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	<title>Sararau &#187; Entrevistas</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>A poesia de Ondjaki em entrevista</title>
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		<pubDate>Mon, 16 Mar 2009 02:40:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Entrevistas]]></category>
		<category><![CDATA[Estórias e Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>
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		<description><![CDATA[&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; &#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>&#8220;Tristeza não tem fim, felicidade sim&#8221; </em>&#8230; Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os <em>Materiais.. </em>de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. <em>Actu sanguíneu </em>(2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda, também seu primeiro livro publicado, e <em>Há prendisajens com o xão &#8211; O segredo húmido da lesma &amp; outras descoisas </em>(2002), pela Caminho, são os outros dois. É importante lembrar que Ondjaki, aos 31 anos, já tem doze obras publicadas, entre elas as premiadas <em>Bom dia Camaradas </em>(2001), <em>E se amanhã o medo </em>(2005) e <em>Os da minha rua </em>(2007). Para saber mais sobre suas produções, visite <a href="http://www.kazukuta.com/">www.kazukuta.com</a></p>
<p><img class="size-full wp-image-432 alignleft" title="IDE28001" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/ondjaki1.jpg" alt="" width="200" height="250" />Em <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas </em>(2009), encontramos um trabalho que mistura gêneros e propõe um <em>desaprender </em>com as palavras. Convocando outros poetas para olharem juntos o chão do mundo e do próprio sujeito, Ondjaki constrói uma obra lírica de muito boa qualidade.  O poema &#8220;Corpo&#8221; enuncia: <em>&#8220;em cima do que foi olhado pela poesia/ estendo o meu luando/ empresto meu corpo ao chão/ e adormeço.&#8221; </em></p>
<p>Para melhor apresentar Ondjaki e sua nova obra aqui no Sararau, entrei em contato com o escritor e pedi uma entrevista, gentilmente concedida via email.  Conversamos um pouco sobre poesia, os <em>Materiais.. </em>e a vida. Para as perguntas, busquei inspiração também em Clarice Lispector e seu livro &#8220;De corpo inteiro&#8221;, com entrevistas a grandes artistas. &#8220;O que é o amor? Qual é a coisa mais importante do mundo? Vale a pena escrever? Você tem medo?..&#8221; são algumas das questões que eu e Clarice fazemos a Ondjaki. Ele responde a todas essas e muito mais.. Leia na íntegra:</p>
<p><strong>CF -</strong> <strong>O que é poesia para você</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é a poesia que eu leio, que eu gosto de ler, não a que eu faço. A que eu faço fica demasiado pouco-boa, demasiado estranha, para vir a senti-la como poesia. Pode ser &#8211; e oxalá que assim seja &#8211; que um dia isso se altere. A poesia para mim é a frase que emociona. Também posso olhar para o seu requinte, o seu bom gosto, a sua filosofia, a sua mensagem, mas sobretudo gosto que me agrade, que me acrescente, que me arrebate. Que me sonhe. Que me deixe sonhar.<br />
Sabe, não posso falar em termos universais, nem isto que vou dizer é uma consideração muito preparada, mas acho que Manoel de Barros é poesia. Quase todas as suas frases são poesia. Não me incomoda a tautologia, nem rítmica nem ao nível de conteúdos, pelo contrário: acho que ele sabe o que está a fazer (por um lado); e por outro, acho que ele nem sabe bem o que tem estado a fazer, a dizer, e é por isso que ele me parece um poeta-mesmo. Um poeta verdadeiro. Mas houve frases do músico Adoniran Barbosa, e até momentos cantados, que também me cheiram a poesia, isto para falar de brasileiros. A poesia do angolano Ruy Duarte de Carvalho, embora muito mais elaborada em termos linguísticos, numa busca que é interna mas que é também antropológica, essa poesia é muito boa, muito profunda. Não tenho a mínima dúvida, quando olho a poesia do Ruy, que aquilo é poesia. E quando não tenho dúvidas, quando a sinto tão limpa, importante, profunda, seca, séria, divertida, ternurenta, forte, intensa, então não me restam dúvidas, estou perante um poema&#8230;<br />
A poesia também está nos olhares. Sobretudo nos olhares dos velhos e das crianças. Há algo de muito semelhante na inocência do olhar de uma criança que sempre me lembra a candura do olhar dos velhos. Como se ambos seres conseguissem verdadeiramente sorrir pelo lado menos complicado da vida, a criança porque ainda não teve que passar por isso, o velho porque já não se quer preocupar com isso. Então brota a inocência. O mesmo nas mãos: as mãos das crianças e dos velhos são poemas abertos, fáceis de ler, fáceis de encontrar. Nem sempre fáceis de interpretar&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Vinícius de Moraes, em <em>Samba da bênção, </em>cantou que &#8220;pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ se não não se faz um samba não&#8221;. Você diria o mesmo da poesia</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Há qualquer coisa de nostálgico no interior, no útero, do poema&#8230; Há qualquer coisa de humano, e cá dentro do que é humano, muitas vezes, o sangue se move pela força do que não se explica. E às vezes o que não se explica, embora possa não ser totalmente triste, muitas vezes é um pouco melancólico&#8230;<br />
Na poesia de Manoel de Barros (é interessante) eu não encontro tristeza. Apenas nostalgia, saudade do berço quotidiano da infância, saudades de uma chão que lhe fugiu dos pés e que agora ele invoca para se devolver à vida-que-já-foi. Isso é bonito. Mas não é triste.<br />
Em Fernando Pessoa acho que há tristeza. É uma tristeza tão grande e profunda que não chega a ser evidente. É a tristeza do poeta que mistura a saudade do passado com a do futuro, só que em Pessoa, acho eu, isso foi mais longe: Pessoa tinha saudades da pessoa, das pessoas, que ele ainda não tinha sido&#8230;. Isso intensificou a sua poesia ao ponto de ancorar o que fossem os sentimentos humanos que ele usava. Com &#8220;ancorar&#8221; quis dizer &#8220;transformar em âncora&#8221;, e âncora contraditória: uma âncora que navegasse. Pessoa navegava em si e nos outros, nos mares e nos tempos, tanto que teve que se desdobrar para melhor se expressar&#8230;<br />
Talvez sim&#8230; No fundo mesmo, haja um bocadinho de tristeza em cada poeta&#8230;</p>
<p style="padding-left: 60px;"><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/03/capa-ondjaki.jpg" alt="" width="90" height="139" />tinha aprendido que era muito importante<br />
criar desobjectos.</strong><br />
<strong>certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar</strong><br />
<strong>o cinzento. não munido de nenhum</strong><br />
<strong>artefacto alegre, inventei um espanador de</strong><br />
<strong>tristezas.</strong><br />
<strong>era de difícil manejo &#8211; mas funcionava.</strong><br />
<strong> </strong><em>In: Materiais.., p. 7</em></p>
<p> </p>
<p><strong>CF &#8211; Como se processa em você a criação</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Acho que é quase sempre através de esperas. Esperar. Ir sentindo, através da vida, das leituras, das sensações, e depois esperar que a escrita, isto é, o eco desses sentires, apareça em formato literário. É por isso que às vezes a boa estória aparece sob o formato de conto, ou poema, ou livro mais extenso. Mas é com as esperas que funciono melhor, e depois juntar a isso as músicas que eu já sei que provocam emoções boas para escrever. E o milagre vem&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quando é que você começou a escrever</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter começado com os meus cadernos, não eram diários porque não escrevi todos os dias, mas eram cadernos de coisas sérias e internas, de queixumes e rotinas, e depois começaram a aparecer poemas. Também alguns contos. Deve ter sido a partir de 1990&#8230; (Mas isso nunca se sabe, a pessoa começa a escrever quando começa a sentir um mundo de um jeito diferente &#8211; pressentindo coisas pequenas que não sabe explicar, que não sabe dizer&#8230; E isso um dia irrompe, de dentro para fora, e uma urgência nos faz descobrir o caminho. Essa urgência é a escrita&#8230; talvez.)</p>
<p><span id="more-370"></span></p>
<p><strong>CF &#8211; A crítica (literária) constrói?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Costumo levar a sério a crítica que me diz algo que seja sério. Que eu note (ou pense) que veio de leituras e comparações sérias. Se não, nem me afecta. Nem a boa nem a má. Desconfio dos elogios exagerados, levo-os pouco a sério. E tenho uma tendência para valorizar o que é a crítica mais negativa, também porque me parece mais séria, mais sentida. Banalizo um pouco os elogios, enfim, ainda que sejam muito sinceros, não acho que venham acrescentar grande coisa.</p>
<p><strong>CF &#8211; Qual de seus livros você mais gosta? Por quê?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não há um. Realmente não há. Talvez um dia, não sei. Tenho um carinho muito especial pelo &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, foi um livro escrito sem tempo nem pensamento, não tive muito tempo para o preparar, tudo nele é instinto ou memória. E entreguei-o rapidamente, não fiz o longo e habitual (agora é habitual) trabalho de revisão de que tanto gosto. E é sobre a minha infância, sobre a minha Luanda e os meus camaradas professores cubanos. Sinto que tenho por ele um carinho muito especial, sendo que é também o meu primeiro romance.<br />
Acho que o outro seria o &#8220;Quantas madrugadas tem a noite&#8221;, até ao momento o livro que me deu mais trabalho, que foi um desafio literário muito intenso. Custou e foi bom ao mesmo tempo. Doía e dava prazer descobrir a estória, lutei muito para chegar ao ritmo certo de contar a estória, e a meio dela senti que estava certo. E isso é bom, não para dizer bem do livro, é para dizer que é uma sensação fantástica estar a escrever e saber que o ritmo faz parte da estória, e que eu estava muito confortável com aquele ritmo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Que livro de literatura você gostaria de ter escrito? Por quê</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Mas deve haver algum, ou alguns&#8230; Continuo a achar que o &#8220;Cem anos de solidão&#8221; é um grande livro. Acho mesmo. Hoje em dia já está na moda criticar esse livro, tudo bem, não me incomoda isso, continuo a ver nele alguma originalidade no formato, no ritmo e nos conteúdos. E se o comparo com outro livro (&#8220;O amor nos tempos de cólera&#8221;), do mesmo autor, escrito tantos anos depois, sinto a mesma coisa: são dois livros muito bons. E este segundo que refiro é mais difícil ainda, por ser uma estória simples, digamos assim, estruturalmente. É uma estória de amor e de espera, o que intensifica o amor dos personagens e o suspanse do leitor.<br />
Hoje já não, mas durante muito tempo, nessa altura do início dos anos noventa, julguei que queria escrever livros como &#8220;O solitário&#8221;, de Eugene Ionesco. Hoje já não, mas sinto que foi uma grande influência, voltei a esse livro muitas vezes.<br />
Mas não posso dizer, neste momento, que exista um livro concreto que eu gostaria de ter escrito&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Nesse seu novo livro de poesia, <em>Materiais para confecção de um espanador de tristezas</em>, você dialoga com inúmeros outros escritores: Luandino, Guimarães, Drummond, Adélia, Mia Couto, Borges, Arlindo Barbeitos, Manoel de Barros.. Quais influências você teve desses e de outros autores</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Essa coisa da influência é mesmo um mistério. Para mim. Há pessoas que pensam que se trata de um segredo, no sentido de que o escritor conhece o caminho da influência, e muitas vezes não o quer revelar&#8230; Não se trata disso. Este livro tem a ver com quotidianos, com sentires momentâneos, nem sequer se pode dizer que seja, como um todo, um livro temático. Bom, talvez haja &#8220;a noite&#8221; ou &#8220;a madrugada&#8221; como pano de fundo, não sei&#8230; Mas o que há de influência é algo maior e mais recuado, talvez: Luandino Vieira, Mia Couto, Manoel de Barros, sempre me passaram a ideia (assim eu os li) de que, com alguma imaginação e coerência, e sobretudo descobrindo a voz e um ritmo próprio, tudo era possível em literatura.<br />
Onde eu encontro a minha voz mais única, é nos livros &#8220;Bom dia Camaradas&#8221;, &#8220;Os da minha rua&#8221; e &#8220;AvóDezanove&#8230;&#8221;, aí há um ritmo que é mesmo meu, pelo menos é que sinto por agora. Nos outros livros, é uma espécie de linguagem literária, a que &#8220;me aconteceu&#8221;, digamos assim, para escrever essas estórias. Neste livro de poemas &#8220;materiais para&#8230;&#8221;, eu não sei como descrever ou explicar a linguagem. Nem deveria tentar, para quê explicar a poesia?<br />
A influência está mais nos livros do que nos autores. São os livros que nos emocionam e ensinam. E a vida também, em eco acordado do que sempre se vai sonhando&#8230; São as obras e os ritmos desses autores que me acompanham, e acompanham-me muito, muitas vezes, mesmo quando não escrevo.<br />
A literatura e as palavras já me salvaram muitas vezes do abismo da tristeza.</p>
<p><strong>CF &#8211; O chão vibrante da poesia de Manoel de Barros (também o de Mia, o de Guimarães..), que já aparecia ressignificado em Há prendisajens com o xão (2002), volta a ser explorado, fuçado, por você e sua linguagem própria, carregada de tristezuras e de afeto. O que te atrai no chão</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>O que me atrai no chão deve ser a sua capacidade germinadora, no sentido não só da semente, mas também do sonho; e a sua dimensão de lugar aberto, que contém sem reter, que educa sem viciar, que te solta sem te abandonar. Assim entendo a palavra chão: lugar sagrado de criaturas humanas e outras, ponto de reencontro de sensações e sentimentos. Talvez por isso o chão seja a casa de tantos poetas, e dos pés descalços, e o lugar das sombras, e do pó das asas das borboletas, e o lugar onde com suor o camponês deixa a semente para vir a saber da colheita&#8230;<br />
O meu chão poético é esse, o da esteira (luando), o das crianças correndo, o da poeira de Luanda, o chão verde de esperar as chuvas e de autorizar a passagem e a cantoria das rãs. O que me atrai no chão é que tem tanto a ensinar à Humanidade..</p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>O INÍCIO </strong><strong>[1/7/02]</strong><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância<br />
perdido no tempo. escorreguei no tempo.<br />
nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes<br />
lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a<br />
aldeia de ynari];<br />
adormeci na aldeia.<br />
ouvi um barulho &#8211; era a lesma a sorrir.<br />
o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que<br />
escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele<br />
coleccionava no quarto ou no coração das mãos.<br />
abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;">In: <em>Materiais.., </em>p. 13.</p>
<p><strong>CF &#8211; Quantas estórias tem cada poema seu</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei&#8230; Nem sempre sabemos. Nem sempre sei. Há poeminhas simples e poemas cheios de segredos&#8230; Há de tudo. E há também as estórias que os outros vão sentir ou inventar ao ler o poema&#8230; A beleza é essa, a extensão do labirinto sensorial, depois da criação&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Quanto da sua poesia está nas suas estórias? (Me lembro aqui do último conto de Os da minha rua, p. exemplo. as lesmas do seu chão estão lá. a serem olhadas. Há um lirismo especial nas suas narrativas.)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Tudo na vida são vice versas, vice versos, vide versos&#8230; Brincriações, como diria o camarada Mia Couto. A pessoa é a mesma, os mundos é que se desdobram&#8230; Quanto mais tempo passe, melhor se verá o labirinto. E eu escrevo muito com coisas e pessoas de verdade, tiradas da minha vida afectiva e familiar, os meus amigos, as minhas ruas, as minhas luandas, e mesmo o que invento vem cheio de sentimentos e sensações que vi, vivi, olhei para recontar&#8230; é normal que o labirinto se vá revelando aos poucos.</p>
<p><strong>CF &#8211; Estão nos seus versos também, o tempo inteiro, Luanda, a Huíla, o Lubango, Benguela.. A poesia te ajuda a apalpá-los?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>A poesia me ajuda a combater as saudades. A prosa também. É verdade que invoco lugares e pessoas para não estar sempre longe deles, porque muitas vezes estou fisicamente longe de algumas dessas referências afectivas&#8230; A poesia me ajuda a sonhá-los mais perto&#8230;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>MANIPULAR A GRANDE ARDÓSIA </strong><strong>[9/8/02]</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><strong>quando olhei o céu do lubango inundado de estrelas lindas,<br />
</strong><strong>o meu coração lembrou joão vêncio, suas estrelas<br />
</strong><strong>amorosas. todo um makulusu literário me inundou as<br />
</strong><strong>veias. imaginei um desenho para o luandino:<br />
</strong><strong>tropeçando entre as estrelas, dois compadres se abraçavam<br />
</strong><strong>em bebedeira: mais-velho e joão vêncio, o triste e o melancólico,<br />
</strong><strong>apertavam a noite nesse abraço [a imaginária imagem<br />
</strong><strong>era do foro do senhor chaplin].<br />
</strong><strong>manejando a ardósia do universo, tudo poderia ser alterado.<br />
</strong><strong>por exemplo:<br />
</strong><strong>fazer o joão vêncio pontapear uma estrela apagada até ela<br />
</strong><strong>se acender de novo; embebedar de alegria sulista o maisvelho<br />
</strong><strong>até abrandar as tristezas dele.<br />
</strong><strong>[...]<br />
</strong><strong>se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à<br />
</strong><strong>noite<br />
</strong><strong>e terminava este poema assim: etestrelas&#8230;!</strong></p>
<p style="padding-left: 90px;"><em>In: <em>Materiais.., </em>p. 24</em></p>
<p><strong>CF &#8211; O que é que você desejaria para Angola?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>O desenvolvimento, obviamente. Foi para isso que o povo angolano lutou pela independência nacional, e é o objectivo social de todos os povos. A igualdade possível, a diminuição da pobreza extremada, porque algum pobreza sempre existirá, existem pobres na Suiça e na Suécia, no Japão, etc. Mas aqui vivemos ainda uma dimensão de pobreza extremada que é preciso extinguir urgentemente.<br />
O que eu mais desejo para Angola é que um dia venha a ter lideres que possam compreender e dar total prioridade à resolução dos problemas da maioria das pessoas. E em Angola a maioria das pessoas tem problemas básicos: nutrição, alimentação, ensino e saúde.<br />
Estou convencido que as principais bases de uma revolução, e precisamos sempre de revoluções (ainda que sejam pacificas), se conseguem a partir do desejo de educar a população. Educando, alimentando, tornando o povo livre para pensar e decidir. Obviamente que os políticos raramente querem isso&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Você escreve de manhã, de tarde ou de noite?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Sobretudo escrevo de noite. Espero os seres e vozes que habitam as madrugadas, os barulhos pequenos, e as ambiências nocturnas que me trazem ou acalmia ou inquietude&#8230; É de noite que pratico melhor o meu desassossego&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, a noite é o tempo da poesia? (Lendo os Materiais.., me sinto no meio da noite, mesmo que esteja lendo de dia.. &#8220;A noite seres&#8221; e &#8220;Imitação da madrugada&#8221; &#8211; os dois momentos da obra &#8211; parecem convocar o leitor para olhar o chão que está dentro, mais fechado, por isso mais noturno..)<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Devo ter escrito muita coisa de noite, sim&#8230; Também me acontece, raramente, sentir a poesia em outras horas&#8230; Este livro é muito nocturno sim, cheio de ecos que me chegavam de madrugada. Aliás adoro essa palavra que parece estar sempre lânguida e deitada&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Um dos últimos poemas do livro traz velhos e novos sentidos para &#8220;Essa palavra margem&#8221;. Bem, no famoso conto de Guimarães Rosa, o medo do filho em assumir o lugar do pai na canoa é sem dúvida uma das imagens mais significativas. Eu pergunto: você tem medo da terceira margem</strong>?<br />
<strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não tenho medo&#8230; Também, na realidade, (e no sonho&#8230;) ainda não conheço bem essa que seja ou virá a ser a minha terceira margem, mas não tenho medo, tenho curiosidade&#8230; Uso abrir os livros de Guimarães (ou &#8220;Man Guimas&#8221;, como diria um certo Adolfo Dido&#8230;) como abro os livros de Clarice, em jeito de por-acaso, em jeito de espera, para respirar ou descobrir outras respirações&#8230; Adoro a palavra margem, prima-como-irmã da palavra varanda, ou maresia&#8230; E acho que gosto de espreitar as margens das pessoas e dos livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Fora sua vocação indiscutível, diga-me: vale a pena escrever?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Não sei se vale a pena escrever. Vale a pena sonhar. Vale a pena escrever um livro no qual se crê. Vale a pena ser honesto com uma estória, isto é, deixar as palavras sangrarem o corpo da imaginação do escritor ao sabor dos ventos internos depois da imaginação falada para ser pensada como pensamento e ritmo de escrever o que às vezes foi sonhado para ser falado mas que vira palavra de parágrafo estético de pedaços da vida também do escritor e dos seus personagens&#8230;<br />
Vale a pena escrever a vida em pedaços de livros&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; Ondjaki, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>São as pessoas. Seguramente. Elas englobam a amizade, o companheirismo, a ternura e os momentos vivos e humanos que nunca saberemos explicar nem descrever. As pessoas é que são o mundo, bichinhos e poemas incluídos nesse mundo&#8230; As pessoas são a minha bússola, e esse é o meu único medo de morrer no dia que isso vier a acontecer: não poder mais estar com as pessoas, e abraçá-las, e saber delas, e rir com elas&#8230;<br />
As pessoas. As ideias, as comunicações inventadas a fingir que sabemos mostrar aos outros que gostamos deles. As pessoas, partículas bonitas, humanas, movediças e calorosas, do que usamos chamar mundo&#8230;</p>
<p><strong>CF &#8211; O que é o amor? Qualquer tipo de amor.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Talvez o amor seja sabermos estar&#8230; Assim como saber estar é saber dar-se, e saber buscar o que no outro nos faz crescer. Companhia. Respeito. Sexo. Ousadia. Rebeldia. Amizade. Companhia. Talvez o amor seja sabermos compreender o outro para voltarmos a nós em paz.</p>
<p><strong>CF &#8211; Diga alguma coisa que me surpreenda.<br />
</strong><strong>Ondjaki &#8211; </strong>Esta questão é muito difícil. Não sei o que dizer&#8230; Portanto vou silenciar-me por aqui&#8230;</p>
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		<title>Entrevista com Pepetela</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2008/11/entrevista-com-pepetela/</link>
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		<pubDate>Sun, 16 Nov 2008 18:21:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro O quase fim do mundo, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img style="float: right; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/pepeentrevista-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" />No fim de tarde do dia 8 de novembro, em Porto de Galinhas, conversei com Pepetela sobre seu último livro <em>O quase fim do mundo</em>, lançado esse ano pela editora Dom Quixote. Quando comecei a ler o romance, não consegui mais parar. É leitura agradável e reflexiva, que mostra a força da narrativa de Pepetela. Nosso encontro em Porto foi outro prazer. Falamos um pouco de tudo: literatura, cinema, política, temas contemporâneos etc. </strong></p>
<p><strong>Veja aqui a entrevista.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>CF &#8211; O que o inspirou a dar a sua versão para o tema &#8220;fim do mundo&#8221;?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>A idéia surgiu de uma conversa com minha filha há muito tempo, quando aconteceu o atentado no metrô de Tóquio, com gás sarin, na década de 90. Isso é muito comum em mim. Tenho uma idéia e penso: &#8220;um dia vou escrever sobre isso&#8221;. Anoto várias idéias, algumas se perdem e outras voltam, mesmo muito tempo depois, quando acho que está na hora de escrever. Aconteceu com vários outros romances, <em>Lueji</em>, <em>A Gloriosa Família</em>, <em>Parábola do Cágado Velho</em>, <em>Jaime Bunda</em>, em parte com <em>A Geração da Utopia</em>.<br />
Em <em>O quase fim do mundo</em> o importante foi tentar imaginar um universo em que há pouco de tudo; há mais do vegetal e do mineral, mas do animal muito pouco. Também tive logo a idéia de que não poderia ser em Angola. É um tema universal e a história tinha que acontecer em algum sítio com um significado outro. Foi aí que cheguei à região dos Grandes Lagos, que é o paraíso na terra, mas é o inferno em África. Há quarenta anos, pelo menos, estão a matar uns aos outros estupidamente e hoje em dia já não se sabe muito bem porque se está a matar. Recomeçou agora a guerra na parte oriental do Kivu*.<br />
Enfim, a idéia é: na parte mais desgraçada do continente mais desgraçado, que corresponde ao sítio onde há os vestígios humanos mais antigos, ou seja, onde começou a humanidade, o mundo vai recomeçar.<br />
*Lago que separa Ruanda da República Democrática do Congo</p>
<p><strong>CF &#8211; Calpe, a cidade imaginária que está em outros romances, aparece em <em>O quase fim do mundo </em>como o único lugar em que há sobreviventes de uma hecatombe. Por que em Calpe?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Calpe aparece primeiro em <em>Muana Puó</em> e é um lugar do sonho. Já em <em>O cão e os calus</em> é a cidade do autor. Aparece também em <em>A parábola do cágado velho</em>, e em cada um dos livros ela é diferente. Nesse último romance ela pode ser até mais parecida com Luanda, mas tive o cuidado de colocá-la rodeada de montanhas, o que não há em Luanda.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas ela é aqui também o lugar da utopia e do sonho, não é? Porque você está contando a história de um &#8220;quase&#8221; fim do mundo, de um novo começo exatamente em Calpe.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Eu uso Calpe para fazer uma ligação com outros textos e para trazer a idéia do recomeço. Em um determinado momento a personagem somali fala que a humanidade provavelmente já teve outros recomeços. E não há novidade nisso. Há inúmeros fenômenos que aconteceram e ainda não há explicação, como as figuras gigantes nos Andes que só podem ser vistas do alto, ou o calendário solar em pedra construído pelos incas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Além dos dados históricos, você busca inspiração no cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Certamente eu tenho uma influência do cinema, sobretudo do cinema americano. E aí me refiro ao filme de ação. Entrar logo na ação foi algo que aprendi com o cinema, não com a literatura. É a minha preocupação: agarrar logo o leitor.</p>
<p><span id="more-145"></span></p>
<p><strong><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/capa-livro-pepetela.jpg" alt="" width="100" height="150" />CF &#8211; O romance faz isso realmente. E a linguagem é muito cinematográfica. O que pensa sobre uma adaptação da obra para o cinema?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O grande problema é que já não acredito. Já me propuseram vários roteiros de livros meus, mas nenhum avançou realmente. <em>Mayombe</em> teve um grande roteiro e foi um pouco mais à frente, mas parou com a falta de dinheiro.</p>
<p><strong>CF &#8211; A ironia e o riso estão presentes o tempo inteiro no romance. Você tem acentuado cada vez mais o tom irônico no seu discurso ficcional. No caso desse livro, os personagens em nenhum momento se desesperam com o &#8220;fim do mundo&#8221;.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É porque é um fim do mundo africano, contado por um africano, por isso tem que ter humor e ironia. O africano consegue rir de sua própria desgraça. Digo o africano por causa do livro, mas nesse aspecto ele é bem angolano. O cinema e a literatura já estão cheios de catástrofes, queria fazer algo não pessimista, mas no fundo também é.<br />
A ironia é a melhor forma para prender o leitor e por outro lado colocá-lo a pensar. <em>O cão e os caluandas </em>talvez seja meu livro mais satírico. Escrevi entre 1979 e 1980, na época eu estava no governo. Foi nessa altura que eu descobri a ironia como arma.<br />
Ou seja, a ironia é uma arma, é usada de forma consciente e tem a ver com uma maneira de contar angolana. Está lá nos contos tradicionais e na literatura angolana em geral, como, por exemplo, em Uanhenga Xitu, nos contos do João Melo, em Ondjaki etc.</p>
<p><strong>CF &#8211; Os sobreviventes precisam conviver e buscar alternativas. Em um &#8220;quase fim do mundo&#8221; a saída para renovar os ciclos é a reflexão e o diálogo?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Uma coisa importante foi recriar as relações sociais com os preconceitos que os personagens já traziam. Porque há algumas coisas que eu queria tratar, como a questão da luta de grupos, e o que ficou, por exemplo, das lutas em Ruanda, no Congo etc. No fundo é uma pergunta: que raio de pessoas são essas para começar uma humanidade? Ora, a nossa humanidade atual, como é que começa? Com um irmão a matar o outro, Caim a matar Abel. E essa nova humanidade começaria da mesma maneira como a outra acabou. Não há aí muita inovação, não é? Enfim, a idéia era jogar com isso tudo, mas de fato o que ficam são as relações entre as pessoas.</p>
<p><strong>CF &#8211; Entre os personagens estão alguns moradores de Calpe, uma somali, um etíope, uma americana e um sul-africano. Há um momento em que eles chegam à Europa de avião e vêem que tudo ali está morto. A Europa é de fato um &#8220;velho mundo&#8221; e dela só restariam os monumentos?  </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É isso, mas há uma tentativa de chamar a atenção para as relações atuais entre a Europa e os países que enviam pessoas para lá. É de fato um problema muito sério. E a ironia está também no fato da personagem Isis, a somali que é historiadora, estar grávida de um etíope e ficar na França. É uma piada com os franceses, porque o primeiro francês que nasce é na verdade africano.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mais uma vez são vários os narradores em um romance seu. Há quebras e mudanças de voz a todo instante. Dramatizar diferentes experiências é uma maneira melhor de olhar o mundo? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um escritor não pode limitar-se a sua própria visão. É preciso dar a visão dos personagens, porque cada um deles é um outro. Eu descobri isso já em <em>Mayombe</em>. Estava a escrever e de repente vem um personagem e diz &#8220;Eu, o narrador, sou Teoria&#8221; e conta um pouco da sua história pessoal. Depois outros personagens-narradores foram aparecendo, um pouco de maneira inconsciente. Eu escrevi <em>Mayombe </em>na guerrilha, a mão, e ele resistiu à chuva e outras coisas. Quando eu tive tempo de revê-lo, após a independência, fui passar a história para a máquina de escrever e pensei bastante se mantinha do mesmo jeito ou não, então vi que tinha que ser assim. No fundo é isso: dar a voz aos personagens.</p>
<p><strong>CF &#8211; Uma curiosidade: você tem preferência por algum personagem de <em>O quase fim do mundo</em>?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Talvez a Ísis, embora eu a tenha deixado na França. Vibrei quando ela apareceu. Ou talvez a Jude, a adolescente. As duas. Raramente seria um homem. As mulheres são mais fortes.</p>
<p><strong>CF &#8211; São elas as responsáveis por gerar vida também. E é interessante como o sexo e os desejos estão em cena no romance.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Um amigo leu antes de ser publicado e disse que o livro era muito erótico. Mas tem que ser, ora. Ele está a tratar da vida.</p>
<p><strong>CF &#8211; Mas diga: quais são os segredos dos chás preparados pelo curandeiro Riek, que a sua maneira vai ajudando a unir os casais?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Há um conhecimento profundo de plantas pelos curandeiros africanos, sobretudo no que diz respeito à reprodução e à fertilidade. Há plantas que são conhecidas como afrodisíacas, como o pau de cabinda.<br />
Mas há uma preocupação de passar um pouco do conhecimento tradicional africano, que muitas vezes é desprezado pela dita civilização. De vez em quando é preciso dar uma lição.</p>
<p><strong>CF &#8211; Há muitas lições na narrativa. Como o debate sobre a excisão do clitóris de meninas e mulheres em certas regiões da África e outras partes do mundo.    </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Aproveito a ficção para dar recados. A mutilação genital é um problema muito debatido. Há situações conflituosas que chegam ao tribunal, casos de crianças de 11 ou 12 anos que sofrem com a castração, a retirada do clitóris, e discute-se o direito do Estado em interferir naquela cultura, indo contra determinadas tradições. É muito complicada não só a conseqüência física mas também a causa da prática, que é a submissão da mulher. Porque ela não consegue libertar-se e buscar o seu próprio prazer e sua condição de vida.</p>
<p><strong>CF -  Em <em>A geração da utopia</em>, na última parte da obra, a crítica à propagação de determinadas seitas e igrejas já aparecia de maneira irônica e mordaz. Agora, ela é um dos focos no romance, até porque várias teorias sobre o fim do mundo vêm das religiões. A maneira como muitas dessas religiões se apresentam é de fato arma letal, representando uma barreira enorme para as consciências e para relações mais solidárias. É essa a sua preocupação?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Na altura de <em>A geração da utopia</em> o fenômeno da propagação de maneira desordenada de igrejas estava a começar em Angola e achei oportuno discutir a questão. Mas as seitas foram crescendo. Neste momento, é um problema grave. No mês passado, por exemplo, foram presos líderes de duas seitas religiosas não legalizadas que mantinham 40 crianças de 4 a 10 anos aprisionadas e as torturavam todos os dias porque diziam que elas eram feiticeiras. Esse é um fenômeno novo, em Angola não existia. O feiticeiro, diferente do curandeiro, faz o mal e é sempre um adulto; o feitiço está ligado a alguma ambição ou inveja, portanto, não tem nada a ver com as crianças. E são práticas que vêm do Congo, isso não existia em Angola. Agora fecharam as tais seitas e as crianças foram para um lar e estão sendo acompanhadas por psicólogos. Os traumas são enormes, estavam a ser torturadas e chegariam à morte. O pior é que este episódio aconteceu em Luanda, na capital.<br />
Também em <em>Os predadores </em>ponho essa questão, mas ninguém lê os livros. Enfim, me sinto na obrigação de discutir os problemas antes que se tornem graves, mas não adianta. Eles tornam-se graves e depois as pessoas descobrem o que está acontecendo.</p>
<p><strong>CF &#8211; Espero que a máquina do fim do mundo não funcione&#8230;</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>É verdade. Mas outro dia, à boa moda angolana, nós rimos com uma tragédia. No livro <em>O desejo de Kianda </em>acontece o desmoronamento de prédios na lagoa de Kinaxixe, ninguém sabe por que e tal. Esse ano o edifício da DNIC, a polícia de investigação criminal, caiu em Angola. Houve avisos de que o prédio estava mal. Duas horas antes do desabamento se ouviu um estrondo e uma parede abriu. Os polícias saíram e deixaram os presos, muitos morreram. Um drama, não se falava em outra coisa. José Luís Mendonça, dois ou três dias depois, diz: &#8220;Pepetela é feiticeiro&#8221;. Nós rimos, foi uma coincidência, é claro, mas o fato é que se espera muitas vezes pela desgraça.</p>
<p><strong>CF &#8211; <em>O quase fim do mundo </em>traz questões universais. Quais são suas expectativas quanto à divulgação do livro, inclusive a tradução e a circulação em outros países? </strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Em Portugal o livro já está na segunda edição, e isso é bom. Mais cedo ou mais tarde ele sairá aqui no Brasil. E por enquanto ninguém propôs tradução. Geralmente demora um pouco. Já nos Estados Unidos, acho mais difícil sair. Tentou-se com <em>O terrorista de Berkeley</em>, mas não aconteceu. Vamos ver.</p>
<p><strong>CF &#8211; Por falar nos Estados Unidos, como você está vendo a eleição de Barack Obama? Chegou a ver o texto de Manuel Rui sobre essa vitória?</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>Eu também quis escrever sobre as eleições, mas não deu tempo. Bem, Obama vai tomar posse em janeiro, provavelmente em fevereiro eu estou contra ele, já terei críticas a fazer, isso é normal. Mas acho que é um salto civilizacional extremamente importante. Pensar no que eram os Estados Unidos nessas questões, por exemplo, raciais, nos anos 60, de Mater Luther King, sobretudo no sul do país, e o que são hoje, 48 anos depois, com um presidente negro, mesmo que para os africanos ele não seja exatamente negro, é extraordinário. A primeira vez que fui aos Estados Unidos, nos anos 80, notei, sobretudo, nas publicidades, anúncios para negros. Eles estavam aparecendo e interessavam também como consumidores. Depois fui acompanhando e houve uma ascensão, hoje praticamente têm os mesmos direitos, mas com algumas restrições.<br />
Ouvi falar do Obama pela primeira vez em 2004 e pra mim não foi surpresa quando ele veio como possível candidato dos Democratas. Agora a eleição dele, mesmo pra África, é importante. A ironia é ele ser mestiço. Por enquanto a África está a fazer festa. Mas ela também tem minorias mestiças ou brancas, que são vistas de lado pela maioria negra hoje. Há um reverso da medalha do tempo colonial. E existe uma ironia porque o homem mais poderoso do mundo é mulato.</p>
<p><strong>CF &#8211; A nova civilização que você pensa neste último romance ironicamente também é mestiça.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong> Exatamente. E gosto sempre de lembrar que Jesus Cristo era mestiço. Essa história de Jesus loiro de olhos azuis é invenção da Idade Média européia. É evidente que os hebreus daquela época eram mestiços, com cabelos ondulados, nariz achatado e cor castanha. Tudo comprovado cientificamente. Isso é bom pra desmistificar. Porque só há uma raça, a raça humana, e acabou.</p>
<p><strong>CF &#8211; No Brasil discute-se bastante essa questão, mas há uma separação ainda muito grande.</strong></p>
<p><strong>Pepetela &#8211; </strong>O Brasil é muito ambíguo. Uma questão complicada é, por exemplo, pensar em um Movimento Negro seguindo os padrões do Movimento Negro americano. Porque a segregação nos Estados Unidos foi feita de maneira diferente. O Brasil tem que encontrar o seu caminho.<br />
Uma vez um representante do Movimento Negro no Brasil me chamou para falar aos &#8220;irmãos negros&#8221;, nos anos 80, do período de luta pela independência angolana e me disse, nas palavras dele, que &#8220;o nosso inimigo é o branco&#8221;. Eu lembrei a ele que a nossa luta nunca foi contra o branco, mas contra o colonizador, contra o sistema, o que é diferente. E no sistema colonizador havia também muitos negros. Uma grande parte do exército português era de negros. Em toda a história de Angola sempre houve uma parte de negros a lutarem a favor dos portugueses. Nossa luta era de libertação, libertação de todos. E outra coisa é a luta de classes.</p>
<p>Enfim, eles não gostaram muito da minha conversa, mas acho que no Brasil se mistura muito as coisas. Eu acho que o Movimento Negro americano teve um papel negativo aqui, porque começaram a tratar aqui de uma forma de segregação que não eram as próprias. A luta assim fica mais difícil. Mas com as novas políticas acho que as coisas estão melhorando.</p>
<p>______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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