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	<title>Sararau &#187; Ensaios em Trânsito</title>
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	<description>Encontros com a poesia e com as literaturas africanas</description>
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		<title>O peso de algumas palavras</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Apr 2009 00:35:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[Angola]]></category>

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		<description><![CDATA[(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)
Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de &#8220;Oração de Sapiência&#8221;, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)</strong></p>
<p>Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de &#8220;Oração de Sapiência&#8221;, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.</p>
<p>Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.</p>
<p>Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra <strong>engarrafamento </strong>ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou ocalor. O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada paraassaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Nãonego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa. A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana temreflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.</p>
<p><span id="more-408"></span></p>
<p>Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é <strong>crise</strong>. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente, embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros. Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável cerimónia.</p>
<p>Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver. Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente &#8220;O escritor e a crise&#8221;. Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise. E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que estaseria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a resolvê-la, apenas a sofrê-la.</p>
<p>Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo fundamental, único e de importância vital. Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências. De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto. Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro.</p>
<p>Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão. Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos. No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm portarefa relembrá-los.</p>
<p>No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que Angola é um país rico. Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta. Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país. A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado. Mas a crise veio paranos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar oprimeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar. Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dosnossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira. Além do mais, o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes. Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos. Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.</p>
<p>Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.</p>
<p>Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.</p>
<p>A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: <strong>ganância</strong>. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o &#8220;a&#8221;. Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações. Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.</p>
<p>Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem. Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia.</p>
<p>Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.</p>
<p>A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida. Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.</p>
<p>E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular: a palavra <strong>ética</strong>. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.</p>
<p>Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo. Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética. Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.</p>
<p>A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família. Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu. Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas. Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.</p>
<p>Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A <strong>universidade</strong>. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar.</p>
<p>Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor por excelência do desenvolvimento. Este é o espaço ideal para se reflectir e debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis. Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades. É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio. Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa. No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento. Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.</p>
<p>Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível. Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo. Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade.</p>
<p>Universalidade, universidade. Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade.</p>
<p><strong>Pepetela<br />
</strong>Luanda, 13 de Março de 2009</p>
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		<title>Obama, a &#8220;questão racial&#8221; e o esplendor do equívoco</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 15:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência Negra]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Inocência Mata 
(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no Semanário Angolense, Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)
&#8220;In no other country on Earth is my story even possible.&#8221;
&#8220;My presence on this stage is [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><span style="font-size:12px;">Por Inocência Mata </span></strong></p>
<p><strong><span style="font-size:11px;"><img style="float:right; margin:10px" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/conceicao_lima_e_inocencia_mata-278x300.jpg" alt="" width="167" height="180" />(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no <em>Semanário Angolense, </em>Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;In no other country on Earth is my story even possible.&#8221;<br />
&#8220;My presence on this stage is pretty unlikely.&#8221;<br />
(Barack Obama)</span></em></p>
<p>Ultimamente<strong> </strong>temos sido confrontados com uma série de textos &#8220;a propósito&#8221; de Barack Obama: artigos de opinião de africanos que decidem reflectir sobre a África com passagem pelos Estados Unidos. Exercício intelectual desafiante, mas que se responde aos propósitos da autoria, revela-se, em muitos casos, bastante temerário na sua mensagem. Ou até faccioso.</p>
<p>Uma das categorias mais resgatadas do caso Obama para discutir a realidade africana (em Angola ou em Moçambique por exemplo) é a questão da &#8220;raça&#8221;. Todos sabemos que <em>raça</em>, sendo categoria discursiva, é uma construção político-social, operando a representação de diferenças que funcionam como marcas simbólicas (como cor da pele, textura do cabelo, características físicas e corporais, etc) &#8211; não uma categoria biológica. Portanto, poupemo-nos do discurso pseudopedagógico sobre esta questão e discutamos o essencial: e o essencial é que declarações de boas intenções sobre o ideal não são performativas, isto é, não transformam a realidade concreta. E a realidade concreta, histórica, é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas.</p>
<p><span id="more-337"></span></p>
<p>E é aqui que começa o meu mal-estar quanto ao muito que tem sido dito sobre a &#8220;questão racial&#8221;. Um deles reporta-se ao facto de muitos que hoje celebram Obama serem os que começaram por dizer que a &#8220;questão racial&#8221; era uma falsa questão porque Barack Obama não era negro, mas sim mestiço e &#8211; pasme- se! &#8211; &#8220;crioulo&#8221;. Ora, como se sabe, esta &#8211; crioulidade &#8211; é uma noção inadequadamente empregue, de forma descontextualizada, referindo o processo de mestiçagem em Angola e que aparece como <em>&#8220;´royalty´ ou penhor da colonização (&#8230;) que intenta a legitimação de um qualquer direito histórico de ressarcimento, por</em> <em>inapagáveis memórias de tempos de discriminação biológica, interdição cultural e proscrição política&#8221;i</em> dos africanos tratados como &#8220;portugueses-outros&#8221;. Com este discurso de neutralização da importância desta questão, encaminhava-se oportunamente para a relativização do que representa, nos Estados Unidos, a eleição de um presidente negro quando, como lembrou o próprio no seu discurso de tomada de posse, há menos de 50 anos, o seu pai não seria servido num qualquer bar &#8211; apenas por ser negro. Subjacente está o estafado discurso do mérito, como se o mérito fosse um absoluto sem laços nenhuns com a realidade, funcionando, deste modo como noção que busca desqualifi car as desigualdades, as assimetrias e as discriminações, e acabando por concorrer para a naturalização de uma situação de desequilíbrio sem qualquer questionamento sobre a condição subalterna dos sujeitos que fazem parte do segmento não representado nas instâncias de poder, em todos os seus circuitos: social, económico, etnocultural, racial.</p>
<p>Relacionada com esta questão está uma possível discriminação de Barack Obama caso ele fosse um candidato africano, como refere Mia Couto<em>ii</em> no seu tão celebrado artigo de opinião. Se muitos duvidam da possibilidade de um Obama africano por não ser negro talvez seja por não terem conhecimento do que vem acontecendo em África, nomeadamente com Jerry Rawlings, ex-presidente do Gana, filho de pai escocês; Seretse Khama Ian Khama, presidente do Botswana, filho de mãe inglesa; Fradique de Menezes, presidente de São Tomé e Príncipe, filho de pai português. Além de que, conviria não esquecer, o próprio não se consideraria negro &#8211; considerar-se-ia diferente e pertencente a &#8220;outro&#8221; grupo. Por isso, quanto a este aspecto mais facilmente haverá um Obama africano do que um Obama europeu (e escusado será dizer que provavelmente não haveria uma primeira dama negra). Por outro lado, e como disse mais do que uma vez, podem ser traçados paralelismos entre a presença do negro na Europa e do branco em África<em>iii</em> . E se formos honestos, concordaremos quanto à muito maior visibilidade deste do que daquele. Assim sendo, porque será mais grave não haver um Obama africano do que não haver um Obama europeu? Além disso, olhando para os meandros do poder em muitos países africanos (sociais e culturais, quando não económicos e/ou militares), como falar de &#8220;marginalização e discriminação&#8221; de um segmento que, mesmo minoritário, se move no topo de uma pirâmide social?! Estranha discriminação! E sobre discriminação, acreditem, não sou apenas espectadora intelectual &#8211; sou catedrática!</p>
<p>O perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira. Por isso, convém relativizar a frase de Obama segundo a qual a sua história só ser possível na América. Em muita África tem sido possível: isto é, a presença de «outros» na ciranda dos muitos poderes (porque se teima em reduzir o poder à esfera política?). Convém que as convicções ideológicas não turvem a análise cultural e científica.</p>
<p><em><span style="font-size:10px;">i Leonel Cosme, «Crioulos e Brasileiros de Angola», Lisboa: Novo Imbondeiro, 2001. P. 57<br />
</span></em><em>ii Mia Couto «E se Obama fosse africano?», Semanário «Savana», Moçambique, 14 de Nov 08<br />
</em><em>iii Inocência Mata, «Na África Negra» tudo caminha para o «inversamente» &#8211; </em><em>Semanário Angolense</em><em>, </em><em>nº 290, 8-15 de Novembro de 2008 </em><em></em></p>
<p>&#8212;-<br />
<span style="font-size:9px;">Foto: Inocência Mata</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>A posse de Obama e a magia do simulacro da nossa posse</title>
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		<pubDate>Tue, 20 Jan 2009 17:51:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[ Por Simone Ribeiro da Conceição

Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.
A transmissão concretiza o &#8220;we can&#8221;. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.
Temperatura e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="TEXT-ALIGN: left"> <strong>Por Simone Ribeiro da Conceição</strong></p>
<p style="TEXT-ALIGN: center"><img class="aligncenter" style="margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2009/01/obama-1-300x196.jpg" alt="" width="300" height="196" /></p>
<p style="TEXT-ALIGN: left">Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.<br />
A transmissão concretiza o &#8220;we can&#8221;. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.<br />
Temperatura e expectativas negativas não afugentam a multidão que se acumula em Washington. Animada, a massa toma posse do local. Em todas as partes do mundo, transmissões são anunciadas. Elas são ingresso para que uma multidão incalculável participe da cerimônia como platéia virtual.<br />
Assistimos hoje a uma representação. Como sociedades do simulacro, a representação nos fascina. Digitalizada, plasmada e ampliada nos telões consumidos pelos mais ávidos, as imagens de cada etapa da posse do novo presidente dos Estados Unidos registram o ineditismo dos passos negros em direção à Casa Branca.<br />
A magia da técnica está em nos permitir compartilhar essa caminhada e tomar como nossa a sensação da posse. A experiência de, enquanto negros, experimentar reconhecer-se na imagem. Experienciar a identificação com os protagonistas. Envaidecer com a beleza, o talento e a competência, até aqui demonstrada pelo casal Obama.<br />
O show da posse é um show da técnica. Nas horas que aproximam o futuro presidente dos futuros problemas, o circo high-tech descontrai a audiência e faz esquecer o pão ou as dificuldades em ter um trabalho para obter esse e outros alimentos do corpo e da alma.<br />
A cultura do espetáculo transforma os eventos em espetáculo. A diferença na próxima atração é que há muita emoção no ar. Não precisaremos de cristais, a técnica e reprodutibilidade técnica nos apresentarão as imagens que nos trarão reflexões e inevitáveis lágrimas. Filmadas e fotografadas, as imagens da posse servirão ao futuro como memória de um momento de união de todos em torno da representação de um evento que confirma que podemos mudar. E porque não crer que podemos melhorar?!</p>
<p> &#8212;&#8211;<br />
<span style="font-size:9px">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Todo cabo-verdiano é um pouco… Poeta</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Dec 2008 02:51:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia
por isso trago dentro de mim
todos os mares do Mundo&#8221;
                       (Ovídio Martins)
Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right;"><em><span style="font-size:10px;">&#8220;Eu nasci na ponta-da-praia<br />
por isso trago dentro de mim<br />
todos os mares do Mundo&#8221;<br />
                       </span></em>(Ovídio Martins)</p>
<p>Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco&#8230; poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do cuidado, do esmero que é a ação do ritmo, da seleção criteriosa das palavras; as rimas, as imagens&#8230; e outras mil estratégias de textualidade lírica _ os ditos recursos estilísticos.</p>
<p>No falar e no escrever próprios dos cabo-verdianos, numa cultura herdeira e conviva da tradição oral, eis que a musicalidade intrínseca ao contar das estórias e do bater do pilão, do batuque<em> </em>e do <em>finason</em>, dos choros das visitas de pêsames e dos rituais matrimoniais, torna-se mana da arte da palavra. Tudo são poemas: ditos, cantados ou chorados. Versos que ora beiram à epopeia em memória do morto, ora lhe lastimam a saudade. Embalado pelo mesmo Mar que leva os bilhetinhos de saudade e os suspiros salgados das cristas das ondas, o homem crioulo é e se faz com o outro um pouco&#8230; poeta. <span id="more-254"></span></p>
<p>São dizeres de recomendação na despedida da nubente, logo antes das cerimónias oficiais &#8211; <em>noiba ba sentu</em> (noiva no assento); e, mais tarde, na <em>bênção</em> de acolhida dos noivos à casa dos ancestrais, após as cerimónias oficiais do &#8220;Registo&#8221; ou do &#8220;Religioso&#8221;. Vejamos um momento de <em>noiba na sentu </em>de improviso. O texto foi recolhido no interior de Santiago, em meio a cantares de batuque, acompanhados de palmas ritmadas e a seguinte melopeia:</p>
<p style="text-align: center;"><em><span style="font-size:10px;"><em>Kazamentu ê mel / </em><em>Kasamentu ê fel /</em><em>Txora! / </em><em>Noiba na sentu ê bonitu.(&#8230;) /Kazamentu ê grandi! /<br />
</em><em>Pensa dretu, bu bá d&#8217;um bês / </em><em>Mara bu korda séku, boita-l / </em><em>Boita-l na nkunhal di bu kasa (&#8230;)<br />
</em><em>Deus libra-u di amizadi fingidu / </em><em>Deus libra-u di kumida kumprádu (&#8230;) /</em><em>Deus ba bu dianti! /<br />
</em></span><span style="font-size:10px;"><em>Nossa Senhora di bem kazadu pega-u na mô, / </em><em>Deus faze-u mudjer filis y honrada! </em></span></em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="alignnone size-full wp-image-258" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento1.jpg" alt="" width="277" height="99" /><img class="alignnone size-full wp-image-259" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/casamento2.jpg" alt="" width="276" height="99" /></p>
<p style="text-align: center;"><span style="font-size:10px;"><em>Casamento é mel, Casamento é fel. /Chora sim, chora porque casamento é coisa grande!/<br />
Amarra bem a tua corda, faz um nó cego e dá-lhe voltas: /E prende-o, no &#8220;nkunhal&#8221;da tua casa.(&#8230;) /<br />
Que Deus te livre de amizade fingida, /E que Deus te livre de comida comprada.(&#8230;) /Deus te guie, /<br />
Nossa Senhora dos bens casados te segure pela mão /Deus te faça mulher feliz e honrada!</em></span></p>
<p>Estas são imagens que ilustram a idiossincrasia cabo-verdiana: antes do casamento, a nubente, sentada no meio de uma roda feita de mulheres de todas as idades, escuta suas vizinhas e familiares, antes de sair, pela última vez como solteira, da casa onde nasceu.</p>
<p>Nas fotos acima, após o casamento civil, a nova família é recepcionada, em ritual tradicional, que inclui discursos dos pais, padrinhos e outros familiares mais velhos &#8211; a benção. A passagem do pano, tal qual nas danças tradicionais, é, ao mesmo tempo, razão de alegria e de apreensão: alegria pela confiança depositada e apreensão pelo sentido de responsabilidade. Nos rituais do matrimónio, o pano traz alívio por simbolizar proteção dos mais velhos; mas também a emoção no assumir da continuidade dos valores das famílias de origem, que são legados à nova família.</p>
<p>Tal como o casamento, todos os rituais dos ciclos de vida são momentos de poesia: gravidez, parto, <em>festa</em> <em>de guarda cabeça</em> , <em>festa de cristão</em>, batismo, noivado, casamento e morte. Os rituais tradicionais possuem gestos próprios, indumentária própria, gastronomia própria, mas, principalmente, palavras próprias! Diga-se o mesmo das <em>festas de função</em> e de todos os momentos importantes da vida social e de lazer do povo das ilhas.</p>
<p>Do Pelourinho na Ribeira Grande de Santiago, símbolo da repressão mas também da resistência, à dança e música contemporâneas, convido você, caro leitor, a nos acompanhar nas estórias e outras manifestações culturais detse país, onde a palavra se faz arte. Deixemos os itálicos em itálico, pois serão motivos para as próximas viagens. Descubramos juntos um Cabo Verde Crioulo, onde tradição e modernidade se completam. Tudo é poesia acalentada pela musicalidade dos sete mares do Mundo.</p>
<p>__________<br />
<span style="font-size:10px;">Fotos: José Teixeira</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Cabo Verde: terra do ka tem?</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 22:37:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Augusta ÉTT
Didikason:
Pa: Zé, Clarissa y Isabel
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:
  Mar di nha Pêtu*

O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.
                                                                           Onésimo Silveira
Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do Ka tem prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><strong>Por Augusta ÉTT</strong></p>
<p style="text-align: right; font-size: 10px;"><em>Didikason:<br />
Pa: Zé, Clarissa y Isabel<br />
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:<br />
  Mar di nha Pêtu*</em></p>
<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter size-full wp-image-238" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/cabo-verde-guta1.jpg" alt="" width="492" height="124" /></p>
<p style="text-align: center;"><strong><em>O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.<br />
                                                                           </em></strong><span style="font-size: 10px;">Onésimo Silveira</span></p>
<p>Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do <em>Ka tem </em>prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra moldada e criada por Deus, como foram outras terras. Não foi o barro que deu forma, onde depois se fizeram terras&#8230; terras onde há chuva e há fartura; onde a chuva vem sempre e quando vem não mata a gente; essas são terras feitas por Deus Nossenhor. Cabo Verde teria sido _ diz o povo _ dez <em>respingos </em>de lama que o Pai do Céu sacudiu após seis dias de trabalho. Dez dedos sujos de um barro desorientado, das duas mãos celestes, fazem cair, no meio do mar: da mão esquerda o Barlavento e da direita o Sotavento. Obra do acaso.</p>
<p>Entre 1460-1462 navegadores portugueses descobrem dez ilhas e cinco ilhéus que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Dois grupos de ilhas e uma superfície de 4033km2, com um clima tropical seco. Foi nesse <em>balão de ensaio</em> que teve vez uma das experiências mais espantosas<em> </em>de miscigenação na era moderna. <span id="more-235"></span></p>
<p>Na formação da nação cabo-verdiana deve-se considerar que, para além de ter sido um achado, Cabo Verde teve, desde os primeiros momentos da sua história, a característica de ser um (não) lugar de encontros, de intercâmbio e de miscigenação de povos, de culturas e bens comerciais. Um <em>não-lugar habitado por ninguém</em> cuja posição estratégica intercontinental permitiu a utilização das ilhas, primeiramente a de Santiago, como entreposto comercial.</p>
<p>Homens livres e cativos da Europa e da África continental, pertencentes a diferentes povos, em contacto entre si e com os europeus, em sua maioria portugueses, deram origem ao <em>homem da terra</em>, na designação de Elisa Andrade, desde o início, um mestiço.</p>
<p>O homem da terra falou e ainda fala a língua da terra, resultante, ela também, do <em>caldeamento cultural, </em>segundo João Lopes Filho. O cabo-verdiano, língua, como todos os cabo-verdianos, cidadãos, tem um nome de registo que é seu nome oficial (Língua cabo-verdiana) e um nome &#8220;de casa&#8221; (Crioulo). Ele convive, num contexto linguístico de diglossia, com a Língua Portuguesa, desde que atingiu maturidade como sistema linguístico independente. É o veículo privilegiado de transmissão de saber e cultura. O Crioulo foi o principal ingrediente da caboverdianidade, um terceiro produto cujo passado remonta ao presente, da época, e faz da bipolaridade entre as africanidades e o Ocidente uma simbiose sui generis.  <!--more--></p>
<p>A música e os contos tradicionais, por exemplo, utilizam o Crioulo-Cabo-verdiano. E mesmo a Literatura considerada erudita, clássica, dialoga, desde a Claridade e mesmo antes dela, com a língua de berço. A cultura que essa língua, ao lado do português, transmite é multicolorida e diversificada. Tão rica e tão específica que, em alguns momentos da história das ilhas, ela é tomada como referência, alento nas adversidades e factor de união inter-ilhas e com a diáspora.</p>
<p>Diversidade cultural, diversidade natural, união na adversidade&#8230; foram ingredientes que compuseram uma nova visão sobre Cabo Verde: uma nação rica, de confiança no verde do seu nome, cor da esperança que é &#8211; o que é.</p>
<p>É sobre Cabo Verde, sua literatura e cultura que pretendemos falar. De uma nação que faz de suas fraquezas força e de sua pobreza um desafio, aos deuses e aos homens; do teimosamente continuar de pé, com Ovídio Martins e outros nomes da literatura das ilhas.</p>
<p>Venha conhecer os flagelados do vento leste, que morrem e ressuscitam todos os anos. Homens e mulheres que conjugam a seca com a esperança e a pobreza com a coragem, sem perder a Morabeza! Terra do Ka tem? Não, porque há sempre um crioulo inventando um poema diferente, como quis Onésimo.</p>
<p>O seu interesse e contribuição serão um estímulo.</p>
<p>_______________________________<br />
<span style="font-size: 10px;">Fotos: José Teixeira e Augusta ÉTT<br />
* Tradução: &#8220;Este trabalho é dedicado ao Zé, à Clarissa e à Isabel, que são o meu Chão, o meu Céu e o meu Sol. E são também o Mar, onde o meu coração se banha.&#8221;</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Parceria Atlântica</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Dec 2008 21:22:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Cabo Verde]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>

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		<description><![CDATA[O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do Porto, onde também fez um Mestrado. Lecionou em inúmeras instituições de ensino em Cabo Verde, como o Instituto Superior de Educação e o Liceu Amílcar Cabral. É quadro da Assembléia Nacional onde ocupa o cargo de redatora, desde 1999, e cursa o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UFF.</p>
<p><span id="more-224"></span></p>
<p>Para o blog assim nossa &#8220;correspondente Mana-Guta&#8221; se apresentou:</p>
<p><em>&#8220;Nos registos oficiais, eu sou Maria Augusta Évora Tavares Teixeira, um nome demasiado longo para se apresentar seja quem for. Mas como selecionar um dos sobrenomes seria cortar parte significativa de mim, prefiro que, entre tradição e modernidade, oficial e familiar, seja chamada simplesmente de Augusta ÉTT, abreviando-o e que, na minha vertente de aprendiz de escrevinhadora, me apelidem de Mana-Guta.<br />
Sobre o meu trabalho, considero ser meu dever servir, em primeiro lugar, Cabo Verde, minha terra, lá onde for prioritário, em cada etapa da nossa História. O percurso e os títulos académicos são importantes para que eu possa legitimar, aos olhos do mundo, o que eu faço. Mas ser, primeiramente cabo-verdiana e africana, e ser digna dessas identidades, isso, sim, é o que pretendo ser.&#8221;</em></p>
<p>Todos nós temos muito a ganhar com esse intercâmbio e já nos próximos artigos compartilharemos os primeiros textos enviados pela Guta, mulher de fibra, com uma escrita e uma voz singulares. Axé!</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Ganzás poéticos em Recife</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Dec 2008 14:35:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia Brasileira]]></category>

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		<description><![CDATA[Durante os quatro dias em que estive em Porto de Galinhas, no início do mês de novembro, procurei pelo maracatu e não o encontrei. Era inconcebível, pra mim, ir a uma &#8220;festa literária&#8221; em Pernambuco e não ouvir um maracatu ou não dançar uma ciranda.  No fim da tarde de domingo, antes de voltar ao Rio, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Durante os quatro dias em que estive em Porto de Galinhas, no início do mês de novembro, procurei pelo maracatu e não o encontrei. Era inconcebível, pra mim, ir a uma &#8220;festa literária&#8221; em Pernambuco e não ouvir um maracatu ou não dançar uma ciranda.  No fim da tarde de domingo, antes de voltar ao Rio, fui atrás dos tambores e dos abês em Recife. Os deuses confabularam sempre em meu favor e entre tantas pessoas maravilhosas que estiveram comigo em Porto, eles me apresentaram à professora Noemi Araújo, com quem fui à cidade evocada por Manuel Bandeira. A cidade dos poetas, sem sombra de dúvida.</p>
<p>Misturados aos sons das alfaias vindos de praças e esquinas, os poetas vão tocando seus ganzás literários, são erês que circulam entre as gentes e brincam e riem e falam coisas sérias. Conheci pelas mãos de Noemi um em especial, irradiando luz nas andanças que fizemos pelas ruas de Recife: Jomard Muniz de Britto. <span id="more-175"></span></p>
<p><img style="float: left; margin: 10px;" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/12/jomard-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /> Mas como falar de Jomard? Difícil, pois ele é como o maracatu, por mais que se tente defini-lo, só estando bem próximo do batuque para sentir o ritmo pulsar nas batidas do coração. É preciso ler e ouvir Jomard, é preciso degustar Jomard, com ou sem manifestos verdes, azuis ou vermelhos. Já sinto saudades dele e de seus &#8220;atentados poéticos&#8221;, distribuídos às mais diferentes gentes, há muito tempo&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. Ele é multi muita coisa desde os anos 60: professor, intelectual, engajado, escritor, performático, cineasta, agitador cultural, poeta.. Seus textos, de inúmeras linguagens, falam de um mundo em retalhos, é o contemporâneo fragmentado e por vezes (quase) inteiro, tornado em colcha. Sua &#8220;obra-em-processo&#8221; está sempre, porque, como já escreveu o próprio JMB, &#8220;poeticidade é o nômade&#8221;. </p>
<p> Alguns de seus trabalhos podem ser conhecidos através do endereço <a href="http://www.myspace.com/jomardmuniz">www.myspace.com/jomardmuniz</a> . Lá na seção Sararau deixo o atentado que recebi naquela noite de domingo, noite de maracatu, de &#8220;zabumba de bombos&#8221;, de &#8220;estouro de bombas&#8221;, que me fez lembrar poetas, pernambucanos, Bandeira, Jomard, e o Ascenso, quando pergunto e respondo, com este, &#8220;Luanda, Luanda, onde estou?&#8230; Luanda, Luanda, onde estás?&#8230; Cantigas de banzos, Rangir de ganzás&#8230;.&#8221;</p>
<p>_______<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Na semana da consciência, o inconsciente da linguagem</title>
		<link>http://www.sararau.com.br/2008/11/na-semana-da-consciencia-o-inconsciente-da-linguagem/</link>
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		<pubDate>Thu, 20 Nov 2008 23:07:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Colaboradores]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência Negra]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.sararau.com.br/?p=160</guid>
		<description><![CDATA[Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania). 
NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania). </strong></p>
<p style="text-align: left;"><strong>NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE DA LINGUAGEM <br />
</strong><strong>Por Simone Ribeiro da Conceição</strong></p>
<p>A linguagem revela o que se quer dizer e o que convém calar.  Mais precisamente, é o inconsciente que revela aquilo que o sujeito consciente de fazer parte de um país não racista, se esmera por mascarar em seu discurso.</p>
<p>Nessa semana de consciência negra em pauta, destaco dois momentos da linguagem que dão voz ao discurso da diferença, retido no inconsciente coletivo brasileiro, em um ambiente democrático racial que pressupõe igualdade. </p>
<p>Antes dos fatos, um retorno à história. História que deu margem para a fantasia de democracia racial do cordial cidadão miscigenado, indefinido e, portanto, brasileiro. No cenário de convivência de diferentes, instaurado pós-achamento do Brasil, a ausência de segregação legal fez supor que o mesmo espaço e oportunidades foram partilhados igualmente por todos os filhos da terra. Mas, um simples passeio pelos discursos, permite ver que ao longo de nossa formação, a linguagem identifica a valorização diferenciada dos grupos étnicos formadores da amálgama social brasileira.</p>
<p><span id="more-160"></span></p>
<p>Fazendo uso da linguagem científico-acadêmica Gilberto Freyre &#8220;viaja&#8221; ao traduzir a harmonia da sociedade brasileira. Justificando a falta de conflitos com a &#8220;<em>degradação das raças atrasadas pelas raças adiantadas&#8221;</em> o discurso do teórico reforçou as raízes de um Brasil de negros e índios cordiais, mediante à superioridade branca.</p>
<p>O século XX trouxe como achado a idéia de que dominar os inferiores e criar lugares a serem preenchidos por seu atraso foi a receita do sucesso para uma formação social brasileira que oferece espaço para todos. Negros, índios e seus descendentes foram dominados. Acomodados em espaços de subalternidade,  ajustado a seu atraso, deram sua  contribuição ao progresso da sociedade. As idéias de atraso e dominação marcaram a figura dos não-brancos. Ao longo do tempo, senso comum e discurso científico, portanto, prática e teoria, sedimentaram um perfil de inferioridade dos não-brancos, que causa espanto quando rompido.  </p>
<p>O espanto é o elo entre a linguagem consciente e a expressão do inconsciente analisada em dois discursos ouvidos séculos depois do percurso descrito acima. O grito do inconsciente  projeta na linguagem do brasileiro, as amarras que prendem o pensamento do século XXI aos pré-conceitos erguidos no passado e agregados às raízes de um Brasil que condena a afirmação da diferença positiva, mas, inconscientemente, afirma um imaginário de desigualdades.</p>
<p>Meses atrás, ouvi de uma colega de universidade a frase: &#8220;Nossa, como você fala bem!&#8221; Mas a desagradável consciência faz ver o que intenciona ser elogio, como uma manifestação de espanto diante da capacidade de um incapaz.  A experiência kafkiana do macaco fora do seu habitat, admirado pela academia. As chagas de Pedro Rubro e de meus antepassados ainda vicejam sempre que experimento estar onde não é lugar para o meu perfil. Minha habilidade surpreende uma colega que, por certo, teve por colegas, em instituições de ensino classe média, poucos colegas negros. Movida pelo impulso, a linguagem ajuda a dar visibilidade ao espanto em encontrar numa estudante negra uma qualidade previsível para qualquer estudante que atinge o degrau da pós-graduação.</p>
<p>A linguagem é uma ferramenta que permite provar o pensamento racista incutido nas relações sociais brasileiras. Na linguagem nossa de cada dia, empregamos um apuro para discursar com correção político-ideológica, burilando a fala para banir dela os termos pejorativos que, literalmente, condenam o usuário. No entanto, a linguagem está repleta de expressões ligadas à inferioridade característica aos pobres não-brancos. É imensa a coletânea de expressões que afirmam a depreciação daquilo que não tem os padrões que dominam o mundo e refletem a imagem dos dominadores e vencedores.</p>
<p>As piadas que ouvimos, os filmes que vemos e a realidade que vivemos apontam uma pobreza inata aos mestiços de pele mais negra. Em nosso inconsciente, a pele escura empurra o cidadão para a periferia do poder, da beleza, da inteligência e demais aspectos positivos. Ter consciência disso é um dever, de casa e rua, para brancos e não-brancos que produzem e reproduzem o pensamento social, na prática ou na teoria.</p>
<p>Na manhã que antecede o dia nacional da consciência negra, via mídia televisiva, a linguagem me presenteia com outra pérola: &#8220;<strong>A miss Angola é linda, gente!&#8221;</strong> Eufórica, a jornalista exibe seu espanto, diante de uma miss linda, como toda miss, apesar de negra. Reprimido conscientemente, o discurso racista retido no inconsciente, é projetado na linguagem redundante da apresentadora.</p>
<p>Produtos de seu tempo, as frases que renderam tantas linhas de reflexão são, sobretudo, reflexo do discurso enfatizado pelo pensamento social brasileiro na última década: &#8220;Não somos racistas&#8221;. A consciência que se quer afirmar publicamente não varrerá as imagens guardadas na &#8220;outra cena&#8221; freudiana ou inconsciente. </p>
<p>Numa sociedade que apostou na mistura e na afirmação da igualdade, separar é um crime. Distinguir e valorizar as diferenças de brancos e não-brancos, que, somadas, fazem o Brasil, é ruir. Espantado com as ações que apóiam a visibilidade e respeito às diferenças, um jornalista, como a que provocou meu espanto, e teórico, como aquele que &#8220;viajou&#8221; e redescobriu o Brasil, produz o <em>best seller</em> que lê a questão das divisões perigosas.</p>
<p>A consciência permite ao homem construir uma linguagem e distanciar-se do real, especialmente o perigo real de partilharmos o pequeno bolo dos privilégios, com a implementação de medidas que visam reparar desigualdades históricas e inserir egressos dos grupos estigmatizados em espaços &#8220;inexplicavelmente&#8221; habitados por uma minoria não-negra da população de maioria negra.</p>
<p>A linguagem é a embalagem daquele produto, que permanece o mesmo, mas recorre ao apelo do novo para vender. <em>Experts </em>no domínio do pensamento, intelectuais brasileiros do século XXI recorrem à linguagem, especialmente ao ato da designação, para produzir um discurso que, inconscientemente, afirma a existência do racismo que se quer negar. É o velho discurso da mistura, utilizado para valorizar a falta de identidade como nossa marca. Como marca do &#8220;somos todos mestiços, portanto, somos todos iguais&#8221;. Fruto das discriminações, a desigualdade econômica é elemento que renova o discurso da desigualdade. Falar de raça/etnia é desconsiderado, descabido e desautorizado pela ciência.</p>
<p>Fora dos centros de pesquisa, no calor do laboratório das ruas, a linguagem corporal emite discurso bem diferente. Num primeiro olhar, todo preto é pobre, e não escapa ao pré-conceito de sinonímia entre pobreza e negritude.  O sorriso jocoso do manobrista é a primeira saudação de desconfiança, da qual o branco pobre e bem vestido facilmente escapa.  O franzir de sobrancelhas, o olhar apertado e tantas muitas reações inconscientes da linguagem corporal acompanham quem carrega na pele o fenótipo que nos diferencia mesmo quando temos a mesma condição social.</p>
<p>Somos diferentes, esse é o ponto que não pode causar espanto. A condição humana é marcada pela diversidade. Afirmar a diferença e reclamar diante das desigualdades étnicas e sociais parece ser a mistura de atitudes mais cabível, para quem tem consciência de que brasileiro é construir uma identidade calcada no respeito às especificidades históricas que determinaram a posição de brancos e negros na cena e na &#8220;outra cena&#8221; da sociedade brasileira.</p>
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		<title>Encontros e desencontros na/da Fliporto</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Nov 2008 11:43:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Literaturas Africanas]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>A Fliporto promoveu encontros e desencontros entre os dias 6 e 9 de novembro.  Se por um lado a circulação de inúmeros escritores brasileiros, africanos, latino-americanos e a presença de professores e pesquisadores da literatura contribuíram para uma série de diálogos e intercâmbios, principalmente nos bastidores, a ausência de um público maior de estudantes e comunidade locais esvaziou a festa.  As sessões simultâneas também foram um problema. Além disso, com o tempo curtíssimo para cada participante e a presença de moderadores muitas vezes despreparados, o público precisou de disposição e paciência para acompanhar a programação.</p>
<p>Aliás, foi impossível acompanhar tudo. No dia 7, por exemplo, na mesma hora que Paulina Chiziane e Patraquim conversavam, a literatura de São Tomé e Príncipe era apresentada pela professora Margarida Paredes, da Universidade de Lisboa, com a participação de Ondjaki lendo poemas de Conceição Lima. A poeta foi homenageada junto com a pesquisadora Inocência Mata, duas são-tomenses que refletem sobre o universo sócio-cultural do arquipélago. Conceição Lima nasceu em Santana, em 1961, e tem dois livros de poesia publicados pela Editorial Caminho: <em>O útero da casa (2004) </em>e <em>A dolorosa raiz do micondó (2006). </em>Veja na seção Sararau o poema &#8220;A casa&#8221;, de Conceição Lima, lido na ocasião.</p>
<p>Ainda na sexta-feira, apesar dos desencontros dos moderadores de uma das mesas mais esperadas do evento &#8211; Agualusa, Ondjaki e Pepetela &#8211; foi bonita a homenagem da filha de Solano Trindade, Raquel Trindade, ao centenário do poeta, com a fala emocionada do poema &#8220;Tem gente com fome&#8221;. Uma pena eu não ter gravado esse momento, merecia ser ouvido por todos, inúmeras vezes. Mas deixo o poema também lá na roda/página Sararau.</p>
<p>A homenagem a Solano se estendeu no sábado, quando outras vozes quilombolas se juntaram. Em especial a de Conceição Evaristo. A mineira foi uma das poucas representantes da literatura afro-brasileira na Fliporto. Ao lado de Paulina Chiziane, nos lembra que precisamos cada vez mais de encontros entre África e Brasil.  </p>
<p style="text-align: center;"><img class="size-medium wp-image-104 aligncenter" title="img_1618" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1618-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></p>
<p>_________<br />
<span style="font-size: 10px;">Foto: Claudia Fabiana</span></p>
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		<title>Novo encontro com o canavial</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Nov 2008 23:38:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>
		<category><![CDATA[Fliporto]]></category>

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		<description><![CDATA[&#8220;Via plantas de cana
com sua cabeleira, ou crina,
muita folha de cana
com sua lâmina fina,
muita soca de cana
com sua aparência franzina,
e canas com pendões
que são as canas maninhas.
Como terras de cana,
são muito mais brandas e femininas.
Foram terras de engenho,
agora são terras de usina.&#8221;
(João Cabral de Melo Neto)

Desembarquei no aeroporto de Recife às 6h30 da última quinta-feira, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><img class="alignleft size-medium wp-image-77" style="float: left;" title="img_1633" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1633-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /><em>&#8220;Via plantas de cana<br />
com sua cabeleira, ou crina,<br />
muita folha de cana<br />
com sua lâmina fina,<br />
muita soca de cana<br />
com sua aparência franzina,<br />
e canas com pendões<br />
que são as canas maninhas.<br />
Como terras de cana,<br />
são muito mais brandas e femininas.<br />
Foram terras de engenho,<br />
agora são terras de usina.&#8221;<br />
(João Cabral de Melo Neto)</em></p>
<p style="text-align: left;"><strong><br />
</strong>Desembarquei no aeroporto de Recife às 6h30 da última quinta-feira, dia 6 de novembro, e fui direto para Porto de Galinhas, participar da Fliporto, &#8220;festa literária&#8221; que destacou as literaturas africanas e latino-americana. No caminho, meu primeiro encontro com uma paisagem que só conhecia nos livros: os canaviais. É essa paisagem que para mim marca os quatro dias que passei por lá. Quando fecho os olhos e penso em Porto vejo a cana nos dois lados da estrada e um painel pintado com as trilhas por ela deixadas. Também penso no Amir Klink, mas essa é outra história.</p>
<p>Seu Guilhonel, pernambucano, conhece bem as trilhas da cana e me explica, já na volta, que a queimada faz parte do processo do corte e que o cheiro desagradável que eu senti num fim de tarde vem do vinhoto, a parte tóxica da decantação da cana. Nas usinas, a cana é moída e o caldo fervido. Do melaço sairá o açúcar, mas o vinhoto, espécie de espuma acima do melaço, será pulverizado no terreno, espalhando um cheiro forte na área. É a ironia de tudo na vida, a junção do doce e do amargo.</p>
<p>Pergunto a ele como estão as condições de trabalho na região, diz que os bóias-frias continuam e que a mecanização nas usinas se, por um lado, facilita o trabalho, por outro gera desemprego. Mas para seu Guilhonel o grande problema ainda é o alcoolismo, muito mais uma questão de fome. Lembro de João Cabral e da &#8220;Morte e vida severina&#8221;, em tempos outros, mas ainda o mesmo.  Lembro de Ferreira Gullar e do açúcar &#8220;branco e puro&#8221; que ainda é produzido por &#8220;homens de vida amarga/ e dura&#8221; e continua a adoçar cafés &#8220;em Ipanema&#8221;.</p>
<p><span id="more-76"></span></p>
<p>Acho que por isso tudo, quando penso na festa, penso na cana. A Fliporto também me mostrou contradições. Muitos escritores de peso, grandes nomes da intelectualidade, encontros e homenagens históricas, ótimos patrocínios, mas falhas grosseiras na organização e ausência de um público maior de estudantes e comunidade local.  Nos próximos artigos, vamos conversar um pouco mais sobre.</p>
<p><img class="alignright size-medium wp-image-78" style="float: right;" title="img_1596" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1596-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" />Por ora, quero destacar a aula espetáculo de Ariano Suassuna, que nos conta estórias, convoca memórias e nos apresenta artistas locais, como o grupo formado pelos filhos do mestre Salustiano. Mestre Salu, grande nome da cultura pernambucana, morreu este ano. Ele foi, como diz o professor Biu Vicente, da Ufpe, um &#8220;menino pobre de engenho&#8221; e aprendeu com o pai, que também cortava cana, a tocar a rabeca e a animar os bailes nos terreiros.  De geração a geração cantigas do Cavalo Marinho e outras expressões culturais da região se perpetuam. </p>
<p>Fico com o gosto doce da rabeca e das estórias de Ariano, e junto com Thiago de Mello, que fechou a noite de abertura da festa de Porto, &#8220;Volto armado de amor&#8221; &#8211; poema lido e espalhado na paisagem:</p>
<p><em><a href="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1599.jpg"><img class="size-medium wp-image-79 alignright" title="img_1599" src="http://www.sararau.com.br/wp-content/uploads/2008/11/img_1599-225x300.jpg" alt="" width="225" height="300" /></a>Volto armado de amor<br />
para trabalhar cantando<br />
na construção da manhã.<br />
Anor dá tudo o que tem.<br />
Reparto a minha esperança<br />
e planto a clara certeza<br />
da vida nova que vem.</em></p>
<p><em>Um dia, a cordilheira em fogo,<br />
quase calaram para sempre<br />
o meu coração de companheiro.<br />
Mas atravessei o incêndio<br />
e continuo a cantar.</em></p>
<p><em>Ganhei sofrendo a certeza<br />
de que o mundo não é só meu.<br />
Mais que viver, o que importa<br />
(antes que a vida apodreça)<br />
é trabalhar na mudança<br />
de que é preciso mudar.</em></p>
<p><em>Cada um na sua vez,<br />
cada qual no seu lugar.</em></p>
<p><span style="text-decoration: line-through;">Fotos: Claudia Fabiana</span></p>
<p><em> </em></p>
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		<title>Feiras no Rio</title>
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		<pubDate>Mon, 03 Dec 2007 14:38:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Claudia Fabiana</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ensaios em Trânsito]]></category>

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		<description><![CDATA[Neste último fim de semana, além da já conhecida Feira do Rio Antigo, na rua do Lavradio, todo primeiro sábado do mês, aconteceu mais uma edição da Primavera dos Livros, desta vez no Museu da República. Uma feira com gosto de feira boa, aquela que te deixa feliz com o passeio, os encontros, as comprinhas, o caldo de cana - aliás, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Neste último fim de semana, além da já conhecida Feira do Rio Antigo, na rua do Lavradio, todo primeiro sábado do mês, aconteceu mais uma edição da Primavera dos Livros, desta vez no Museu da República. Uma feira com gosto de feira boa, aquela que te deixa feliz com o passeio, os encontros, as comprinhas, o caldo de cana - aliás, dessa vez, substituído pelo cafezinho. Com uma programação cultural para todos os gostos e as editoras da LIBRE vendendo livros com descontos maravilhosos, o cafezinho e o passeio pelo jardim do museu completaram o sucesso da feira. Mesmo quem não comprou nada pôde experimentar o seu ar poético. Porque feira é sem dúvida alguma lugar de poesia. <span id="more-7"></span></p>
<p>Lembro do meu pai aos domingos. Como num ritual todo seu, levantava cedo, tomava um café, sempre assobiando uma canção lenta, caminhava até à feira, conversava com os feirantes, encontrava amigos e falavam de nada tão importante assim, era capaz de ficar horas na barraca dos passarinhos, admirando-os e procurando conhecer mais dos seus segredos &#8211; eu não entendia bem aquele gosto pelos pássaros nas gaiolas, mas&#8230; -, depois voltava pra casa trazendo uma verdura ou outra coisa qualquer que lhe desse na telha, algumas vezes levava uma rosa pra mamãe, e ela gostava e acabava desculpando suas faltas. Foi assim que aprendi o sentido da feira e ainda hoje saio às vezes pra ver os peixes, os temperos coloridos, as medidas das bacias e dos lotes, as flores da xepa, que sempre levo pra casa.  </p>
<p>Na ´confusão´ da feira, como faz também o poeta, você acaba aprendendo a ver as coisas pequenas, as metonímias que compõem uma atmosfera maior. Aprende a reconhecer frutas não com a etiqueta do supermercado mas com aquele que trabalha com elas e vive delas e sabe sobre elas o mínimo necessário ao seu ofício. É uma troca sempre o ir à feira, é um diálogo que vai do cumprimento ao seu vizinho que acabou de passar por você e os olhos se cruzaram fora do elevador até o contato com as linguagens diversas presentes, a fala da sedução, os regionalismos, as gírias e toda uma gama de construção enriquecedora.</p>
<p>A feira no museu também nos deu isso. Foi de fato um &#8221;dia de festa&#8221;, como sugere a raiz da palavra latina <em>feria</em>. E os livros modificaram o cenário da primavera carioca.</p>
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