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	<title>Sararau &#187; Estórias e Escritores</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2009 21:26:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>

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		<description><![CDATA[(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)
É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)</strong></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/05/joaomelo-200x300.jpg" alt="" width="200" height="300" />É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha &#8220;primeira&#8221; vida literária.<br />
Devo também esclarecer que, na verdade, não me concebo como um &#8220;escritor de laboratório&#8221; ou, como parece uma tendência actual, um &#8220;escritor de conferências, seminários e capas de revista&#8221;. O que eu sou como escritor resulta, desde logo, de todas as minhas vivências.</p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>&#8220;A linha da poesia é a linha da vida&#8221;</strong></span></p>
<p>O verso em epígrafe fecha o meu poema &#8220;Manifesto&#8221;, incluído pela primeira vez no livro <strong>Todas as Palavras</strong>. O mesmo resume, digamos assim, a minha atitude estética.</p>
<p>Não tenho dúvidas de que o meu ambiente familiar me ajudou a encontrar os caminhos que tenho trilhado, quer na vida quer na literatura. Sou filho de um jornalista e nacionalista &#8211; Aníbal de Melo &#8211; que um dia me disse que eu, se quisesse escrever, teria de ler Eça. Felizmente, obedeci-lhe. Além disso, tenho dois tios maternos que fazem parte da história da literatura e das artes plásticas angolanas (além da luta nacionalista): Henrique Guerra e Mário Guerra, ambos ligados à revista Cultura.</p>
<p>Começei a escrever aos 15 anos de idade, por causa, como gosto de dizer, de uma viagem de comboio. O que aconteceu é que, numa viagem entre Luanda e Malanje, a visão espantosa e exuberante da floresta tropical no Morro do Mbinda, perto da hoje cidade de Ndalatando, impressionou-me de tal maneira que, no regresso a casa, começei a escrever de repente, até hoje.</p>
<p>Em 1973, com 17 anos de idade, publiquei os meus primeiros textos, numa revista luandense chamada <em>A Semana Ilustrada</em>. Nesse mesmo ano, fui para Coimbra estudar Direito, depois de ter concluído o segundo ciclo no Liceu Salvador Correia, em Luanda. A viagem para Lisboa, no paquete &#8220;Vera Cruz&#8221;, é uma das minhas memórias mais fortes. O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Coimbra e, a partir daí, a minha vida entrou num processo de transformações absolutamente radicais, proporcionando-me uma série de experiências extraordinárias.</p>
<p>Após o 25 de Abril, conheci em Coimbra o escritor angolano Manuel Rui Monteiro, a quem mostrei os meus primeiros poemas. Ele interessou-se em publicá-los em livro na editora Centelha, mas isso nunca chegou a suceder. Outras urgências me chamavam, assim como a todos os jovens angolanos de então.</p>
<p>Voltei para Angola no dia 1 de Dezembro de 1974, obedecendo mais uma vez à voz do meu pai, que me telefonou de Luanda logo depois de ter regressado do exílio onde tinha estado de 1961 a 1974, combatendo pelo MPLA. Respondia também, juntamente com outros jovens angolanos que, na altura, estudavam em Coimbra e Lisboa, a um apelo de Agostinho Neto, líder do MPLA. Foi a minha primeira viagem de avião. Uma curiosidade: viajei com um bilhete arranjado pelo major Melo Antunes, a pedido do falecido médico e nacionalista angolano Arménio Ferreira.</p>
<p>No dia 8 de Março de 1975, começei a trabalhar na então Emissora Oficial de Angola (hoje Rádio Nacional), como jornalista. Estive na referida estação até Março de 1978, quando fui para a agência de notícias de Angola, ANGOP, primeiro como director adjunto e depois como director geral. Em Dezembro desse ano, passei também a dirigir o <em>Jornal de Angola</em>, em regime de acumulação. Tinha então 23 anos de idade.</p>
<p>Exerci esses cargos até 1982, ano em que fui trabalhar para o MPLA, como chefe da secção de Informação Internacional. Dois anos mais tarde, regressei à ANGOP, desta vez para abrir o escritório da agência no Brasil. Estive nesse país de Abril de 1984 a Dezembro de 1991, como correspondente de imprensa. Foi um período ao qual devo muito, em termos de crescimento humano, profissional e cultural. Aproveitei, inclusive, para me graduar e pós-graduar em Comunicação.</p>
<p>No início de 1992, já de regresso a Luanda, fundei a primeira agência de comunicação e lançei o primeiro jornal privado angolano do pós-independência, respectivamente, a Movimento e o <em>Correio da Semana</em> (este último não existe mais). Em Setembro de 1992, nas primeiras eleições realizadas em Angola, fui eleito deputado pelo MPLA, função que mantenho até o presente, pois fui reeleito no ano passado.</p>
<p>Desde 2000, começei a dar aulas de Comunicação em duas universidades locais. Há três anos atrás, voltei a lançar-me numa aventura jornalística: criei a revista <em>África 21</em>, que dirijo, com o apoio fundamental do jornalista português Carlos Pinto Santos.</p>
<p>Este, resumidamente, o meu percurso pessoal até agora. Não tenho dúvidas de que todas as minhas vivências e experiências estão presentes, de múltiplas formas, na minha obra literária. Eu tive a ventura de protagonizar ou acompanhar alguns acontecimentos extraordinários dos últimos 50 anos, em Angola e no mundo, o que, para um escritor, é uma benesse inegável.</p>
<p><span id="more-415"></span></p>
<p><span style="font-size: 15px;"><strong>Vivências, experiências e literatura</strong></span></p>
<p>Confesso que tenho vivido, até agora, de maneira profunda e intensa, mas sem grandes alardes e procurando sempre, pretensiosamente, manter o controlo (para os que crêem nisso, sou virginiano). Como digo em &#8220;Auto-retrato em 3&#215;4&#8243;, &#8220;<em>Aqui esteve alguém que / silencioso / colheu o doce segredo das tempestades&#8221;</em>.</p>
<p>Também já tive algumas perdas. O meu pai morreu em circunstâncias trágicas, apenas seis dias depois da independência de Angola, pela qual fez todos os sacríficios. Depois da morte dele, dediquei-lhe um poema, &#8220;Contribuições para a definição de um herói&#8221;, onde escrevi que &#8220;herói também é / o que escolhe o seu tempo de morrer&#8221;. Tenho pena, até hoje, de não ter convivido mais tempo com ele, embora o meu padrasto, com quem cresci, sempre tenha sido, de facto, outro pai para mim e o meu irmão, Kiluxa.</p>
<p>A morte deste último (ele chamava-se António José, mas lembrar-me-ei dele para sempre como o Kiluxa, &#8220;nosso único guerreiro&#8221;, que enfrentou os zairenses e os sul-africanos, mas morreu inesperadamente em Luanda, por doença, aos 49 anos) foi outra grande perda, que ainda sofro presentemente. Enfim, perdi alguns amigos, assim como velhos amores e numerosas paixões.</p>
<p>Mas ainda tenho a minha família: a minha mulher, Stella, &#8220;meu novo amor para sempre&#8221;, os meus filhos, Helena, Solange, Mário e Matári, a minha mãe e o seu marido, João Gourgel, meu segundo pai, os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus tios e todos os meus primos. Não esqueço igualmente os meus amigos. Como sou um optimista e acredito na generosidade humana, estou convicto que são muitos. Quanto aos inimigos, apenas me dão mais vontade de continuar vivo e interventivo, política, cultural e socialmente.</p>
<p>Além disso, convivo, por força das múltiplas actividades com as quais estou envolvido &#8211; jornalismo, literatura, política, publicidade e ensino -, com uma série de homens e mulheres de todas as idades, profissões, estatutos, nacionalidades e origens. Todas as pessoas com quem, por uma razão ou outra, me tenho cruzado ao longo da vida estão presentes, de qualquer forma, nos onze livros de poesia e quatro de contos que publiquei até este momento.</p>
<p>Obviamente, as minhas vivências e experiências, por si só, não fazem de mim um escritor. Eu sempre intuí isso, mas aprendi-o de uma forma elaborada com Luandino quando lhe entreguei, em 1987, o meu livro <strong>Poemas de Amor</strong>. Disse-me ele:-&#8221;Literatura é mais do que experiência&#8221;. Felizmente, &#8220;captei a mensagem&#8221; e fiz várias mudanças no livro, eliminei alguns textos e reelaborei outros, até que, dois anos depois, o mesmo foi publicado pela União dos Escritores Angolanos.</p>
<p>De Luandino aprendi ainda outra lição: para escrever, é preciso ler. Confirmo que devo muito às minhas leituras. O primeiro deslumbramento aconteceu quando li na casa de Rui Mingas em Lisboa, em 1970, a <em>Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa</em>, organizada por Mário de Andrade. A poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Craveirinha e outros, a que tive acesso pela primeira vez nessa altura, revelou ao então adolescente de 15 anos qual o caminho a seguir.</p>
<p>Angola é o chão de onde eu, orgulhosamente, venho. É desse lugar (como se sabe, lugar é perspectiva) que eu falo com o mundo. Mas também aprendi rapidamente que, embora fiel à tradição literária angolana, sobretudo no que diz respeito à relação entre a literatura, a história e a sociedade, era preciso e possível começar a falar com o mundo de outra maneira. Além de tudo o que vivi, duas leituras foram fundamentais para mim, nesse sentido: António Ramos Rosa e João Cabral de Melo Neto. A elas juntaram-se, mais tarde, as de Saramago, com a sua literatura reflexiva, e a do brasileiro Ruben Fonseca.</p>
<p>&#8220;Eu sou deste mundo e deste tempo&#8221;, escrevi há muitos anos, num dos meus livros preferidos, <strong>Canção do Nosso Tempo</strong>.</p>
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		<title>A poesia de Ondjaki em entrevista</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 02:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; &#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; </em>&#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os <em>Materiais.. </em>de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. <em>Actu sanguíneu </em>(2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda, também seu primeiro livro publicado, e <em>Há prendisajens com o xão &#8211; O segredo húmido da lesma &amp; outras descoisas </em>(2002), pela Caminho, são os outros dois. É importante lembrar que Ondjaki, aos 31 anos, já tem doze obras publicadas, entre elas as premiadas <em>Bom dia Camaradas </em>(2001), <em>E se amanhã o medo </em>(2005) e <em>Os da minha rua </em>(2007). Para saber mais sobre suas produções, visite <a href="http://www.kazukuta.com/">www.kazukuta.com</a></p>
<p><img class="size-full wp-image-432 alignleft" title="IDE28001" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/ondjaki1.jpg" alt="" width="200" height="250" />Em <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas </em>(2009), encontramos um trabalho que mistura gêneros e propõe um <em>desaprender </em>com as palavras. Convocando outros poetas para olharem juntos o chão do mundo e do próprio sujeito, Ondjaki constrói uma obra lírica de muito boa qualidade.  O poema &#8220;Corpo&#8221; enuncia: <em>&#8220;em cima do que foi olhado pela poesia/ estendo o meu luando/ empresto meu corpo ao chão/ e adormeço.&#8221; </em></p>
<p>Para melhor apresentar Ondjaki e sua nova obra aqui no Sararau, entrei em contato com o escritor e pedi uma entrevista, gentilmente concedida via email.  Conversamos um pouco sobre poesia, os <em>Materiais.. </em>e a vida. Para as perguntas, busquei inspiração também em Clarice Lispector e seu livro &#8220;De corpo inteiro&#8221;, com entrevistas a grandes artistas. &#8220;O que é o amor? Qual é a coisa mais importante do mundo? Vale a pena escrever? Você tem medo?..&#8221; são algumas das questões que eu e Clarice fazemos a Ondjaki. Ele responde a todas essas e muito mais.. Leia na íntegra:</p>
<p><strong>CF -</strong> <strong>O que é poesia para você</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é a poesia que eu leio, que eu gosto de ler, não a que eu faço. A que eu faço fica demasiado pouco-boa, demasiado estranha, para vir a senti-la como poesia. Pode ser &#8211; e oxalá que assim seja &#8211; que um dia isso se altere. A poesia para mim é a frase que emociona. Também posso olhar para o seu requinte, o seu bom gosto, a sua filosofia, a sua mensagem, mas sobretudo gosto que me agrade, que me acrescente, que me arrebate. Que me sonhe. Que me deixe sonhar.<br />
Sabe, não posso falar em termos universais, nem isto que vou dizer é uma consideração muito preparada, mas acho que Manoel de Barros é poesia. Quase todas as suas frases são poesia. Não me incomoda a tautologia, nem rítmica nem ao nível de conteúdos, pelo contrário: acho que ele sabe o que está a fazer (por um lado); e por outro, acho que ele nem sabe bem o que tem estado a fazer, a dizer, e é por isso que ele me parece um poeta-mesmo. Um poeta verdadeiro. Mas houve frases do músico Adoniran Barbosa, e até momentos cantados, que também me cheiram a poesia, isto para falar de brasileiros. A poesia do angolano Ruy Duarte de Carvalho, embora muito mais elaborada em termos linguísticos, numa busca que é interna mas que é também antropológica, essa poesia é muito boa, muito profunda. Não tenho a mínima dúvida, quando olho a poesia do Ruy, que aquilo é poesia. E quando não tenho dúvidas, quando a sinto tão limpa, importante, profunda, seca, séria, divertida, ternurenta, forte, intensa, então não me restam dúvidas, estou perante um poema&#8230;<br />
A poesia também está nos olhares. Sobretudo nos olhares dos velhos e das crianças. Há algo de muito semelhante na inocência do olhar de uma criança que sempre me lembra a candura do olhar dos velhos. Como se ambos seres conseguissem verdadeiramente sorrir pelo lado menos complicado da vida, a criança porque ainda não teve que passar por isso, o velho porque já não se quer preocupar com isso. Então brota a inocência. O mesmo nas mãos: as mãos das crianças e dos velhos são poemas abertos, fáceis de ler, fáceis de encontrar. Nem sempre fáceis de interpretar&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Vinícius de Moraes, em <em>Samba da bênção, </em>cantou que &#8220;pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ se não não se faz um samba não&#8221;. Você diria o mesmo da poesia</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Há qualquer coisa de nostálgico no interior, no útero, do poema&#8230; Há qualquer coisa de humano, e cá dentro do que é humano, muitas vezes, o sangue se move pela força do que não se explica. E às vezes o que não se explica, embora possa não ser totalmente triste, muitas vezes é um pouco melancólico&#8230;<br />
Na poesia de Manoel de Barros (é interessante) eu não encontro tristeza. Apenas nostalgia, saudade do berço quotidiano da infância, saudades de uma chão que lhe fugiu dos pés e que agora ele invoca para se devolver à vida-que-já-foi. Isso é bonito. Mas não é triste.<br />
Em Fernando Pessoa acho que há tristeza. É uma tristeza tão grande e profunda que não chega a ser evidente. É a tristeza do poeta que mistura a saudade do passado com a do futuro, só que em Pessoa, acho eu, isso foi mais longe: Pessoa tinha saudades da pessoa, das pessoas, que ele ainda não tinha sido&#8230;. Isso intensificou a sua poesia ao ponto de ancorar o que fossem os sentimentos humanos que ele usava. Com &#8220;ancorar&#8221; quis dizer &#8220;transformar em âncora&#8221;, e âncora contraditória: uma âncora que navegasse. Pessoa navegava em si e nos outros, nos mares e nos tempos, tanto que teve que se desdobrar para melhor se expressar&#8230;<br />
Talvez sim&#8230; No fundo mesmo, haja um bocadinho de tristeza em cada poeta&#8230;</p>
<p style="padding-left: 60px;"><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/capa-ondjaki.jpg" alt="" width="90" height="139" />tinha aprendido que era muito importante<br />
criar desobjectos.</strong><br />
<strong>certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar</strong><br />
<strong>o cinzento. não munido de nenhum</strong><br />
<strong>artefacto alegre, inventei um espanador de</strong><br />
<strong>tristezas.</strong><br />
<strong>era de difícil manejo &#8211; mas funcionava.</strong><br />
<strong> </strong><em>In: Materiais.., p. 7</em></p>
<p> </p>
<p><strong>CF &#8211; Como se processa em você a criação</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é quase sempre através de esperas. Esperar. Ir sentindo, através da vida, das leituras, das sensações, e depois esperar que a escrita, isto é, o eco desses sentires, apareça em formato literário. É por isso que às vezes a boa estória aparece sob o formato de conto, ou poema, ou livro mais extenso. Mas é com as esperas que funciono melhor, e depois juntar a isso as músicas que eu já sei que provocam emoções boas para escrever. E o milagre vem&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quando é que você começou a escrever</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter começado com os meus cadernos, não eram diários porque não escrevi todos os dias, mas eram cadernos de coisas sérias e internas, de queixumes e rotinas, e depois começaram a aparecer poemas. Também alguns contos. Deve ter sido a partir de 1990&#8230; (Mas isso nunca se sabe, a pessoa começa a escrever quando começa a sentir um mundo de um jeito diferente &#8211; pressentindo coisas pequenas que não sabe explicar, que não sabe dizer&#8230; E isso um dia irrompe, de dentro para fora, e uma urgência nos faz descobrir o caminho. Essa urgência é a escrita&#8230; talvez.)</p>
<p><span id="more-370"></span></p>
<p><strong>CF &#8211; A crítica (literária) constrói?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Costumo levar a sério a crítica que me diz algo que seja sério. Que eu note (ou pense) que veio de leituras e comparações sérias. Se não, nem me afecta. Nem a boa nem a má. Desconfio dos elogios exagerados, levo-os pouco a sério. E tenho uma tendência para valorizar o que é a crítica mais negativa, também porque me parece mais séria, mais sentida. Banalizo um pouco os elogios, enfim, ainda que sejam muito sinceros, não acho que venham acrescentar grande coisa.</p>
<p><strong>CF &#8211; Qual de seus livros você mais gosta? Por quê?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não há um. Realmente não há. Talvez um dia, não sei. Tenho um carinho muito especial pelo &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, foi um livro escrito sem tempo nem pensamento, não tive muito tempo para o preparar, tudo nele é instinto ou memória. E entreguei-o rapidamente, não fiz o longo e habitual (agora é habitual) trabalho de revisão de que tanto gosto. E é sobre a minha infância, sobre a minha Luanda e os meus camaradas professores cubanos. Sinto que tenho por ele um carinho muito especial, sendo que é também o meu primeiro romance.<br />
Acho que o outro seria o &#8220;Quantas madrugadas tem a noite&#8221;, até ao momento o livro que me deu mais trabalho, que foi um desafio literário muito intenso. Custou e foi bom ao mesmo tempo. Doía e dava prazer descobrir a estória, lutei muito para chegar ao ritmo certo de contar a estória, e a meio dela senti que estava certo. E isso é bom, não para dizer bem do livro, é para dizer que é uma sensação fantástica estar a escrever e saber que o ritmo faz parte da estória, e que eu estava muito confortável com aquele ritmo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Que livro de literatura você gostaria de ter escrito? Por quê</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Mas deve haver algum, ou alguns&#8230; Continuo a achar que o &#8220;Cem anos de solidão&#8221; é um grande livro. Acho mesmo. Hoje em dia já está na moda criticar esse livro, tudo bem, não me incomoda isso, continuo a ver nele alguma originalidade no formato, no ritmo e nos conteúdos. E se o comparo com outro livro (&#8220;O amor nos tempos de cólera&#8221;), do mesmo autor, escrito tantos anos depois, sinto a mesma coisa: são dois livros muito bons. E este segundo que refiro é mais difícil ainda, por ser uma estória simples, digamos assim, estruturalmente. É uma estória de amor e de espera, o que intensifica o amor dos personagens e o suspanse do leitor.<br />
Hoje já não, mas durante muito tempo, nessa altura do início dos anos noventa, julguei que queria escrever livros como &#8220;O solitário&#8221;, de Eugene Ionesco. Hoje já não, mas sinto que foi uma grande influência, voltei a esse livro muitas vezes.<br />
Mas não posso dizer, neste momento, que exista um livro concreto que eu gostaria de ter escrito&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Nesse seu novo livro de poesia, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, você dialoga com inúmeros outros escritores: Luandino, Guimarães, Drummond, Adélia, Mia Couto, Borges, Arlindo Barbeitos, Manoel de Barros.. Quais influências você teve desses e de outros autores</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Essa coisa da influência é mesmo um mistério. Para mim. Há pessoas que pensam que se trata de um segredo, no sentido de que o escritor conhece o caminho da influência, e muitas vezes não o quer revelar&#8230; Não se trata disso. Este livro tem a ver com quotidianos, com sentires momentâneos, nem sequer se pode dizer que seja, como um todo, um livro temático. Bom, talvez haja &#8220;a noite&#8221; ou &#8220;a madrugada&#8221; como pano de fundo, não sei&#8230; Mas o que há de influência é algo maior e mais recuado, talvez: Luandino Vieira, Mia Couto, Manoel de Barros, sempre me passaram a ideia (assim eu os li) de que, com alguma imaginação e coerência, e sobretudo descobrindo a voz e um ritmo próprio, tudo era possível em literatura.<br />
Onde eu encontro a minha voz mais única, é nos livros &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, &#8220;Os da minha rua&#8221; e &#8220;AvóDezanove&#8230;&#8221;, aí há um ritmo que é mesmo meu, pelo menos é que sinto por agora. Nos outros livros, é uma espécie de linguagem literária, a que &#8220;me aconteceu&#8221;, digamos assim, para escrever essas estórias. Neste livro de poemas &#8220;materiais para&#8230;&#8221;, eu não sei como descrever ou explicar a linguagem. Nem deveria tentar, para quê explicar a poesia?<br />
A influência está mais nos livros do que nos autores. São os livros que nos emocionam e ensinam. E a vida também, em eco acordado do que sempre se vai sonhando&#8230; São as obras e os ritmos desses autores que me acompanham, e acompanham-me muito, muitas vezes, mesmo quando não escrevo.<br />
A literatura e as palavras já me salvaram muitas vezes do abismo da tristeza.</p>
<p><strong>CF &#8211; O chão vibrante da poesia de Manoel de Barros (também o de Mia, o de Guimarães..), que já aparecia ressignificado em Há prendisajens com o xão (2002), volta a ser explorado, fuçado, por você e sua linguagem própria, carregada de tristezuras e de afeto. O que te atrai no chão</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>O que me atrai no chão deve ser a sua capacidade germinadora, no sentido não só da semente, mas também do sonho; e a sua dimensão de lugar aberto, que contém sem reter, que educa sem viciar, que te solta sem te abandonar. Assim entendo a palavra chão: lugar sagrado de criaturas humanas e outras, ponto de reencontro de sensações e sentimentos. Talvez por isso o chão seja a casa de tantos poetas, e dos pés descalços, e o lugar das sombras, e do pó das asas das borboletas, e o lugar onde com suor o camponês deixa a semente para vir a saber da colheita&#8230;<br />
O meu chão poético é esse, o da esteira (luando), o das crianças correndo, o da poeira de Luanda, o chão verde de esperar as chuvas e de autorizar a passagem e a cantoria das rãs. O que me atrai no chão é que tem tanto a ensinar à Humanidade..</p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>O INÍCIO </strong><strong>[1/7/02]</strong><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância<br />
perdido no tempo. escorreguei no tempo.<br />
nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes<br />
lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a<br />
aldeia de ynari];<br />
adormeci na aldeia.<br />
ouvi um barulho &#8211; era a lesma a sorrir.<br />
o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que<br />
escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele<br />
coleccionava no quarto ou no coração das mãos.<br />
abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;">In: <em>Materiais.., </em>p. 13.</p>
<p><strong>CF &#8211; Quantas estórias tem cada poema seu</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Nem sempre sabemos. Nem sempre sei. Há poeminhas simples e poemas cheios de segredos&#8230; Há de tudo. E há também as estórias que os outros vão sentir ou inventar ao ler o poema&#8230; A beleza é essa, a extensão do labirinto sensorial, depois da criação&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quanto da sua poesia está nas suas estórias? (Me lembro aqui do último conto de Os da minha rua, p. exemplo. as lesmas do seu chão estão lá. a serem olhadas. Há um lirismo especial nas suas narrativas.)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Tudo na vida são vice versas, vice versos, vide versos&#8230; Brincriações, como diria o camarada Mia Couto. A pessoa é a mesma, os mundos é que se desdobram&#8230; Quanto mais tempo passe, melhor se verá o labirinto. E eu escrevo muito com coisas e pessoas de verdade, tiradas da minha vida afectiva e familiar, os meus amigos, as minhas ruas, as minhas luandas, e mesmo o que invento vem cheio de sentimentos e sensações que vi, vivi, olhei para recontar&#8230; é normal que o labirinto se vá revelando aos poucos.</p>
<p><strong>CF &#8211; Estão nos seus versos também, o tempo inteiro, Luanda, a Huíla, o Lubango, Benguela.. A poesia te ajuda a apalpá-los?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>A poesia me ajuda a combater as saudades. A prosa também. É verdade que invoco lugares e pessoas para não estar sempre longe deles, porque muitas vezes estou fisicamente longe de algumas dessas referências afectivas&#8230; A poesia me ajuda a sonhá-los mais perto&#8230;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>MANIPULAR A GRANDE ARDÓSIA </strong><strong>[9/8/02]</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>quando olhei o céu do lubango inundado de estrelas lindas,<br />
</strong><strong>o meu coração lembrou joão vêncio, suas estrelas<br />
</strong><strong>amorosas. todo um makulusu literário me inundou as<br />
</strong><strong>veias. imaginei um desenho para o luandino:<br />
</strong><strong>tropeçando entre as estrelas, dois compadres se abraçavam<br />
</strong><strong>em bebedeira: mais-velho e joão vêncio, o triste e o melancólico,<br />
</strong><strong>apertavam a noite nesse abraço [a imaginária imagem<br />
</strong><strong>era do foro do senhor chaplin].<br />
</strong><strong>manejando a ardósia do universo, tudo poderia ser alterado.<br />
</strong><strong>por exemplo:<br />
</strong><strong>fazer o joão vêncio pontapear uma estrela apagada até ela<br />
</strong><strong>se acender de novo; embebedar de alegria sulista o maisvelho<br />
</strong><strong>até abrandar as tristezas dele.<br />
</strong><strong>[...]<br />
</strong><strong>se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à<br />
</strong><strong>noite<br />
</strong><strong>e terminava este poema assim: etestrelas&#8230;!</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><em>In: <em>Materiais.., </em>p. 24</em></p>
<p><strong>CF &#8211; O que é que você desejaria para Angola?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>O desenvolvimento, obviamente. Foi para isso que o povo angolano lutou pela independência nacional, e é o objectivo social de todos os povos. A igualdade possível, a diminuição da pobreza extremada, porque algum pobreza sempre existirá, existem pobres na Suiça e na Suécia, no Japão, etc. Mas aqui vivemos ainda uma dimensão de pobreza extremada que é preciso extinguir urgentemente.<br />
O que eu mais desejo para Angola é que um dia venha a ter lideres que possam compreender e dar total prioridade à resolução dos problemas da maioria das pessoas. E em Angola a maioria das pessoas tem problemas básicos: nutrição, alimentação, ensino e saúde.<br />
Estou convencido que as principais bases de uma revolução, e precisamos sempre de revoluções (ainda que sejam pacificas), se conseguem a partir do desejo de educar a população. Educando, alimentando, tornando o povo livre para pensar e decidir. Obviamente que os políticos raramente querem isso&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Você escreve de manhã, de tarde ou de noite?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Sobretudo escrevo de noite. Espero os seres e vozes que habitam as madrugadas, os barulhos pequenos, e as ambiências nocturnas que me trazem ou acalmia ou inquietude&#8230; É de noite que pratico melhor o meu desassossego&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, a noite é o tempo da poesia? (Lendo os Materiais.., me sinto no meio da noite, mesmo que esteja lendo de dia.. &#8220;A noite seres&#8221; e &#8220;Imitação da madrugada&#8221; &#8211; os dois momentos da obra &#8211; parecem convocar o leitor para olhar o chão que está dentro, mais fechado, por isso mais noturno..)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter escrito muita coisa de noite, sim&#8230; Também me acontece, raramente, sentir a poesia em outras horas&#8230; Este livro é muito nocturno sim, cheio de ecos que me chegavam de madrugada. Aliás adoro essa palavra que parece estar sempre lânguida e deitada&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Um dos últimos poemas do livro traz velhos e novos sentidos para &#8220;Essa palavra margem&#8221;. Bem, no famoso conto de Guimarães Rosa, o medo do filho em assumir o lugar do pai na canoa é sem dúvida uma das imagens mais significativas. Eu pergunto: você tem medo da terceira margem</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não tenho medo&#8230; Também, na realidade, (e no sonho&#8230;) ainda não conheço bem essa que seja ou virá a ser a minha terceira margem, mas não tenho medo, tenho curiosidade&#8230; Uso abrir os livros de Guimarães (ou &#8220;Man Guimas&#8221;, como diria um certo Adolfo Dido&#8230;) como abro os livros de Clarice, em jeito de por-acaso, em jeito de espera, para respirar ou descobrir outras respirações&#8230; Adoro a palavra margem, prima-como-irmã da palavra varanda, ou maresia&#8230; E acho que gosto de espreitar as margens das pessoas e dos livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Fora sua vocação indiscutível, diga-me: vale a pena escrever?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei se vale a pena escrever. Vale a pena sonhar. Vale a pena escrever um livro no qual se crê. Vale a pena ser honesto com uma estória, isto é, deixar as palavras sangrarem o corpo da imaginação do escritor ao sabor dos ventos internos depois da imaginação falada para ser pensada como pensamento e ritmo de escrever o que às vezes foi sonhado para ser falado mas que vira palavra de parágrafo estético de pedaços da vida também do escritor e dos seus personagens&#8230;<br />
Vale a pena escrever a vida em pedaços de livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>São as pessoas. Seguramente. Elas englobam a amizade, o companheirismo, a ternura e os momentos vivos e humanos que nunca saberemos explicar nem descrever. As pessoas é que são o mundo, bichinhos e poemas incluídos nesse mundo&#8230; As pessoas são a minha bússola, e esse é o meu único medo de morrer no dia que isso vier a acontecer: não poder mais estar com as pessoas, e abraçá-las, e saber delas, e rir com elas&#8230;<br />
As pessoas. As ideias, as comunicações inventadas a fingir que sabemos mostrar aos outros que gostamos deles. As pessoas, partículas bonitas, humanas, movediças e calorosas, do que usamos chamar mundo&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; O que é o amor? Qualquer tipo de amor.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Talvez o amor seja sabermos estar&#8230; Assim como saber estar é saber dar-se, e saber buscar o que no outro nos faz crescer. Companhia. Respeito. Sexo. Ousadia. Rebeldia. Amizade. Companhia. Talvez o amor seja sabermos compreender o outro para voltarmos a nós em paz.</p>
<p><strong>CF &#8211; Diga alguma coisa que me surpreenda.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Esta questão é muito difícil. Não sei o que dizer&#8230; Portanto vou silenciar-me por aqui&#8230;</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Marcelino Freire, “mar que arrebenta”</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Jan 2009 01:41:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dicas Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Lei 10639/03]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda aproveitando as férias, estive no evento literário &#8220;Boca de Baco&#8221;, que está acontecendo aos sábados na Livraria Odeon, na Cinelância. Na estréia, além de lançamentos de livros e leituras de textos, houve uma oficina de narrativas breves com Marcelino Freire. Tive oportunidade de conversar um pouco com o escritor, já pretendia apresentá-lo aqui no Sararau e no quente dia 17 o encontro foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/img_19931-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />Ainda aproveitando as férias, estive no evento literário &#8220;Boca de Baco&#8221;, que está acontecendo aos sábados na Livraria Odeon, na Cinelância. Na estréia, além de lançamentos de livros e leituras de textos, houve uma oficina de narrativas breves com Marcelino Freire. Tive oportunidade de conversar um pouco com o escritor, já pretendia apresentá-lo aqui no Sararau e no quente dia 17 o encontro foi feliz.  </p>
<p>Tenho lido alguns escritores brasileiros contemporâneos e, sem sombra de dúvida, Marcelino Freire é um destaque entre tantas linguagens e estilos da nova geração. Seus <em>Contos negreiros </em>me prenderam desde o primeiro instante, levei-os para a sala de aula, para as rodas com amigos, e a cada leitura crescia o impacto da linguagem direta, da pontuação cotidiana, do silêncio significante. Como pequenos socos no estômago que, em uma seqüência permanente, machucam pra valer, os contos são curtos, grossos e cantam em tom irônico-mordaz histórias de um Brasil nada heróico. <em>&#8220;Brasil, do meu amor. Terra de nosso sinhô.&#8221;</em> são os versos da epígrafe. Logo depois, na apresentação do livro, Xico Sá avisa: &#8220;É doce, mas não é mole não&#8221;.</p>
<p>Marcelino Freire é pernambucano, tem 41 anos e desde os 23 vive em São Paulo, onde se diz um &#8220;estrangeiro&#8221;. Com a obra <em>Contos negreiros</em>, publicada em 2005 pela Record, ganhou o prêmio Jabuti de literatura na categoria contos. <em>Angu de Sangue </em>(2000) e <em>Balé Ralé </em>(2003),<em> </em>pela Ateliê Editorial, e seu mais recente <em>Rasif &#8211; Mar que arrebenta </em>(2008), pela Record, são outros livros do gênero eleito pelo escritor. Os títulos sugestivos apontam uma marca de Marcelino: escrever a partir de experiências de seu local de origem, colocando em cena personagens e histórias marcados pela exclusão. No nosso bate papo, Marcelino explica que <em>Racif </em>é a origem árabe do nome Recife e que Pernambuco significa &#8220;mar que arrebenta&#8221;, em tupi-guarani. Suas narrativas nascem exatamente daí.</p>
<p style="text-align: left;"><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/8501072567.jpg" alt="" width="136" height="203" />Histórias que acrescentam, vale lembrar, ao debate sobre a aplicação da lei 10639. <em>Contos negreiros, </em>por exemplo, é uma obra que se insere em um projeto de ensino em diferentes níveis. Cabe ao professor conhecer o material para melhor utilizá-lo.. ..O blog do escritor é um excelente espaço para se obter outras informações: <a href="http://www.eraodito.blogspot.com">www.eraodito.blogspot.com</a></p>
<p style="text-align: left;">..No evento do Odeon, Marcelino leu o conto &#8220;Trabalhadores do Brasil&#8221;, que transcrevo abaixo. Faço uma sugestão: leia-o mais de uma vez, principalmente em voz alta.. Perceba o discurso, as ambiguidades, as possibilidades de leitura.. É realmente &#8221;mar que arrebenta&#8221;..</p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>&#8220;Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enquanto a gente dança no bico da garrafinha Ode trabalha de segurança pega ladrão que não respeita quem ganha o pão que o Tição amassou honestamente enquanto Obatalá faz serviço pra muita gente que não levanta um saco de cimento ta me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar 1 passe ou 2 na praça turbulenta do Pelô fazendo sexo oral anal seja lá com quem for ta me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando de cima da ponte ta me ouvindo bem?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Hein seu branco safado?</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ninguém aqui é escravo de ninguém.&#8221;</strong></p>
<p style="text-align: justify;">______</p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-size: 9px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ondjaki, um contador de histórias</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2008/12/ondjaki-um-contador-de-historias/</link>
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		<pubDate>Fri, 05 Dec 2008 14:25:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura infantil]]></category>

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		<description><![CDATA[O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, O Leão e o Coelho Saltitão, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_11721-246x300.jpg" alt="" width="246" height="300" />O escritor angolano Ondjaki está em Portugal lançando seu mais recente livro infantil, pela Editorial Caminho, <em>O Leão e o Coelho Saltitão</em>, com ilustrações de Rachel Caiano. O livro é certamente uma boa pedida de leitura para crianças e adultos. Até porque estamos falando de um texto escrito por um verdadeiro contador de histórias, que seduz pela palavra, transmitindo ao leitor/ ouvinte experiências e formas de ver o mundo. <em></em></p>
<p>Baseado em um conto tradicional Luvale, o livro traz alegorias que, em linguagem figurativa, &#8220;dizem o outro&#8221;, e nos fazem imaginar, quem sabe, um novo traço, mais harmonioso e criativo, para as relações humanas e sociais.</p>
<p><span id="more-203"></span>Vejam uma pequena mostra do que o &#8220;leão da Floresta Grande&#8221; e o &#8220;coelho Saltitão&#8221; vão armar para resolverem o problema da fome&#8230;&#8230;.. Na seção <em>Eventos, </em>há toda a programação do lançamento do livro, com a presença dos autores, de 2 a 13 de dezembro, em Portugal.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-207" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_2172.jpg" alt="" width="500" height="332" /></p>
<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/leao_31721.jpg" alt="" width="500" height="474" /></p>
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		<title>Entrevista com Pepetela</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2008/11/entrevista-com-pepetela/</link>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 18:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>

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		<description><![CDATA[No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro O quase fim do mundo, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/pepeentrevista-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" />No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro <em>O quase fim do mundo</em>, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. Nosso encontro em Porto foi outro prazer. Falamos um pouco de tudo: literatura, cinema, política, temas contemporâneos etc. </strong></p>
<p><strong>Veja aqui a entrevista.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>CF &#8211; O que o inspirou a dar a sua versão para o tema &#8220;fim do mundo&#8221;?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>A idéia surgiu de uma conversa com minha filha há muito tempo, quando aconteceu o atentado no metrô de Tóquio, com gás sarin, na década de 90. Isso é muito comum em mim. Tenho uma idéia e penso: &#8220;um dia vou escrever sobre isso&#8221;. Anoto várias idéias, algumas se perdem e outras voltam, mesmo muito tempo depois, quando acho que está na hora de escrever. Aconteceu com vários outros romances, <em>Lueji</em>, <em>A Gloriosa Família</em>, <em>Parábola do Cágado Velho</em>, <em>Jaime Bunda</em>, em parte com <em>A Geração da Utopia</em>.<br />
Em <em>O quase fim do mundo</em> o importante foi tentar imaginar um universo em que há pouco de tudo; há mais do vegetal e do mineral, mas do animal muito pouco. Também tive logo a idéia de que não poderia ser em Angola. É um tema universal e a história tinha que acontecer em algum sítio com um significado outro. Foi aí que cheguei à região dos Grandes Lagos, que é o paraíso na terra, mas é o inferno em África. Há quarenta anos, pelo menos, estão a matar uns aos outros estupidamente e hoje em dia já não se sabe muito bem porque se está a matar. Recomeçou agora a guerra na parte oriental do Kivu*.<br />
Enfim, a idéia é: na parte mais desgraçada do continente mais desgraçado, que corresponde ao sítio onde há os vestígios humanos mais antigos, ou seja, onde começou a humanidade, o mundo vai recomeçar.<br />
*Lago que separa Ruanda da República Democrática do Congo</p>
<p><strong>CF &#8211; Calpe, a cidade imaginária que está em outros romances, aparece em <em>O quase fim do mundo </em>como o único lugar em que há sobreviventes de uma hecatombe. Por que em Calpe?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Calpe aparece primeiro em <em>Muana Puó</em> e é um lugar do sonho. Já em <em>O cão e os calus</em> é a cidade do autor. Aparece também em <em>A parábola do cágado velho</em>, e em cada um dos livros ela é diferente. Nesse último romance ela pode ser até mais parecida com Luanda, mas tive o cuidado de colocá-la rodeada de montanhas, o que não há em Luanda.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas ela é aqui também o lugar da utopia e do sonho, não é? Porque você está contando a história de um &#8220;quase&#8221; fim do mundo, de um novo começo exatamente em Calpe.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Eu uso Calpe para fazer uma ligação com outros textos e para trazer a idéia do recomeço. Em um determinado momento a personagem somali fala que a humanidade provavelmente já teve outros recomeços. E não há novidade nisso. Há inúmeros fenômenos que aconteceram e ainda não há explicação, como as figuras gigantes nos Andes que só podem ser vistas do alto, ou o calendário solar em pedra construído pelos incas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Além dos dados históricos, você busca inspiração no cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Certamente eu tenho uma influência do cinema, sobretudo do cinema americano. E aí me refiro ao filme de ação. Entrar logo na ação foi algo que aprendi com o cinema, não com a literatura. É a minha preocupação: agarrar logo o leitor.</p>
<p><span id="more-145"></span></p>
<p><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/capa-livro-pepetela.jpg" alt="" width="100" height="150" />CF &#8211; O romance faz isso realmente. E a linguagem é muito cinematográfica. O que pensa sobre uma adaptação da obra para o cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O grande problema é que já não acredito. Já me propuseram vários roteiros de livros meus, mas nenhum avançou realmente. <em>Mayombe</em> teve um grande roteiro e foi um pouco mais à frente, mas parou com a falta de dinheiro.</p>
<p><strong>CF &#8211; A ironia e o riso estão presentes o tempo inteiro no romance. Você tem acentuado cada vez mais o tom irônico no seu discurso ficcional. No caso desse livro, os personagens em nenhum momento se desesperam com o &#8220;fim do mundo&#8221;.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É porque é um fim do mundo africano, contado por um africano, por isso tem que ter humor e ironia. O africano consegue rir de sua própria desgraça. Digo o africano por causa do livro, mas nesse aspecto ele é bem angolano. O cinema e a literatura já estão cheios de catástrofes, queria fazer algo não pessimista, mas no fundo também é.<br />
A ironia é a melhor forma para prender o leitor e por outro lado colocá-lo a pensar. <em>O cão e os caluandas </em>talvez seja meu livro mais satírico. Escrevi entre 1979 e 1980, na época eu estava no governo. Foi nessa altura que eu descobri a ironia como arma.<br />
Ou seja, a ironia é uma arma, é usada de forma consciente e tem a ver com uma maneira de contar angolana. Está lá nos contos tradicionais e na literatura angolana em geral, como, por exemplo, em Uanhenga Xitu, nos contos do João Melo, em Ondjaki etc.</p>
<p><strong>CF &#8211; Os sobreviventes precisam conviver e buscar alternativas. Em um &#8220;quase fim do mundo&#8221; a saída para renovar os ciclos é a reflexão e o diálogo?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Uma coisa importante foi recriar as relações sociais com os preconceitos que os personagens já traziam. Porque há algumas coisas que eu queria tratar, como a questão da luta de grupos, e o que ficou, por exemplo, das lutas em Ruanda, no Congo etc. No fundo é uma pergunta: que raio de pessoas são essas para começar uma humanidade? Ora, a nossa humanidade atual, como é que começa? Com um irmão a matar o outro, Caim a matar Abel. E essa nova humanidade começaria da mesma maneira como a outra acabou. Não há aí muita inovação, não é? Enfim, a idéia era jogar com isso tudo, mas de fato o que ficam são as relações entre as pessoas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Entre os personagens estão alguns moradores de Calpe, uma somali, um etíope, uma americana e um sul-africano. Há um momento em que eles chegam à Europa de avião e vêem que tudo ali está morto. A Europa é de fato um &#8220;velho mundo&#8221; e dela só restariam os monumentos?  </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É isso, mas há uma tentativa de chamar a atenção para as relações atuais entre a Europa e os países que enviam pessoas para lá. É de fato um problema muito sério. E a ironia está também no fato da personagem Isis, a somali que é historiadora, estar grávida de um etíope e ficar na França. É uma piada com os franceses, porque o primeiro francês que nasce é na verdade africano.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mais uma vez são vários os narradores em um romance seu. Há quebras e mudanças de voz a todo instante. Dramatizar diferentes experiências é uma maneira melhor de olhar o mundo? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um escritor não pode limitar-se a sua própria visão. É preciso dar a visão dos personagens, porque cada um deles é um outro. Eu descobri isso já em <em>Mayombe</em>. Estava a escrever e de repente vem um personagem e diz &#8220;Eu, o narrador, sou Teoria&#8221; e conta um pouco da sua história pessoal. Depois outros personagens-narradores foram aparecendo, um pouco de maneira inconsciente. Eu escrevi <em>Mayombe </em>na guerrilha, a mão, e ele resistiu à chuva e outras coisas. Quando eu tive tempo de revê-lo, após a independência, fui passar a história para a máquina de escrever e pensei bastante se mantinha do mesmo jeito ou não, então vi que tinha que ser assim. No fundo é isso: dar a voz aos personagens.</p>
<p><strong>CF &#8211; Uma curiosidade: você tem preferência por algum personagem de <em>O quase fim do mundo</em>?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Talvez a Ísis, embora eu a tenha deixado na França. Vibrei quando ela apareceu. Ou talvez a Jude, a adolescente. As duas. Raramente seria um homem. As mulheres são mais fortes.</p>
<p><strong>CF &#8211; São elas as responsáveis por gerar vida também. E é interessante como o sexo e os desejos estão em cena no romance.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um amigo leu antes de ser publicado e disse que o livro era muito erótico. Mas tem que ser, ora. Ele está a tratar da vida.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas diga: quais são os segredos dos chás preparados pelo curandeiro Riek, que a sua maneira vai ajudando a unir os casais?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Há um conhecimento profundo de plantas pelos curandeiros africanos, sobretudo no que diz respeito à reprodução e à fertilidade. Há plantas que são conhecidas como afrodisíacas, como o pau de cabinda.<br />
Mas há uma preocupação de passar um pouco do conhecimento tradicional africano, que muitas vezes é desprezado pela dita civilização. De vez em quando é preciso dar uma lição.</p>
<p><strong>CF &#8211; Há muitas lições na narrativa. Como o debate sobre a excisão do clitóris de meninas e mulheres em certas regiões da África e outras partes do mundo.    </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Aproveito a ficção para dar recados. A mutilação genital é um problema muito debatido. Há situações conflituosas que chegam ao tribunal, casos de crianças de 11 ou 12 anos que sofrem com a castração, a retirada do clitóris, e discute-se o direito do Estado em interferir naquela cultura, indo contra determinadas tradições. É muito complicada não só a conseqüência física mas também a causa da prática, que é a submissão da mulher. Porque ela não consegue libertar-se e buscar o seu próprio prazer e sua condição de vida.</p>
<p><strong>CF -  Em <em>A geração da utopia</em>, na última parte da obra, a crítica à propagação de determinadas seitas e igrejas já aparecia de maneira irônica e mordaz. Agora, ela é um dos focos no romance, até porque várias teorias sobre o fim do mundo vêm das religiões. A maneira como muitas dessas religiões se apresentam é de fato arma letal, representando uma barreira enorme para as consciências e para relações mais solidárias. É essa a sua preocupação?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Na altura de <em>A geração da utopia</em> o fenômeno da propagação de maneira desordenada de igrejas estava a começar em Angola e achei oportuno discutir a questão. Mas as seitas foram crescendo. Neste momento, é um problema grave. No mês passado, por exemplo, foram presos líderes de duas seitas religiosas não legalizadas que mantinham 40 crianças de 4 a 10 anos aprisionadas e as torturavam todos os dias porque diziam que elas eram feiticeiras. Esse é um fenômeno novo, em Angola não existia. O feiticeiro, diferente do curandeiro, faz o mal e é sempre um adulto; o feitiço está ligado a alguma ambição ou inveja, portanto, não tem nada a ver com as crianças. E são práticas que vêm do Congo, isso não existia em Angola. Agora fecharam as tais seitas e as crianças foram para um lar e estão sendo acompanhadas por psicólogos. Os traumas são enormes, estavam a ser torturadas e chegariam à morte. O pior é que este episódio aconteceu em Luanda, na capital.<br />
Também em <em>Os predadores </em>ponho essa questão, mas ninguém lê os livros. Enfim, me sinto na obrigação de discutir os problemas antes que se tornem graves, mas não adianta. Eles tornam-se graves e depois as pessoas descobrem o que está acontecendo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Espero que a máquina do fim do mundo não funcione&#8230;</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Mas outro dia, à boa moda angolana, nós rimos com uma tragédia. No livro <em>O desejo de Kianda </em>acontece o desmoronamento de prédios na lagoa de Kinaxixe, ninguém sabe por que e tal. Esse ano o edifício da DNIC, a polícia de investigação criminal, caiu em Angola. Houve avisos de que o prédio estava mal. Duas horas antes do desabamento se ouviu um estrondo e uma parede abriu. Os polícias saíram e deixaram os presos, muitos morreram. Um drama, não se falava em outra coisa. José Luís Mendonça, dois ou três dias depois, diz: &#8220;Pepetela é feiticeiro&#8221;. Nós rimos, foi uma coincidência, é claro, mas o fato é que se espera muitas vezes pela desgraça.</p>
<p><strong>CF &#8211; <em>O quase fim do mundo </em>traz questões universais. Quais são suas expectativas quanto à divulgação do livro, inclusive a tradução e a circulação em outros países? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Em Portugal o livro já está na segunda edição, e isso é bom. Mais cedo ou mais tarde ele sairá aqui no Brasil. E por enquanto ninguém propôs tradução. Geralmente demora um pouco. Já nos Estados Unidos, acho mais difícil sair. Tentou-se com <em>O terrorista de Berkeley</em>, mas não aconteceu. Vamos ver.</p>
<p><strong>CF &#8211; Por falar nos Estados Unidos, como você está vendo a eleição de Barack Obama? Chegou a ver o texto de Manuel Rui sobre essa vitória?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Eu também quis escrever sobre as eleições, mas não deu tempo. Bem, Obama vai tomar posse em janeiro, provavelmente em fevereiro eu estou contra ele, já terei críticas a fazer, isso é normal. Mas acho que é um salto civilizacional extremamente importante. Pensar no que eram os Estados Unidos nessas questões, por exemplo, raciais, nos anos 60, de Mater Luther King, sobretudo no sul do país, e o que são hoje, 48 anos depois, com um presidente negro, mesmo que para os africanos ele não seja exatamente negro, é extraordinário. A primeira vez que fui aos Estados Unidos, nos anos 80, notei, sobretudo, nas publicidades, anúncios para negros. Eles estavam aparecendo e interessavam também como consumidores. Depois fui acompanhando e houve uma ascensão, hoje praticamente têm os mesmos direitos, mas com algumas restrições.<br />
Ouvi falar do Obama pela primeira vez em 2004 e pra mim não foi surpresa quando ele veio como possível candidato dos Democratas. Agora a eleição dele, mesmo pra África, é importante. A ironia é ele ser mestiço. Por enquanto a África está a fazer festa. Mas ela também tem minorias mestiças ou brancas, que são vistas de lado pela maioria negra hoje. Há um reverso da medalha do tempo colonial. E existe uma ironia porque o homem mais poderoso do mundo é mulato.</p>
<p><strong>CF &#8211; A nova civilização que você pensa neste último romance ironicamente também é mestiça.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Exatamente. E gosto sempre de lembrar que Jesus Cristo era mestiço. Essa história de Jesus loiro de olhos azuis é invenção da Idade Média européia. É evidente que os hebreus daquela época eram mestiços, com cabelos ondulados, nariz achatado e cor castanha. Tudo comprovado cientificamente. Isso é bom pra desmistificar. Porque só há uma raça, a raça humana, e acabou.</p>
<p><strong>CF &#8211; No Brasil discute-se bastante essa questão, mas há uma separação ainda muito grande.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O Brasil é muito ambíguo. Uma questão complicada é, por exemplo, pensar em um Movimento Negro seguindo os padrões do Movimento Negro americano. Porque a segregação nos Estados Unidos foi feita de maneira diferente. O Brasil tem que encontrar o seu caminho.<br />
Uma vez um representante do Movimento Negro no Brasil me chamou para falar aos &#8220;irmãos negros&#8221;, nos anos 80, do período de luta pela independência angolana e me disse, nas palavras dele, que &#8220;o nosso inimigo é o branco&#8221;. Eu lembrei a ele que a nossa luta nunca foi contra o branco, mas contra o colonizador, contra o sistema, o que é diferente. E no sistema colonizador havia também muitos negros. Uma grande parte do exército português era de negros. Em toda a história de Angola sempre houve uma parte de negros a lutarem a favor dos portugueses. Nossa luta era de libertação, libertação de todos. E outra coisa é a luta de classes.</p>
<p>Enfim, eles não gostaram muito da minha conversa, mas acho que no Brasil se mistura muito as coisas. Eu acho que o Movimento Negro americano teve um papel negativo aqui, porque começaram a tratar aqui de uma forma de segregação que não eram as próprias. A luta assim fica mais difícil. Mas com as novas políticas acho que as coisas estão melhorando.</p>
<p>______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Tony Tcheka e a poesia da Guiné-Bissau</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 17:17:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/tonytcheka-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />No último dia da Fliporto conversei um pouco com o escritor Tony Tcheka, um dos grandes nomes da literatura guineense. Tony Tcheka, de 56 anos, é um dos poetas que participa da primeira publicação de poesia na Guiné-Bissau, em 1976, em uma antologia intitulada &#8220;Mantenhas para quem luta&#8221;. Junto com mais 12 poetas, chamados por Mário Pinto de Andrade de &#8220;meninos da hora de Pindjiguiti&#8221;, faz naquele momento uma poesia engajada, ligada à independência da Guiné-Bissau em 1975. Foi um dos fundadores da UNAE &#8211; União dos Escritores da Guiné-Bissau, também é jornalista e agitador cultural.</p>
<p>Tony Tcheka me fala do problema da falta de política editorial no seu país. &#8220;Em uma sociedade onde tudo é prioritário, a cultura fica na segunda margem&#8221;, diz ele. Daí a reunião de escritores em antologias. Ele participa de várias, entre elas <em>Momentos primeiros de construção</em> (1978),<em> Poesia moderna guineense, Eco do Pranto </em>(1992)<em>, Barkafon di Poesia na Kriol </em>(1996)<em>. Eco do pranto </em>traz uma temática sobre a criança, ele conta. Já a <em>Poesia moderna guineense</em> marca um outro período, de ruptura com o sistema. Surgem grandes nomes depois da década de 80, como Abdulai Silá, Odete Semedo e Jorge Cabral. Tony Tcheka publica seu primeiro livro individual em 1996, <em>Noites de insónia na terra adormecida</em>, pelo INEP, Instituto Nacional de Estudo e Pesquisa, na coleção <em>Kebur</em>.</p>
<p>Os escritores enfrentam os desafios da publicação e outras barreiras, mas na Guiné-Bissau a cultura da oralidade é uma aliada e &#8220;o escritor escreve e publica todos os dias&#8221;, conta Tony. Há lá o djunbai, espaço de encontro, acrescenta. Embaixo de um baobá, diferentes pessoas se reúnem constantemente para contar estórias, ler versos, cantar e sorrir, em um convívio amistoso.</p>
<p><span id="more-114"></span></p>
<p>Por fim, preciso ressaltar o trabalho da professora Moema Parente Augel, que esteve presente no evento e me apresentou ao Tony Tcheka. Ela se dedica há muito tempo ao estudo das literaturas guineense e afro-brasileira, e, na ocasião, mais uma vez se mostrou empenhada na divulgação dessas literaturas. Para aqueles que começam a estudar a literatura da Guiné-Bissau, um bom texto da professora Moema é &#8220;Sol na Iardi &#8211; perspectivas otimistas para a literatura guineense&#8221;, disponível na internet: http://www.didinho.org/estudosepesquisas.html</p>
<p>Deixo um poema de Tony Tcheka, do seu mais recente livro <em>Guiné sabura que dói</em> (2008), pela UNEAS, União Nacional dos Escritores e Artistas de S. Tomé e Príncipe. Veja outros poemas também na seção Sararau.</p>
<p><strong>Globalizado excluído</strong></p>
<p>A<br />
Carta<br />
de<br />
alforria<br />
que<br />
floriu<br />
no templo<br />
das proclamações<br />
decretos<br />
e<br />
convênios<br />
libertadores<br />
murchou<br />
desandou<br />
como<br />
a<br />
flor<br />
sahel</p>
<p>amnésica<br />
ficou<br />
sem<br />
os<br />
pergaminhos</p>
<p>globalizada</p>
<p>nos<br />
grilhões<br />
dos<br />
novos<br />
navios<br />
negreiros<br />
ressurge<br />
sob formas<br />
manhetas<br />
manietada pelas<br />
fronteiras farpadas<br />
impostas por patriarcas ilusionistas<br />
batutadores da escrita família<br />
do comércio proteccionista de exclu$ão &amp;<br />
companhia Lda.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Paulina Chiziane e a metáfora do véu</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Nov 2008 13:45:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular &#8220;Quem conta um conto aumenta um ponto&#8221;. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img style="float:left" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/paulina-207x300.jpg" alt="" hspace="10" vspace="10" width="186" height="270" />Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular &#8220;Quem conta um conto aumenta um ponto&#8221;. A questão estava exatamente em &#8220;que ponto acrescentar depois de tudo o que inúmeros outros escritores já fizeram&#8221;. E pensa: &#8220;Primeiro preciso conhecer o que se conta. E o que se conta foi construído basicamente pelo masculino. Depois preciso tirar o véu. Eu tiro o véu quando faço as minhas leituras. Por fim vou ficar com a minha tradição oral.&#8221;</p>
<p>Tirar o véu é uma prática constantemente necessária, afirma Paulina. Desde o primeiro acesso que tem da escrita, com a Bíblia sagrada, percebe que havia algo de errado quando lia o livro de Gênesis e encontrava ali um Adão negro e várias Evas. Faltava algo nessa escrita feita por homens, que &#8220;quando enumeram a mulher, falam do seu ponto de vista&#8221;, muitas vezes apresentando-a como um corpo-objeto. Em tom provocativo-reflexivo, Paulina lança uma pergunta aos integrantes da mesa, todos homens: &#8220;Que direito têm os artistas de me despirem em literatura?&#8221;</p>
<p><span id="more-95"></span></p>
<p>Alguns apelaram para o romantismo como saída, mas o fato é que Chiziane não faz um discurso feminista rotulado, para ela &#8220;o que está em causa é a desigualdade das relações entre as pessoas&#8221;.  Por isso, desde o seu primeiro livro, <em>Balada de amor ao vento (1990)</em>, problematiza um cotidiano africano cheio de tradições e relações injustas entre homens e mulheres.</p>
<p>As próprias mulheres sustentam muitos preconceitos, lembra Paulina. Como exemplo, &#8220;a letra da canção da mulher moçambicana, escrita por mulheres, mas que coloca a mulher em condição subalterna&#8221;.  Daí a necessidade de &#8220;tirar o véu&#8221;, como reforça a todo instante.</p>
<p> </p>
<p>Um trecho de <em>Niketche: uma história de poligamia (2002)</em>. Com ele, Paulina Chiziane ganha o prêmio José Craveirinha, em 2003. É o único romance da escritora até agora publicado no Brasil, em 2004, pela Companhia das Letras. Para Paulina, o sucesso de <em>Niketche</em> talvez esteja exatamente na &#8220;descoberta do feminino&#8221;.</p>
<p><em>&#8220;Meu Deus, ajuda-me a descobrir a alma e a força do meu rio. Para fazer as águas correr, os moinhos girar, a natureza vibrar. Para trazer ao meu leito a luz de todas as estrelas do firmamento e deixar o arco-íris mergulhar-me em toda a sua imensidão.<br />
</em><em>Sou um rio. Os rios contornam todos os obstáculos. Quero libertar a raiva de todos os anos de silêncio. Quero explodir com o vento e trazer de volta o fogo para o meu leito, hoje quero existir.&#8221;</em></p>
<p>_________<br />
<span style="font-size:10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Conceição Evaristo e seus muitos movimentos</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Nov 2008 00:19:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Dicas Culturais]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Afro-brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[A escritora Conceição Evaristo lançou dia 30 de outubro seu mais recente livro Poemas da recordação e outros movimentos, na livraria Kitabu, no Rio de Janeiro.
Conceição desde 1990 &#8211; quando publicou pela primeira vez nos Cadernos Negros, antologia que há 30 anos divulga trabalhos de escritores afro-brasileiros &#8211; vem marcando sua presença na cena literária [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img class="size-medium wp-image-40" title="img_1528" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1528-225x300.jpg" alt="" hspace="10" vspace="10" width="225" height="300" align="right" />A escritora Conceição Evaristo lançou dia 30 de outubro seu mais recente livro <strong>Poemas da recordação e outros movimentos</strong>, na livraria Kitabu, no Rio de Janeiro.</p>
<p>Conceição desde 1990 &#8211; quando publicou pela primeira vez nos Cadernos Negros, antologia que há 30 anos divulga trabalhos de escritores afro-brasileiros &#8211; vem marcando sua presença na cena literária brasileira. Com movimentos delicados, mas também fortes e certeiros, enfrentou inúmeros desafios para levar sua voz a público e fazer ecoar vozes de afro-descendentes em luta por relações mais justas e igualitárias. Na noite da última quinta-feira, a poeta lembrou o trabalho de resistência de editoras como a Mazza e a Nandyala, com a publicação de literatura e cultura afro-brasileiras, e de livrarias como a Kitabu, especializada em livros sobre as questões africanas. Quando publicou <em>Ponciá Vicêncio</em>, conta que foi pessoalmente à livraria da Travessa e deixou lá alguns exemplares que sequer foram catalogados. Hoje a obra está traduzida para o inglês, é objeto de estudo em muitas academias e está na lista de leituras obrigatórias para vestibulares de várias universidades brasileiras.</p>
<p>Os <em>Poemas da recordação</em> da mineira com nome da santa que sincretiza com Oxum trazem movimentos de águas novas e antigas. Desde aquelas que trouxeram para o Brasil alguns séculos atrás mulheres e homens africanos, às que fortalecem e geram vida, como as águas de Ainá, sua filha. São ecos de uma memória afluente, que desagua em rios caudalosos, cheios de experiências de amor e de dor.</p>
<p><span id="more-39"></span></p>
<p>Deixo alguns poemas aqui e outros na seção Sararau, para que o gosto fique na boca e aumente o desejo de conhecer melhor a obra da encantadora Conceição Evaristo.</p>
<p><strong>Recordar é preciso</strong></p>
<p>O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos<br />
A memória bravia lança o leme:<br />
Recordar é preciso.<br />
O movimento vaivém nas águas-lembranças<br />
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,<br />
salgando-me o rosto e o gosto.<br />
Sou eternamente náufraga,<br />
mas os fundos oceanos não me amedrontam<br />
e nem me imobilizam.<br />
Uma paixão profunda é a bóia que me emerge.<br />
Sei que o mistério subsiste além das águas.</p>
<p><strong>Eu-Mulher</strong></p>
<p>Uma gota de leite<br />
me escorre entre os seios.<br />
Uma mancha de sangue<br />
me enfeita entre as pernas.<br />
Meia palavra mordida<br />
me foge da boca.<br />
Vagos desejos insinuam esperanças.</p>
<p>Eu-mulher em rios vermelhos<br />
inauguro a vida.<br />
Em baixa voz<br />
violento os tímpanos do mundo.<br />
Antevejo.<br />
Antecipo.<br />
Antes-vivo</p>
<p>Antes – agora – o que há de vir.<br />
Eu fêmea-matriz.<br />
Eu força-motriz.<br />
Eu-mulher<br />
abrigo da semente<br />
moto-contínuo<br />
do mundo.</p>
<p>Conceição Evaristo. <em>Poemas da recordação e outros movimentos</em>. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.</p>
<p>Para comprar o livro:<br />
no Rio de Janeiro – Kitabu Livraria (Rua Joaquim Silva, 17, Lapa; <a href="http://kitabulivraria.wordpress.com">http://kitabulivraria.wordpress.com</a> )<br />
em Belo Horizonte &#8211; Nandyala Livraria (Av. do Contorno, 6000, Savassi; <a href="mailto:nandyala@nandyalalivros.com.br">nandyala@nandyalalivros.com.br</a> )</p>
<p>_________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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