Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)

(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)

É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha “primeira” vida literária.
Devo também esclarecer que, na verdade, não me concebo como um “escritor de laboratório” ou, como parece uma tendência actual, um “escritor de conferências, seminários e capas de revista”. O que eu sou como escritor resulta, desde logo, de todas as minhas vivências.

“A linha da poesia é a linha da vida”

O verso em epígrafe fecha o meu poema “Manifesto”, incluído pela primeira vez no livro Todas as Palavras. O mesmo resume, digamos assim, a minha atitude estética.

Não tenho dúvidas de que o meu ambiente familiar me ajudou a encontrar os caminhos que tenho trilhado, quer na vida quer na literatura. Sou filho de um jornalista e nacionalista – Aníbal de Melo – que um dia me disse que eu, se quisesse escrever, teria de ler Eça. Felizmente, obedeci-lhe. Além disso, tenho dois tios maternos que fazem parte da história da literatura e das artes plásticas angolanas (além da luta nacionalista): Henrique Guerra e Mário Guerra, ambos ligados à revista Cultura.

Começei a escrever aos 15 anos de idade, por causa, como gosto de dizer, de uma viagem de comboio. O que aconteceu é que, numa viagem entre Luanda e Malanje, a visão espantosa e exuberante da floresta tropical no Morro do Mbinda, perto da hoje cidade de Ndalatando, impressionou-me de tal maneira que, no regresso a casa, começei a escrever de repente, até hoje.

Em 1973, com 17 anos de idade, publiquei os meus primeiros textos, numa revista luandense chamada A Semana Ilustrada. Nesse mesmo ano, fui para Coimbra estudar Direito, depois de ter concluído o segundo ciclo no Liceu Salvador Correia, em Luanda. A viagem para Lisboa, no paquete “Vera Cruz”, é uma das minhas memórias mais fortes. O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Coimbra e, a partir daí, a minha vida entrou num processo de transformações absolutamente radicais, proporcionando-me uma série de experiências extraordinárias.

Após o 25 de Abril, conheci em Coimbra o escritor angolano Manuel Rui Monteiro, a quem mostrei os meus primeiros poemas. Ele interessou-se em publicá-los em livro na editora Centelha, mas isso nunca chegou a suceder. Outras urgências me chamavam, assim como a todos os jovens angolanos de então.

Voltei para Angola no dia 1 de Dezembro de 1974, obedecendo mais uma vez à voz do meu pai, que me telefonou de Luanda logo depois de ter regressado do exílio onde tinha estado de 1961 a 1974, combatendo pelo MPLA. Respondia também, juntamente com outros jovens angolanos que, na altura, estudavam em Coimbra e Lisboa, a um apelo de Agostinho Neto, líder do MPLA. Foi a minha primeira viagem de avião. Uma curiosidade: viajei com um bilhete arranjado pelo major Melo Antunes, a pedido do falecido médico e nacionalista angolano Arménio Ferreira.

No dia 8 de Março de 1975, começei a trabalhar na então Emissora Oficial de Angola (hoje Rádio Nacional), como jornalista. Estive na referida estação até Março de 1978, quando fui para a agência de notícias de Angola, ANGOP, primeiro como director adjunto e depois como director geral. Em Dezembro desse ano, passei também a dirigir o Jornal de Angola, em regime de acumulação. Tinha então 23 anos de idade.

Exerci esses cargos até 1982, ano em que fui trabalhar para o MPLA, como chefe da secção de Informação Internacional. Dois anos mais tarde, regressei à ANGOP, desta vez para abrir o escritório da agência no Brasil. Estive nesse país de Abril de 1984 a Dezembro de 1991, como correspondente de imprensa. Foi um período ao qual devo muito, em termos de crescimento humano, profissional e cultural. Aproveitei, inclusive, para me graduar e pós-graduar em Comunicação.

No início de 1992, já de regresso a Luanda, fundei a primeira agência de comunicação e lançei o primeiro jornal privado angolano do pós-independência, respectivamente, a Movimento e o Correio da Semana (este último não existe mais). Em Setembro de 1992, nas primeiras eleições realizadas em Angola, fui eleito deputado pelo MPLA, função que mantenho até o presente, pois fui reeleito no ano passado.

Desde 2000, começei a dar aulas de Comunicação em duas universidades locais. Há três anos atrás, voltei a lançar-me numa aventura jornalística: criei a revista África 21, que dirijo, com o apoio fundamental do jornalista português Carlos Pinto Santos.

Este, resumidamente, o meu percurso pessoal até agora. Não tenho dúvidas de que todas as minhas vivências e experiências estão presentes, de múltiplas formas, na minha obra literária. Eu tive a ventura de protagonizar ou acompanhar alguns acontecimentos extraordinários dos últimos 50 anos, em Angola e no mundo, o que, para um escritor, é uma benesse inegável.

Vivências, experiências e literatura

Confesso que tenho vivido, até agora, de maneira profunda e intensa, mas sem grandes alardes e procurando sempre, pretensiosamente, manter o controlo (para os que crêem nisso, sou virginiano). Como digo em “Auto-retrato em 3×4″, “Aqui esteve alguém que / silencioso / colheu o doce segredo das tempestades”.

Também já tive algumas perdas. O meu pai morreu em circunstâncias trágicas, apenas seis dias depois da independência de Angola, pela qual fez todos os sacríficios. Depois da morte dele, dediquei-lhe um poema, “Contribuições para a definição de um herói”, onde escrevi que “herói também é / o que escolhe o seu tempo de morrer”. Tenho pena, até hoje, de não ter convivido mais tempo com ele, embora o meu padrasto, com quem cresci, sempre tenha sido, de facto, outro pai para mim e o meu irmão, Kiluxa.

A morte deste último (ele chamava-se António José, mas lembrar-me-ei dele para sempre como o Kiluxa, “nosso único guerreiro”, que enfrentou os zairenses e os sul-africanos, mas morreu inesperadamente em Luanda, por doença, aos 49 anos) foi outra grande perda, que ainda sofro presentemente. Enfim, perdi alguns amigos, assim como velhos amores e numerosas paixões.

Mas ainda tenho a minha família: a minha mulher, Stella, “meu novo amor para sempre”, os meus filhos, Helena, Solange, Mário e Matári, a minha mãe e o seu marido, João Gourgel, meu segundo pai, os meus irmãos, os meus sobrinhos, os meus tios e todos os meus primos. Não esqueço igualmente os meus amigos. Como sou um optimista e acredito na generosidade humana, estou convicto que são muitos. Quanto aos inimigos, apenas me dão mais vontade de continuar vivo e interventivo, política, cultural e socialmente.

Além disso, convivo, por força das múltiplas actividades com as quais estou envolvido – jornalismo, literatura, política, publicidade e ensino -, com uma série de homens e mulheres de todas as idades, profissões, estatutos, nacionalidades e origens. Todas as pessoas com quem, por uma razão ou outra, me tenho cruzado ao longo da vida estão presentes, de qualquer forma, nos onze livros de poesia e quatro de contos que publiquei até este momento.

Obviamente, as minhas vivências e experiências, por si só, não fazem de mim um escritor. Eu sempre intuí isso, mas aprendi-o de uma forma elaborada com Luandino quando lhe entreguei, em 1987, o meu livro Poemas de Amor. Disse-me ele:-”Literatura é mais do que experiência”. Felizmente, “captei a mensagem” e fiz várias mudanças no livro, eliminei alguns textos e reelaborei outros, até que, dois anos depois, o mesmo foi publicado pela União dos Escritores Angolanos.

De Luandino aprendi ainda outra lição: para escrever, é preciso ler. Confirmo que devo muito às minhas leituras. O primeiro deslumbramento aconteceu quando li na casa de Rui Mingas em Lisboa, em 1970, a Antologia da Poesia Negra de Expressão Portuguesa, organizada por Mário de Andrade. A poesia de Agostinho Neto, António Jacinto, Viriato, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Craveirinha e outros, a que tive acesso pela primeira vez nessa altura, revelou ao então adolescente de 15 anos qual o caminho a seguir.

Angola é o chão de onde eu, orgulhosamente, venho. É desse lugar (como se sabe, lugar é perspectiva) que eu falo com o mundo. Mas também aprendi rapidamente que, embora fiel à tradição literária angolana, sobretudo no que diz respeito à relação entre a literatura, a história e a sociedade, era preciso e possível começar a falar com o mundo de outra maneira. Além de tudo o que vivi, duas leituras foram fundamentais para mim, nesse sentido: António Ramos Rosa e João Cabral de Melo Neto. A elas juntaram-se, mais tarde, as de Saramago, com a sua literatura reflexiva, e a do brasileiro Ruben Fonseca.

“Eu sou deste mundo e deste tempo”, escrevi há muitos anos, num dos meus livros preferidos, Canção do Nosso Tempo.

Um comentário em “Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)”

  1. paulino says:

    ola eu sou o paulino lukoki da costa eu sou um amante da literatura e não só, gosto muito dos livros de joão melo
    foi mandado pelo meu professor fazer um trabalho importantissimos em uma das suas obras por isso e que estaria grato se me envia se por imail a biografia completa do joão melo

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