sagrado de criaturas humanas e outras, ponto de reencontro de sensações e sentimentos. Talvez por isso o chão seja a casa de tantos poetas, e dos pés descalços, e o lugar das sombras, e do pó das asas das borboletas, e o lugar onde com suor o camponês deixa a semente para vir a saber da colheita&#8230;<br />
O meu chão poético é esse, o da esteira (luando), o das crianças correndo, o da poeira de Luanda, o chão verde de esperar as chuvas e de autorizar a passagem e a cantoria das rãs. O que me atrai no chão é que tem tanto a ensinar à Humanidade..</p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>O INÍCIO </strong><strong>[1/7/02]</strong><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância<br />
perdido no tempo. escorreguei no tempo.<br />
nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes<br />
lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a<br />
aldeia de ynari];<br />
adormeci na aldeia.<br />
ouvi um barulho &#8211; era a lesma a sorrir.<br />
o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que<br />
escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele<br />
coleccionava no quarto ou no coração das mãos.<br />
abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;">In: <em>Materiais.., </em>p. 13.</p>
<p><strong>CF &#8211; Quantas estórias tem cada poema seu</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Nem sempre sabemos. Nem sempre sei. Há poeminhas simples e poemas cheios de segredos&#8230; Há de tudo. E há também as estórias que os outros vão sentir ou inventar ao ler o poema&#8230; A beleza é essa, a extensão do labirinto sensorial, depois da criação&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quanto da sua poesia está nas suas estórias? (Me lembro aqui do último conto de Os da minha rua, p. exemplo. as lesmas do seu chão estão lá. a serem olhadas. Há um lirismo especial nas suas narrativas.)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Tudo na vida são vice versas, vice versos, vide versos&#8230; Brincriações, como diria o camarada Mia Couto. A pessoa é a mesma, os mundos é que se desdobram&#8230; Quanto mais tempo passe, melhor se verá o labirinto. E eu escrevo muito com coisas e pessoas de verdade, tiradas da minha vida afectiva e familiar, os meus amigos, as minhas ruas, as minhas luandas, e mesmo o que invento vem cheio de sentimentos e sensações que vi, vivi, olhei para recontar&#8230; é normal que o labirinto se vá revelando aos poucos.</p>
<p><strong>CF &#8211; Estão nos seus versos também, o tempo inteiro, Luanda, a Huíla, o Lubango, Benguela.. A poesia te ajuda a apalpá-los?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>A poesia me ajuda a combater as saudades. A prosa também. É verdade que invoco lugares e pessoas para não estar sempre longe deles, porque muitas vezes estou fisicamente longe de algumas dessas referências afectivas&#8230; A poesia me ajuda a sonhá-los mais perto&#8230;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>MANIPULAR A GRANDE ARDÓSIA </strong><strong>[9/8/02]</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>quando olhei o céu do lubango inundado de estrelas lindas,<br />
</strong><strong>o meu coração lembrou joão vêncio, suas estrelas<br />
</strong><strong>amorosas. todo um makulusu literário me inundou as<br />
</strong><strong>veias. imaginei um desenho para o luandino:<br />
</strong><strong>tropeçando entre as estrelas, dois compadres se abraçavam<br />
</strong><strong>em bebedeira: mais-velho e joão vêncio, o triste e o melancólico,<br />
</strong><strong>apertavam a noite nesse abraço [a imaginária imagem<br />
</strong><strong>era do foro do senhor chaplin].<br />
</strong><strong>manejando a ardósia do universo, tudo poderia ser alterado.<br />
</strong><strong>por exemplo:<br />
</strong><strong>fazer o joão vêncio pontapear uma estrela apagada até ela<br />
</strong><strong>se acender de novo; embebedar de alegria sulista o maisvelho<br />
</strong><strong>até abrandar as tristezas dele.<br />
</strong><strong>[...]<br />
</strong><strong>se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à<br />
</strong><strong>noite<br />
</strong><strong>e terminava este poema assim: etestrelas&#8230;!</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><em>In: <em>Materiais.., </em>p. 24</em></p>
<p><strong>CF &#8211; O que é que você desejaria para Angola?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>O desenvolvimento, obviamente. Foi para isso que o povo angolano lutou pela independência nacional, e é o objectivo social de todos os povos. A igualdade possível, a diminuição da pobreza extremada, porque algum pobreza sempre existirá, existem pobres na Suiça e na Suécia, no Japão, etc. Mas aqui vivemos ainda uma dimensão de pobreza extremada que é preciso extinguir urgentemente.<br />
O que eu mais desejo para Angola é que um dia venha a ter lideres que possam compreender e dar total prioridade à resolução dos problemas da maioria das pessoas. E em Angola a maioria das pessoas tem problemas básicos: nutrição, alimentação, ensino e saúde.<br />
Estou convencido que as principais bases de uma revolução, e precisamos sempre de revoluções (ainda que sejam pacificas), se conseguem a partir do desejo de educar a população. Educando, alimentando, tornando o povo livre para pensar e decidir. Obviamente que os políticos raramente querem isso&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Você escreve de manhã, de tarde ou de noite?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Sobretudo escrevo de noite. Espero os seres e vozes que habitam as madrugadas, os barulhos pequenos, e as ambiências nocturnas que me trazem ou acalmia ou inquietude&#8230; É de noite que pratico melhor o meu desassossego&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, a noite é o tempo da poesia? (Lendo os Materiais.., me sinto no meio da noite, mesmo que esteja lendo de dia.. &#8220;A noite seres&#8221; e &#8220;Imitação da madrugada&#8221; &#8211; os dois momentos da obra &#8211; parecem convocar o leitor para olhar o chão que está dentro, mais fechado, por isso mais noturno..)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter escrito muita coisa de noite, sim&#8230; Também me acontece, raramente, sentir a poesia em outras horas&#8230; Este livro é muito nocturno sim, cheio de ecos que me chegavam de madrugada. Aliás adoro essa palavra que parece estar sempre lânguida e deitada&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Um dos últimos poemas do livro traz velhos e novos sentidos para &#8220;Essa palavra margem&#8221;. Bem, no famoso conto de Guimarães Rosa, o medo do filho em assumir o lugar do pai na canoa é sem dúvida uma das imagens mais significativas. Eu pergunto: você tem medo da terceira margem</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não tenho medo&#8230; Também, na realidade, (e no sonho&#8230;) ainda não conheço bem essa que seja ou virá a ser a minha terceira margem, mas não tenho medo, tenho curiosidade&#8230; Uso abrir os livros de Guimarães (ou &#8220;Man Guimas&#8221;, como diria um certo Adolfo Dido&#8230;) como abro os livros de Clarice, em jeito de por-acaso, em jeito de espera, para respirar ou descobrir outras respirações&#8230; Adoro a palavra margem, prima-como-irmã da palavra varanda, ou maresia&#8230; E acho que gosto de espreitar as margens das pessoas e dos livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Fora sua vocação indiscutível, diga-me: vale a pena escrever?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei se vale a pena escrever. Vale a pena sonhar. Vale a pena escrever um livro no qual se crê. Vale a pena ser honesto com uma estória, isto é, deixar as palavras sangrarem o corpo da imaginação do escritor ao sabor dos ventos internos depois da imaginação falada para ser pensada como pensamento e ritmo de escrever o que às vezes foi sonhado para ser falado mas que vira palavra de parágrafo estético de pedaços da vida também do escritor e dos seus personagens&#8230;<br />
Vale a pena escrever a vida em pedaços de livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>São as pessoas. Seguramente. Elas englobam a amizade, o companheirismo, a ternura e os momentos vivos e humanos que nunca saberemos explicar nem descrever. As pessoas é que são o mundo, bichinhos e poemas incluídos nesse mundo&#8230; As pessoas são a minha bússola, e esse é o meu único medo de morrer no dia que isso vier a acontecer: não poder mais estar com as pessoas, e abraçá-las, e saber delas, e rir com elas&#8230;<br />
As pessoas. As ideias, as comunicações inventadas a fingir que sabemos mostrar aos outros que gostamos deles. As pessoas, partículas bonitas, humanas, movediças e calorosas, do que usamos chamar mundo&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; O que é o amor? Qualquer tipo de amor.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Talvez o amor seja sabermos estar&#8230; Assim como saber estar é saber dar-se, e saber buscar o que no outro nos faz crescer. Companhia. Respeito. Sexo. Ousadia. Rebeldia. Amizade. Companhia. Talvez o amor seja sabermos compreender o outro para voltarmos a nós em paz.</p>
<p><strong>CF &#8211; Diga alguma coisa que me surpreenda.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Esta questão é muito difícil. Não sei o que dizer&#8230; Portanto vou silenciar-me por aqui&#8230;</p>
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		<title>Ondjaki, um contador de histórias</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Dec 2008 14:25:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura infantil]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, O Leão e o Coelho Saltitão, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_11721-246x300.jpg" alt="" width="246" height="300" />O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, <em>O Leão e o Coelho Saltitão</em>, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que seduz pela palavra, transmitindo ao leitor/ ouvinte experiências e formas de ver o mundo. <em></em></p>
<p>Baseado em um conto tradicional Luvale, o livro traz alegorias que, em linguagem figurativa, &#8220;dizem o outro&#8221;, e nos fazem imaginar, quem sabe, um novo traço, mais harmonioso e criativo, para as relações humanas e sociais.</p>
<p><span id="more-203"></span>Vejam uma pequena mostra do que o &#8220;leão da Floresta Grande&#8221; e o &#8220;coelho Saltitão&#8221; vão armar para resolverem o problema da fome&#8230;&#8230;.. Na seção <em>Eventos, </em>há toda a programação do lançamento do livro, com a presença dos autores, de 2 a 13 de dezembro, em Portugal.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-207" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_2172.jpg" alt="" width="500" height="332" /></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_31721.jpg" alt="" width="500" height="474" /></p>
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		<title>Uma homenagem a Michel Laban</title>
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		<pubDate>Wed, 26 Nov 2008 00:21:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Homenagem]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sararau acaba de receber a notícia do falecimento nesta terça-feira, em Paris, do professor Michel Laban, grande pesquisador das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, com uma obra de referência na área, como a série Encontro com escritores &#8211; Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, em um total de 9 volumes. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sararau acaba de receber a notícia do falecimento nesta terça-feira, em Paris, do professor Michel Laban, grande pesquisador das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, com uma obra de referência na área, como a série <em>Encontro com escritores &#8211; Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau</em>, em um total de 9 volumes. Há algum tempo, dedicava-se também à elaboração de um dicionário de regionalismos e de neologismos de inúmeros escritores estudados. Parte desse trabalho vinha sendo publicada em revistas e periódicos. Em um desses momentos, encontramos, por exemplo, os sentidos dados por José Craveirinha à palavra <em>belecar. </em>Vejam:</p>
<p><span id="more-165"></span></p>
<p>&#8221; <strong><em>belecar:</em></strong><em> v. tr. dir. José Craveirinha, Karingana ua Karingana [1ª ed.] p. 75: &#8220;mamana Saquina beleca o filho&#8221;  «</em><em>K</em><em>Beleca:</em><em> costume tradicional de levar os bébés às costas ou na ilharga. (Para &#8220;belecar&#8221; há um pano especial que se vende nas &#8220;cantinas&#8221;, que é mais resistente. Também se utiliza a própria &#8220;capulana&#8221;.) Assim, o filho vive o dia-a-dia da mãe. Ela não o larga durante os serviços: quando está a &#8220;fazer a machamba&#8221;, quando está a cozinhar, leva-o às costas. Só faz um movimento para dar de mamar. Ela não o entrega a uma criada, não o põe num berço&#8230; O filho cresce ligado à mãe. Diz-se que aquele que não foi &#8220;belecado&#8221; não sai bom filho, porque não sentiu, não respirou as costas da mãe. Quando há um mulato que tem o preconceito de ter a mãe preta, diz-se-lhe: &#8220;Não sabes o que perdeste, por isso é que és assim &#8211; não foste belecado&#8221;&#8230; Isto é: perdeu o sentido de filho de uma mãe negra que tinha as suas próprias costas, a sua própria carne, para lhe dar uma identidade. (&#8230;)» </em><strong>&#8221; </strong>(In: Laban, 2002.)</p>
<p>A respeito desse inventário de expressões, Michel Laban ressaltou, no mesmo artigo, também o valor antropológico de certas definições, como essa de Craveirinha, pois fala de <em>&#8220;um mundo composto de várias raízes&#8221;, &#8220;em que alguns mulatos se voltaram inteiramente para o pai branco enquanto outros, como o poeta Craveirinha, não quiseram esquecer a mãe negra&#8230;&#8221;. </em> </p>
<p>Enfim, o destaque para um dos últimos trabalhos do professor Michel Laban apenas reforça a vasta contribuição desse grande investigador que foi &#8220;belecado&#8221; pelas literaturas africanas. <strong>Prestamos aqui nossa homenagem.</strong></p>
<p>Artigo citado: Laban, Michel. &#8220;Reflexões sobre a elaboração de um inventário das particularidades do português de Moçambique através da literatura&#8221;. In: Revista Veredas n˚ 3, 2002.</p>
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		<title>Entrevista com Pepetela</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 18:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>

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		<description><![CDATA[No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro O quase fim do mundo, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/pepeentrevista-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" />No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro <em>O quase fim do mundo</em>, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. Nosso encontro em Porto foi outro prazer. Falamos um pouco de tudo: literatura, cinema, política, temas contemporâneos etc. </strong></p>
<p><strong>Veja aqui a entrevista.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>CF &#8211; O que o inspirou a dar a sua versão para o tema &#8220;fim do mundo&#8221;?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>A idéia surgiu de uma conversa com minha filha há muito tempo, quando aconteceu o atentado no metrô de Tóquio, com gás sarin, na década de 90. Isso é muito comum em mim. Tenho uma idéia e penso: &#8220;um dia vou escrever sobre isso&#8221;. Anoto várias idéias, algumas se perdem e outras voltam, mesmo muito tempo depois, quando acho que está na hora de escrever. Aconteceu com vários outros romances, <em>Lueji</em>, <em>A Gloriosa Família</em>, <em>Parábola do Cágado Velho</em>, <em>Jaime Bunda</em>, em parte com <em>A Geração da Utopia</em>.<br />
Em <em>O quase fim do mundo</em> o importante foi tentar imaginar um universo em que há pouco de tudo; há mais do vegetal e do mineral, mas do animal muito pouco. Também tive logo a idéia de que não poderia ser em Angola. É um tema universal e a história tinha que acontecer em algum sítio com um significado outro. Foi aí que cheguei à região dos Grandes Lagos, que é o paraíso na terra, mas é o inferno em África. Há quarenta anos, pelo menos, estão a matar uns aos outros estupidamente e hoje em dia já não se sabe muito bem porque se está a matar. Recomeçou agora a guerra na parte oriental do Kivu*.<br />
Enfim, a idéia é: na parte mais desgraçada do continente mais desgraçado, que corresponde ao sítio onde há os vestígios humanos mais antigos, ou seja, onde começou a humanidade, o mundo vai recomeçar.<br />
*Lago que separa Ruanda da República Democrática do Congo</p>
<p><strong>CF &#8211; Calpe, a cidade imaginária que está em outros romances, aparece em <em>O quase fim do mundo </em>como o único lugar em que há sobreviventes de uma hecatombe. Por que em Calpe?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Calpe aparece primeiro em <em>Muana Puó</em> e é um lugar do sonho. Já em <em>O cão e os calus</em> é a cidade do autor. Aparece também em <em>A parábola do cágado velho</em>, e em cada um dos livros ela é diferente. Nesse último romance ela pode ser até mais parecida com Luanda, mas tive o cuidado de colocá-la rodeada de montanhas, o que não há em Luanda.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas ela é aqui também o lugar da utopia e do sonho, não é? Porque você está contando a história de um &#8220;quase&#8221; fim do mundo, de um novo começo exatamente em Calpe.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Eu uso Calpe para fazer uma ligação com outros textos e para trazer a idéia do recomeço. Em um determinado momento a personagem somali fala que a humanidade provavelmente já teve outros recomeços. E não há novidade nisso. Há inúmeros fenômenos que aconteceram e ainda não há explicação, como as figuras gigantes nos Andes que só podem ser vistas do alto, ou o calendário solar em pedra construído pelos incas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Além dos dados históricos, você busca inspiração no cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Certamente eu tenho uma influência do cinema, sobretudo do cinema americano. E aí me refiro ao filme de ação. Entrar logo na ação foi algo que aprendi com o cinema, não com a literatura. É a minha preocupação: agarrar logo o leitor.</p>
<p><span id="more-145"></span></p>
<p><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/capa-livro-pepetela.jpg" alt="" width="100" height="150" />CF &#8211; O romance faz isso realmente. E a linguagem é muito cinematográfica. O que pensa sobre uma adaptação da obra para o cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O grande problema é que já não acredito. Já me propuseram vários roteiros de livros meus, mas nenhum avançou realmente. <em>Mayombe</em> teve um grande roteiro e foi um pouco mais à frente, mas parou com a falta de dinheiro.</p>
<p><strong>CF &#8211; A ironia e o riso estão presentes o tempo inteiro no romance. Você tem acentuado cada vez mais o tom irônico no seu discurso ficcional. No caso desse livro, os personagens em nenhum momento se desesperam com o &#8220;fim do mundo&#8221;.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É porque é um fim do mundo africano, contado por um africano, por isso tem que ter humor e ironia. O africano consegue rir de sua própria desgraça. Digo o africano por causa do livro, mas nesse aspecto ele é bem angolano. O cinema e a literatura já estão cheios de catástrofes, queria fazer algo não pessimista, mas no fundo também é.<br />
A ironia é a melhor forma para prender o leitor e por outro lado colocá-lo a pensar. <em>O cão e os caluandas </em>talvez seja meu livro mais satírico. Escrevi entre 1979 e 1980, na época eu estava no governo. Foi nessa altura que eu descobri a ironia como arma.<br />
Ou seja, a ironia é uma arma, é usada de forma consciente e tem a ver com uma maneira de contar angolana. Está lá nos contos tradicionais e na literatura angolana em geral, como, por exemplo, em Uanhenga Xitu, nos contos do João Melo, em Ondjaki etc.</p>
<p><strong>CF &#8211; Os sobreviventes precisam conviver e buscar alternativas. Em um &#8220;quase fim do mundo&#8221; a saída para renovar os ciclos é a reflexão e o diálogo?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Uma coisa importante foi recriar as relações sociais com os preconceitos que os personagens já traziam. Porque há algumas coisas que eu queria tratar, como a questão da luta de grupos, e o que ficou, por exemplo, das lutas em Ruanda, no Congo etc. No fundo é uma pergunta: que raio de pessoas são essas para começar uma humanidade? Ora, a nossa humanidade atual, como é que começa? Com um irmão a matar o outro, Caim a matar Abel. E essa nova humanidade começaria da mesma maneira como a outra acabou. Não há aí muita inovação, não é? Enfim, a idéia era jogar com isso tudo, mas de fato o que ficam são as relações entre as pessoas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Entre os personagens estão alguns moradores de Calpe, uma somali, um etíope, uma americana e um sul-africano. Há um momento em que eles chegam à Europa de avião e vêem que tudo ali está morto. A Europa é de fato um &#8220;velho mundo&#8221; e dela só restariam os monumentos?  </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É isso, mas há uma tentativa de chamar a atenção para as relações atuais entre a Europa e os países que enviam pessoas para lá. É de fato um problema muito sério. E a ironia está também no fato da personagem Isis, a somali que é historiadora, estar grávida de um etíope e ficar na França. É uma piada com os franceses, porque o primeiro francês que nasce é na verdade africano.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mais uma vez são vários os narradores em um romance seu. Há quebras e mudanças de voz a todo instante. Dramatizar diferentes experiências é uma maneira melhor de olhar o mundo? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um escritor não pode limitar-se a sua própria visão. É preciso dar a visão dos personagens, porque cada um deles é um outro. Eu descobri isso já em <em>Mayombe</em>. Estava a escrever e de repente vem um personagem e diz &#8220;Eu, o narrador, sou Teoria&#8221; e conta um pouco da sua história pessoal. Depois outros personagens-narradores foram aparecendo, um pouco de maneira inconsciente. Eu escrevi <em>Mayombe </em>na guerrilha, a mão, e ele resistiu à chuva e outras coisas. Quando eu tive tempo de revê-lo, após a independência, fui passar a história para a máquina de escrever e pensei bastante se mantinha do mesmo jeito ou não, então vi que tinha que ser assim. No fundo é isso: dar a voz aos personagens.</p>
<p><strong>CF &#8211; Uma curiosidade: você tem preferência por algum personagem de <em>O quase fim do mundo</em>?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Talvez a Ísis, embora eu a tenha deixado na França. Vibrei quando ela apareceu. Ou talvez a Jude, a adolescente. As duas. Raramente seria um homem. As mulheres são mais fortes.</p>
<p><strong>CF &#8211; São elas as responsáveis por gerar vida também. E é interessante como o sexo e os desejos estão em cena no romance.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um amigo leu antes de ser publicado e disse que o livro era muito erótico. Mas tem que ser, ora. Ele está a tratar da vida.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas diga: quais são os segredos dos chás preparados pelo curandeiro Riek, que a sua maneira vai ajudando a unir os casais?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Há um conhecimento profundo de plantas pelos curandeiros africanos, sobretudo no que diz respeito à reprodução e à fertilidade. Há plantas que são conhecidas como afrodisíacas, como o pau de cabinda.<br />
Mas há uma preocupação de passar um pouco do conhecimento tradicional africano, que muitas vezes é desprezado pela dita civilização. De vez em quando é preciso dar uma lição.</p>
<p><strong>CF &#8211; Há muitas lições na narrativa. Como o debate sobre a excisão do clitóris de meninas e mulheres em certas regiões da África e outras partes do mundo.    </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Aproveito a ficção para dar recados. A mutilação genital é um problema muito debatido. Há situações conflituosas que chegam ao tribunal, casos de crianças de 11 ou 12 anos que sofrem com a castração, a retirada do clitóris, e discute-se o direito do Estado em interferir naquela cultura, indo contra determinadas tradições. É muito complicada não só a conseqüência física mas também a causa da prática, que é a submissão da mulher. Porque ela não consegue libertar-se e buscar o seu próprio prazer e sua condição de vida.</p>
<p><strong>CF -  Em <em>A geração da utopia</em>, na última parte da obra, a crítica à propagação de determinadas seitas e igrejas já aparecia de maneira irônica e mordaz. Agora, ela é um dos focos no romance, até porque várias teorias sobre o fim do mundo vêm das religiões. A maneira como muitas dessas religiões se apresentam é de fato arma letal, representando uma barreira enorme para as consciências e para relações mais solidárias. É essa a sua preocupação?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Na altura de <em>A geração da utopia</em> o fenômeno da propagação de maneira desordenada de igrejas estava a começar em Angola e achei oportuno discutir a questão. Mas as seitas foram crescendo. Neste momento, é um problema grave. No mês passado, por exemplo, foram presos líderes de duas seitas religiosas não legalizadas que mantinham 40 crianças de 4 a 10 anos aprisionadas e as torturavam todos os dias porque diziam que elas eram feiticeiras. Esse é um fenômeno novo, em Angola não existia. O feiticeiro, diferente do curandeiro, faz o mal e é sempre um adulto; o feitiço está ligado a alguma ambição ou inveja, portanto, não tem nada a ver com as crianças. E são práticas que vêm do Congo, isso não existia em Angola. Agora fecharam as tais seitas e as crianças foram para um lar e estão sendo acompanhadas por psicólogos. Os traumas são enormes, estavam a ser torturadas e chegariam à morte. O pior é que este episódio aconteceu em Luanda, na capital.<br />
Também em <em>Os predadores </em>ponho essa questão, mas ninguém lê os livros. Enfim, me sinto na obrigação de discutir os problemas antes que se tornem graves, mas não adianta. Eles tornam-se graves e depois as pessoas descobrem o que está acontecendo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Espero que a máquina do fim do mundo não funcione&#8230;</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Mas outro dia, à boa moda angolana, nós rimos com uma tragédia. No livro <em>O desejo de Kianda </em>acontece o desmoronamento de prédios na lagoa de Kinaxixe, ninguém sabe por que e tal. Esse ano o edifício da DNIC, a polícia de investigação criminal, caiu em Angola. Houve avisos de que o prédio estava mal. Duas horas antes do desabamento se ouviu um estrondo e uma parede abriu. Os polícias saíram e deixaram os presos, muitos morreram. Um drama, não se falava em outra coisa. José Luís Mendonça, dois ou três dias depois, diz: &#8220;Pepetela é feiticeiro&#8221;. Nós rimos, foi uma coincidência, é claro, mas o fato é que se espera muitas vezes pela desgraça.</p>
<p><strong>CF &#8211; <em>O quase fim do mundo </em>traz questões universais. Quais são suas expectativas quanto à divulgação do livro, inclusive a tradução e a circulação em outros países? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Em Portugal o livro já está na segunda edição, e isso é bom. Mais cedo ou mais tarde ele sairá aqui no Brasil. E por enquanto ninguém propôs tradução. Geralmente demora um pouco. Já nos Estados Unidos, acho mais difícil sair. Tentou-se com <em>O terrorista de Berkeley</em>, mas não aconteceu. Vamos ver.</p>
<p><strong>CF &#8211; Por falar nos Estados Unidos, como você está vendo a eleição de Barack Obama? Chegou a ver o texto de Manuel Rui sobre essa vitória?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Eu também quis escrever sobre as eleições, mas não deu tempo. Bem, Obama vai tomar posse em janeiro, provavelmente em fevereiro eu estou contra ele, já terei críticas a fazer, isso é normal. Mas acho que é um salto civilizacional extremamente importante. Pensar no que eram os Estados Unidos nessas questões, por exemplo, raciais, nos anos 60, de Mater Luther King, sobretudo no sul do país, e o que são hoje, 48 anos depois, com um presidente negro, mesmo que para os africanos ele não seja exatamente negro, é extraordinário. A primeira vez que fui aos Estados Unidos, nos anos 80, notei, sobretudo, nas publicidades, anúncios para negros. Eles estavam aparecendo e interessavam também como consumidores. Depois fui acompanhando e houve uma ascensão, hoje praticamente têm os mesmos direitos, mas com algumas restrições.<br />
Ouvi falar do Obama pela primeira vez em 2004 e pra mim não foi surpresa quando ele veio como possível candidato dos Democratas. Agora a eleição dele, mesmo pra África, é importante. A ironia é ele ser mestiço. Por enquanto a África está a fazer festa. Mas ela também tem minorias mestiças ou brancas, que são vistas de lado pela maioria negra hoje. Há um reverso da medalha do tempo colonial. E existe uma ironia porque o homem mais poderoso do mundo é mulato.</p>
<p><strong>CF &#8211; A nova civilização que você pensa neste último romance ironicamente também é mestiça.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Exatamente. E gosto sempre de lembrar que Jesus Cristo era mestiço. Essa história de Jesus loiro de olhos azuis é invenção da Idade Média européia. É evidente que os hebreus daquela época eram mestiços, com cabelos ondulados, nariz achatado e cor castanha. Tudo comprovado cientificamente. Isso é bom pra desmistificar. Porque só há uma raça, a raça humana, e acabou.</p>
<p><strong>CF &#8211; No Brasil discute-se bastante essa questão, mas há uma separação ainda muito grande.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O Brasil é muito ambíguo. Uma questão complicada é, por exemplo, pensar em um Movimento Negro seguindo os padrões do Movimento Negro americano. Porque a segregação nos Estados Unidos foi feita de maneira diferente. O Brasil tem que encontrar o seu caminho.<br />
Uma vez um representante do Movimento Negro no Brasil me chamou para falar aos &#8220;irmãos negros&#8221;, nos anos 80, do período de luta pela independência angolana e me disse, nas palavras dele, que &#8220;o nosso inimigo é o branco&#8221;. Eu lembrei a ele que a nossa luta nunca foi contra o branco, mas contra o colonizador, contra o sistema, o que é diferente. E no sistema colonizador havia também muitos negros. Uma grande parte do exército português era de negros. Em toda a história de Angola sempre houve uma parte de negros a lutarem a favor dos portugueses. Nossa luta era de libertação, libertação de todos. E outra coisa é a luta de classes.</p>
<p>Enfim, eles não gostaram muito da minha conversa, mas acho que no Brasil se mistura muito as coisas. Eu acho que o Movimento Negro americano teve um papel negativo aqui, porque começaram a tratar aqui de uma forma de segregação que não eram as próprias. A luta assim fica mais difícil. Mas com as novas políticas acho que as coisas estão melhorando.</p>
<p>______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>O papel da literatura em Angola e Moçambique</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 17:43:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
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		<description><![CDATA[Já falei de inúmeros encontros na Fliporto, mas um deles foi realmente especial. Em uma das mesas de encerramento, a reunião dos moçambicanos Marcelino Santos, Luís Carlos Patraquim e Paulina Chiziane e dos angolanos Pepetela, João Melo e Amélia Dalomba foi emocionante. Com um moderador competente, o professor Patrick Chabal, da King´s College London, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Já falei de inúmeros encontros na Fliporto, mas um deles foi realmente especial. Em uma das mesas de encerramento, a reunião dos moçambicanos Marcelino Santos, Luís Carlos Patraquim e Paulina Chiziane e dos angolanos Pepetela, João Melo e Amélia Dalomba foi emocionante. Com um moderador competente, o professor Patrick Chabal, da King´s College London, a conversa destacou aproximações entre as literaturas angolana e moçambicana e homenagens especiais a Marcelino Santos e Pepetela. Na verdade, mais uma vez por conta do tempo, os escritores versaram sobre uma única questão: <em>&#8220;Qual é o papel da literatura?&#8221;</em></p>
<div style="float: left; margin: 10px; text-align: center; font-style: italic;"><img src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/pepemarc2-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /><br />
Marcelino Santos e Pepetela</div>
<p>Marcelino Santos lembrou de José Craveirinha e disse que os moçambicanos vêm &#8220;de uma nação que ainda não existe&#8221;. Leu, então, seu poema &#8220;É preciso plantar&#8221; (na íntegra na seção Sararau).</p>
<p>Pepetela recorda a geração de Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Antonio Jacinto, Marcelino, &#8220;aqueles que inventaram essa coisa de libertação nacional&#8221;.</p>
<p>Paulina Chiziane também volta à Craveirinha e à poesia que transformou algo nela. &#8220;A literatura da geração de Craveirinha e Marcelino Santos fizeram a mim&#8221;, diz. E continua: &#8220;Eles colocaram a pedra do edifício da nação. Foi aí que pensei que deveria falar do que há no interior das casas, dos relacionamentos humanos.&#8221; Sobre o papel da sua literatura fala com sabedoria: &#8220;Só se conhece a altura da palma depois que morre. Talvez, quando eu cair, alguém diga ‘a literatura dela serviu pra isso&#8217; &#8220;.</p>
<p><span id="more-118"></span></p>
<p>Para Patraquim, <em>Mayombe</em>, de Pepetela,<em> </em>foi sua obra de referência. A narrativa o fez pensar melhor sobre a luta pelas independências porque falava de dentro dela. &#8220;A literatura teve um papel fundamental nas consciências nacionais. E o processo ainda não acabou. Agora são outras lutas e a poesia continua a ser de combate&#8221;, afirma o poeta.</p>
<p>Amélia Dalombe também fala de <em>Mayombe </em>e diz que &#8220;sonhava um dia ser Ondina&#8221;. Queria ser capaz de caminhar com suas próprias pernas e que seus sentimentos se colocassem em causa. &#8220;A literatura lado a lado com todas as outras formas de luta é a grande impulsionadora da nossa liberdade&#8221;, conclui.</p>
<p>Por fim, João Melo destaca que o papel da literatura muda com as mudanças, sociais, políticas, culturais. Faz uma crítica à falsa idéia de que faltava à literatura engajada uma depuração formal e estética. &#8220;A poesia revolucionária exige uma estética revolucionária&#8221;, afirma. O primeiro contato que teve com a poesia foi com a <em>Antologia da poesia negra de expressão portuguesa</em>, organizada por Mário Pinto de Andrade. Para ele, é preciso lembrar que a literatura é sobretudo linguagem e &#8220;não se pode perder a ligação com a realidade&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-134 aligncenter" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/mesafliporto1-300x139.jpg" alt="" width="300" height="139" /></p>
<p>_____________<br />
<span style="font-size: 10px;">Fotos: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Tony Tcheka e a poesia da Guiné-Bissau</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 17:17:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>
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		<description><![CDATA[No último dia da Fliporto conversei um pouco com o escritor Tony Tcheka, um dos grandes nomes da literatura guineense. Tony Tcheka, de 56 anos, é um dos poetas que participa da primeira publicação de poesia na Guiné-Bissau, em 1976, em uma antologia intitulada &#8220;Mantenhas para quem luta&#8221;. Junto com mais 12 poetas, chamados por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/tonytcheka-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />No último dia da Fliporto conversei um pouco com o escritor Tony Tcheka, um dos grandes nomes da literatura guineense. Tony Tcheka, de 56 anos, é um dos poetas que participa da primeira publicação de poesia na Guiné-Bissau, em 1976, em uma antologia intitulada &#8220;Mantenhas para quem luta&#8221;. Junto com mais 12 poetas, chamados por Mário Pinto de Andrade de &#8220;meninos da hora de Pindjiguiti&#8221;, faz naquele momento uma poesia engajada, ligada à independência da Guiné-Bissau em 1975. Foi um dos fundadores da UNAE &#8211; União dos Escritores da Guiné-Bissau, também é jornalista e agitador cultural.</p>
<p>Tony Tcheka me fala do problema da falta de política editorial no seu país. &#8220;Em uma sociedade onde tudo é prioritário, a cultura fica na segunda margem&#8221;, diz ele. Daí a reunião de escritores em antologias. Ele participa de várias, entre elas <em>Momentos primeiros de construção</em> (1978),<em> Poesia moderna guineense, Eco do Pranto </em>(1992)<em>, Barkafon di Poesia na Kriol </em>(1996)<em>. Eco do pranto </em>traz uma temática sobre a criança, ele conta. Já a <em>Poesia moderna guineense</em> marca um outro período, de ruptura com o sistema. Surgem grandes nomes depois da década de 80, como Abdulai Silá, Odete Semedo e Jorge Cabral. Tony Tcheka publica seu primeiro livro individual em 1996, <em>Noites de insónia na terra adormecida</em>, pelo INEP, Instituto Nacional de Estudo e Pesquisa, na coleção <em>Kebur</em>.</p>
<p>Os escritores enfrentam os desafios da publicação e outras barreiras, mas na Guiné-Bissau a cultura da oralidade é uma aliada e &#8220;o escritor escreve e publica todos os dias&#8221;, conta Tony. Há lá o djunbai, espaço de encontro, acrescenta. Embaixo de um baobá, diferentes pessoas se reúnem constantemente para contar estórias, ler versos, cantar e sorrir, em um convívio amistoso.</p>
<p><span id="more-114"></span></p>
<p>Por fim, preciso ressaltar o trabalho da professora Moema Parente Augel, que esteve presente no evento e me apresentou ao Tony Tcheka. Ela se dedica há muito tempo ao estudo das literaturas guineense e afro-brasileira, e, na ocasião, mais uma vez se mostrou empenhada na divulgação dessas literaturas. Para aqueles que começam a estudar a literatura da Guiné-Bissau, um bom texto da professora Moema é &#8220;Sol na Iardi &#8211; perspectivas otimistas para a literatura guineense&#8221;, disponível na internet: http://www.didinho.org/estudosepesquisas.html</p>
<p>Deixo um poema de Tony Tcheka, do seu mais recente livro <em>Guiné sabura que dói</em> (2008), pela UNEAS, União Nacional dos Escritores e Artistas de S. Tomé e Príncipe. Veja outros poemas também na seção Sararau.</p>
<p><strong>Globalizado excluído</strong></p>
<p>A<br />
Carta<br />
de<br />
alforria<br />
que<br />
floriu<br />
no templo<br />
das proclamações<br />
decretos<br />
e<br />
convênios<br />
libertadores<br />
murchou<br />
desandou<br />
como<br />
a<br />
flor<br />
sahel</p>
<p>amnésica<br />
ficou<br />
sem<br />
os<br />
pergaminhos</p>
<p>globalizada</p>
<p>nos<br />
grilhões<br />
dos<br />
novos<br />
navios<br />
negreiros<br />
ressurge<br />
sob formas<br />
manhetas<br />
manietada pelas<br />
fronteiras farpadas<br />
impostas por patriarcas ilusionistas<br />
batutadores da escrita família<br />
do comércio proteccionista de exclu$ão &amp;<br />
companhia Lda.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Encontros e desencontros na/da Fliporto</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 11:43:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>

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		<description><![CDATA[A Fliporto promoveu encontros e desencontros entre os dias 6 e 9 de novembro.  Se por um lado a circulação de inúmeros escritores brasileiros, africanos, latino-americanos e a presença de professores e pesquisadores da literatura contribuíram para uma série de diálogos e intercâmbios, principalmente nos bastidores, a ausência de um público maior de estudantes e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Fliporto promoveu encontros e desencontros entre os dias 6 e 9 de novembro.  Se por um lado a circulação de inúmeros escritores brasileiros, africanos, latino-americanos e a presença de professores e pesquisadores da literatura contribuíram para uma série de diálogos e intercâmbios, principalmente nos bastidores, a ausência de um público maior de estudantes e comunidade locais esvaziou a festa.  As sessões simultâneas também foram um problema. Além disso, com o tempo curtíssimo para cada participante e a presença de moderadores muitas vezes despreparados, o público precisou de disposição e paciência para acompanhar a programação.</p>
<p>Aliás, foi impossível acompanhar tudo. No dia 7, por exemplo, na mesma hora que Paulina Chiziane e Patraquim conversavam, a literatura de São Tomé e Príncipe era apresentada pela professora Margarida Paredes, da Universidade de Lisboa, com a participação de Ondjaki lendo poemas de Conceição Lima. A poeta foi homenageada junto com a pesquisadora Inocência Mata, duas são-tomenses que refletem sobre o universo sócio-cultural do arquipélago. Conceição Lima nasceu em Santana, em 1961, e tem dois livros de poesia publicados pela Editorial Caminho: <em>O útero da casa (2004) </em>e <em>A dolorosa raiz do micondó (2006). </em>Veja na seção Sararau o poema &#8220;A casa&#8221;, de Conceição Lima, lido na ocasião.</p>
<p>Ainda na sexta-feira, apesar dos desencontros dos moderadores de uma das mesas mais esperadas do evento &#8211; Agualusa, Ondjaki e Pepetela &#8211; foi bonita a homenagem da filha de Solano Trindade, Raquel Trindade, ao centenário do poeta, com a fala emocionada do poema &#8220;Tem gente com fome&#8221;. Uma pena eu não ter gravado esse momento, merecia ser ouvido por todos, inúmeras vezes. Mas deixo o poema também lá na roda/página Sararau.</p>
<p>A homenagem a Solano se estendeu no sábado, quando outras vozes quilombolas se juntaram. Em especial a de Conceição Evaristo. A mineira foi uma das poucas representantes da literatura afro-brasileira na Fliporto. Ao lado de Paulina Chiziane, nos lembra que precisamos cada vez mais de encontros entre África e Brasil.  </p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-104 aligncenter" title="img_1618" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1618-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p>_________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Paulina Chiziane e a metáfora do véu</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Nov 2008 13:45:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular &#8220;Quem conta um conto aumenta um ponto&#8221;. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float:left" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/paulina-207x300.jpg" alt="" hspace="10" vspace="10" width="186" height="270" />Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular &#8220;Quem conta um conto aumenta um ponto&#8221;. A questão estava exatamente em &#8220;que ponto acrescentar depois de tudo o que inúmeros outros escritores já fizeram&#8221;. E pensa: &#8220;Primeiro preciso conhecer o que se conta. E o que se conta foi construído basicamente pelo masculino. Depois preciso tirar o véu. Eu tiro o véu quando faço as minhas leituras. Por fim vou ficar com a minha tradição oral.&#8221;</p>
<p>Tirar o véu é uma prática constantemente necessária, afirma Paulina. Desde o primeiro acesso que tem da escrita, com a Bíblia sagrada, percebe que havia algo de errado quando lia o livro de Gênesis e encontrava ali um Adão negro e várias Evas. Faltava algo nessa escrita feita por homens, que &#8220;quando enumeram a mulher, falam do seu ponto de vista&#8221;, muitas vezes apresentando-a como um corpo-objeto. Em tom provocativo-reflexivo, Paulina lança uma pergunta aos integrantes da mesa, todos homens: &#8220;Que direito têm os artistas de me despirem em literatura?&#8221;</p>
<p><span id="more-95"></span></p>
<p>Alguns apelaram para o romantismo como saída, mas o fato é que Chiziane não faz um discurso feminista rotulado, para ela &#8220;o que está em causa é a desigualdade das relações entre as pessoas&#8221;.  Por isso, desde o seu primeiro livro, <em>Balada de amor ao vento (1990)</em>, problematiza um cotidiano africano cheio de tradições e relações injustas entre homens e mulheres.</p>
<p>As próprias mulheres sustentam muitos preconceitos, lembra Paulina. Como exemplo, &#8220;a letra da canção da mulher moçambicana, escrita por mulheres, mas que coloca a mulher em condição subalterna&#8221;.  Daí a necessidade de &#8220;tirar o véu&#8221;, como reforça a todo instante.</p>
<p> </p>
<p>Um trecho de <em>Niketche: uma história de poligamia (2002)</em>. Com ele, Paulina Chiziane ganha o prêmio José Craveirinha, em 2003. É o único romance da escritora até agora publicado no Brasil, em 2004, pela Companhia das Letras. Para Paulina, o sucesso de <em>Niketche</em> talvez esteja exatamente na &#8220;descoberta do feminino&#8221;.</p>
<p><em>&#8220;Meu Deus, ajuda-me a descobrir a alma e a força do meu rio. Para fazer as águas correr, os moinhos girar, a natureza vibrar. Para trazer ao meu leito a luz de todas as estrelas do firmamento e deixar o arco-íris mergulhar-me em toda a sua imensidão.<br />
</em><em>Sou um rio. Os rios contornam todos os obstáculos. Quero libertar a raiva de todos os anos de silêncio. Quero explodir com o vento e trazer de volta o fogo para o meu leito, hoje quero existir.&#8221;</em></p>
<p>_________<br />
<span style="font-size:10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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