“Tristeza não tem fim, felicidade sim” … Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana. Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os Materiais.. de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. Actu sanguíneu (2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda, também seu primeiro livro publicado, e Há prendisajens com o xão – O segredo húmido da lesma & outras descoisas (2002), pela Caminho, são os outros dois. É importante lembrar que Ondjaki, aos 31 anos, já tem doze obras publicadas, entre elas as premiadas Bom dia Camaradas (2001), E se amanhã o medo (2005) e Os da minha rua (2007). Para saber mais sobre suas produções, visite www.kazukuta.com
Em Materiais para confecção de um espanador de tristezas (2009), encontramos um trabalho que mistura gêneros e propõe um desaprender com as palavras. Convocando outros poetas para olharem juntos o chão do mundo e do próprio sujeito, Ondjaki constrói uma obra lírica de muito boa qualidade. O poema “Corpo” enuncia: “em cima do que foi olhado pela poesia/ estendo o meu luando/ empresto meu corpo ao chão/ e adormeço.”
Para melhor apresentar Ondjaki e sua nova obra aqui no Sararau, entrei em contato com o escritor e pedi uma entrevista, gentilmente concedida via email. Conversamos um pouco sobre poesia, os Materiais.. e a vida. Para as perguntas, busquei inspiração também em Clarice Lispector e seu livro “De corpo inteiro”, com entrevistas a grandes artistas. “O que é o amor? Qual é a coisa mais importante do mundo? Vale a pena escrever? Você tem medo?..” são algumas das questões que eu e Clarice fazemos a Ondjaki. Ele responde a todas essas e muito mais.. Leia na íntegra:
CF - O que é poesia para você?
Ondjaki – Acho que é a poesia que eu leio, que eu gosto de ler, não a que eu faço. A que eu faço fica demasiado pouco-boa, demasiado estranha, para vir a senti-la como poesia. Pode ser – e oxalá que assim seja – que um dia isso se altere. A poesia para mim é a frase que emociona. Também posso olhar para o seu requinte, o seu bom gosto, a sua filosofia, a sua mensagem, mas sobretudo gosto que me agrade, que me acrescente, que me arrebate. Que me sonhe. Que me deixe sonhar.
Sabe, não posso falar em termos universais, nem isto que vou dizer é uma consideração muito preparada, mas acho que Manoel de Barros é poesia. Quase todas as suas frases são poesia. Não me incomoda a tautologia, nem rítmica nem ao nível de conteúdos, pelo contrário: acho que ele sabe o que está a fazer (por um lado); e por outro, acho que ele nem sabe bem o que tem estado a fazer, a dizer, e é por isso que ele me parece um poeta-mesmo. Um poeta verdadeiro. Mas houve frases do músico Adoniran Barbosa, e até momentos cantados, que também me cheiram a poesia, isto para falar de brasileiros. A poesia do angolano Ruy Duarte de Carvalho, embora muito mais elaborada em termos linguísticos, numa busca que é interna mas que é também antropológica, essa poesia é muito boa, muito profunda. Não tenho a mínima dúvida, quando olho a poesia do Ruy, que aquilo é poesia. E quando não tenho dúvidas, quando a sinto tão limpa, importante, profunda, seca, séria, divertida, ternurenta, forte, intensa, então não me restam dúvidas, estou perante um poema…
A poesia também está nos olhares. Sobretudo nos olhares dos velhos e das crianças. Há algo de muito semelhante na inocência do olhar de uma criança que sempre me lembra a candura do olhar dos velhos. Como se ambos seres conseguissem verdadeiramente sorrir pelo lado menos complicado da vida, a criança porque ainda não teve que passar por isso, o velho porque já não se quer preocupar com isso. Então brota a inocência. O mesmo nas mãos: as mãos das crianças e dos velhos são poemas abertos, fáceis de ler, fáceis de encontrar. Nem sempre fáceis de interpretar…
CF – Vinícius de Moraes, em Samba da bênção, cantou que “pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ se não não se faz um samba não”. Você diria o mesmo da poesia?
Ondjaki – Há qualquer coisa de nostálgico no interior, no útero, do poema… Há qualquer coisa de humano, e cá dentro do que é humano, muitas vezes, o sangue se move pela força do que não se explica. E às vezes o que não se explica, embora possa não ser totalmente triste, muitas vezes é um pouco melancólico…
Na poesia de Manoel de Barros (é interessante) eu não encontro tristeza. Apenas nostalgia, saudade do berço quotidiano da infância, saudades de uma chão que lhe fugiu dos pés e que agora ele invoca para se devolver à vida-que-já-foi. Isso é bonito. Mas não é triste.
Em Fernando Pessoa acho que há tristeza. É uma tristeza tão grande e profunda que não chega a ser evidente. É a tristeza do poeta que mistura a saudade do passado com a do futuro, só que em Pessoa, acho eu, isso foi mais longe: Pessoa tinha saudades da pessoa, das pessoas, que ele ainda não tinha sido…. Isso intensificou a sua poesia ao ponto de ancorar o que fossem os sentimentos humanos que ele usava. Com “ancorar” quis dizer “transformar em âncora”, e âncora contraditória: uma âncora que navegasse. Pessoa navegava em si e nos outros, nos mares e nos tempos, tanto que teve que se desdobrar para melhor se expressar…
Talvez sim… No fundo mesmo, haja um bocadinho de tristeza em cada poeta…
tinha aprendido que era muito importante
criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar
o cinzento. não munido de nenhum
artefacto alegre, inventei um espanador de
tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava.
In: Materiais.., p. 7
CF – Como se processa em você a criação?
Ondjaki – Acho que é quase sempre através de esperas. Esperar. Ir sentindo, através da vida, das leituras, das sensações, e depois esperar que a escrita, isto é, o eco desses sentires, apareça em formato literário. É por isso que às vezes a boa estória aparece sob o formato de conto, ou poema, ou livro mais extenso. Mas é com as esperas que funciono melhor, e depois juntar a isso as músicas que eu já sei que provocam emoções boas para escrever. E o milagre vem…
CF – Quando é que você começou a escrever?
Ondjaki – Devo ter começado com os meus cadernos, não eram diários porque não escrevi todos os dias, mas eram cadernos de coisas sérias e internas, de queixumes e rotinas, e depois começaram a aparecer poemas. Também alguns contos. Deve ter sido a partir de 1990… (Mas isso nunca se sabe, a pessoa começa a escrever quando começa a sentir um mundo de um jeito diferente – pressentindo coisas pequenas que não sabe explicar, que não sabe dizer… E isso um dia irrompe, de dentro para fora, e uma urgência nos faz descobrir o caminho. Essa urgência é a escrita… talvez.)
CF – A crítica (literária) constrói?
Ondjaki – Costumo levar a sério a crítica que me diz algo que seja sério. Que eu note (ou pense) que veio de leituras e comparações sérias. Se não, nem me afecta. Nem a boa nem a má. Desconfio dos elogios exagerados, levo-os pouco a sério. E tenho uma tendência para valorizar o que é a crítica mais negativa, também porque me parece mais séria, mais sentida. Banalizo um pouco os elogios, enfim, ainda que sejam muito sinceros, não acho que venham acrescentar grande coisa.
CF – Qual de seus livros você mais gosta? Por quê?
Ondjaki – Não há um. Realmente não há. Talvez um dia, não sei. Tenho um carinho muito especial pelo “Bom dia Camaradas”, foi um livro escrito sem tempo nem pensamento, não tive muito tempo para o preparar, tudo nele é instinto ou memória. E entreguei-o rapidamente, não fiz o longo e habitual (agora é habitual) trabalho de revisão de que tanto gosto. E é sobre a minha infância, sobre a minha Luanda e os meus camaradas professores cubanos. Sinto que tenho por ele um carinho muito especial, sendo que é também o meu primeiro romance.
Acho que o outro seria o “Quantas madrugadas tem a noite”, até ao momento o livro que me deu mais trabalho, que foi um desafio literário muito intenso. Custou e foi bom ao mesmo tempo. Doía e dava prazer descobrir a estória, lutei muito para chegar ao ritmo certo de contar a estória, e a meio dela senti que estava certo. E isso é bom, não para dizer bem do livro, é para dizer que é uma sensação fantástica estar a escrever e saber que o ritmo faz parte da estória, e que eu estava muito confortável com aquele ritmo.
CF – Que livro de literatura você gostaria de ter escrito? Por quê?
Ondjaki – Não sei… Mas deve haver algum, ou alguns… Continuo a achar que o “Cem anos de solidão” é um grande livro. Acho mesmo. Hoje em dia já está na moda criticar esse livro, tudo bem, não me incomoda isso, continuo a ver nele alguma originalidade no formato, no ritmo e nos conteúdos. E se o comparo com outro livro (“O amor nos tempos de cólera”), do mesmo autor, escrito tantos anos depois, sinto a mesma coisa: são dois livros muito bons. E este segundo que refiro é mais difícil ainda, por ser uma estória simples, digamos assim, estruturalmente. É uma estória de amor e de espera, o que intensifica o amor dos personagens e o suspanse do leitor.
Hoje já não, mas durante muito tempo, nessa altura do início dos anos noventa, julguei que queria escrever livros como “O solitário”, de Eugene Ionesco. Hoje já não, mas sinto que foi uma grande influência, voltei a esse livro muitas vezes.
Mas não posso dizer, neste momento, que exista um livro concreto que eu gostaria de ter escrito…
CF – Nesse seu novo livro de poesia, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, você dialoga com inúmeros outros escritores: Luandino, Guimarães, Drummond, Adélia, Mia Couto, Borges, Arlindo Barbeitos, Manoel de Barros.. Quais influências você teve desses e de outros autores?
Ondjaki – Essa coisa da influência é mesmo um mistério. Para mim. Há pessoas que pensam que se trata de um segredo, no sentido de que o escritor conhece o caminho da influência, e muitas vezes não o quer revelar… Não se trata disso. Este livro tem a ver com quotidianos, com sentires momentâneos, nem sequer se pode dizer que seja, como um todo, um livro temático. Bom, talvez haja “a noite” ou “a madrugada” como pano de fundo, não sei… Mas o que há de influência é algo maior e mais recuado, talvez: Luandino Vieira, Mia Couto, Manoel de Barros, sempre me passaram a ideia (assim eu os li) de que, com alguma imaginação e coerência, e sobretudo descobrindo a voz e um ritmo próprio, tudo era possível em literatura.
Onde eu encontro a minha voz mais única, é nos livros “Bom dia Camaradas”, “Os da minha rua” e “AvóDezanove…”, aí há um ritmo que é mesmo meu, pelo menos é que sinto por agora. Nos outros livros, é uma espécie de linguagem literária, a que “me aconteceu”, digamos assim, para escrever essas estórias. Neste livro de poemas “materiais para…”, eu não sei como descrever ou explicar a linguagem. Nem deveria tentar, para quê explicar a poesia?
A influência está mais nos livros do que nos autores. São os livros que nos emocionam e ensinam. E a vida também, em eco acordado do que sempre se vai sonhando… São as obras e os ritmos desses autores que me acompanham, e acompanham-me muito, muitas vezes, mesmo quando não escrevo.
A literatura e as palavras já me salvaram muitas vezes do abismo da tristeza.
CF – O chão vibrante da poesia de Manoel de Barros (também o de Mia, o de Guimarães..), que já aparecia ressignificado em Há prendisajens com o xão (2002), volta a ser explorado, fuçado, por você e sua linguagem própria, carregada de tristezuras e de afeto. O que te atrai no chão?
Ondjaki – O que me atrai no chão deve ser a sua capacidade germinadora, no sentido não só da semente, mas também do sonho; e a sua dimensão de lugar aberto, que contém sem reter, que educa sem viciar, que te solta sem te abandonar. Assim entendo a palavra chão: lugar sagrado de criaturas humanas e outras, ponto de reencontro de sensações e sentimentos. Talvez por isso o chão seja a casa de tantos poetas, e dos pés descalços, e o lugar das sombras, e do pó das asas das borboletas, e o lugar onde com suor o camponês deixa a semente para vir a saber da colheita…
O meu chão poético é esse, o da esteira (luando), o das crianças correndo, o da poeira de Luanda, o chão verde de esperar as chuvas e de autorizar a passagem e a cantoria das rãs. O que me atrai no chão é que tem tanto a ensinar à Humanidade..
O INÍCIO [1/7/02]
segui a lesma. a baba dela parecia um rio de infância
perdido no tempo. escorreguei no tempo.
nesse rio havia um jacaré. a fileira enorme de dentes
lembrou-me uma pequena aldeia cheia de cubatas [talvez a
aldeia de ynari];
adormeci na aldeia.
ouvi um barulho – era a lesma a sorrir.
o sorriso fez-me lembrar um velho muito velho que
escrevia poemas. os poemas eram restos de lixo que ele
coleccionava no quarto ou no coração das mãos.
abracei o velho. quase que eu esborrachava a lesma.
In: Materiais.., p. 13.
CF – Quantas estórias tem cada poema seu?
Ondjaki – Não sei… Nem sempre sabemos. Nem sempre sei. Há poeminhas simples e poemas cheios de segredos… Há de tudo. E há também as estórias que os outros vão sentir ou inventar ao ler o poema… A beleza é essa, a extensão do labirinto sensorial, depois da criação…
CF – Quanto da sua poesia está nas suas estórias? (Me lembro aqui do último conto de Os da minha rua, p. exemplo. as lesmas do seu chão estão lá. a serem olhadas. Há um lirismo especial nas suas narrativas.)
Ondjaki – Tudo na vida são vice versas, vice versos, vide versos… Brincriações, como diria o camarada Mia Couto. A pessoa é a mesma, os mundos é que se desdobram… Quanto mais tempo passe, melhor se verá o labirinto. E eu escrevo muito com coisas e pessoas de verdade, tiradas da minha vida afectiva e familiar, os meus amigos, as minhas ruas, as minhas luandas, e mesmo o que invento vem cheio de sentimentos e sensações que vi, vivi, olhei para recontar… é normal que o labirinto se vá revelando aos poucos.
CF – Estão nos seus versos também, o tempo inteiro, Luanda, a Huíla, o Lubango, Benguela.. A poesia te ajuda a apalpá-los?
Ondjaki – A poesia me ajuda a combater as saudades. A prosa também. É verdade que invoco lugares e pessoas para não estar sempre longe deles, porque muitas vezes estou fisicamente longe de algumas dessas referências afectivas… A poesia me ajuda a sonhá-los mais perto…
MANIPULAR A GRANDE ARDÓSIA [9/8/02]
quando olhei o céu do lubango inundado de estrelas lindas,
o meu coração lembrou joão vêncio, suas estrelas
amorosas. todo um makulusu literário me inundou as
veias. imaginei um desenho para o luandino:
tropeçando entre as estrelas, dois compadres se abraçavam
em bebedeira: mais-velho e joão vêncio, o triste e o melancólico,
apertavam a noite nesse abraço [a imaginária imagem
era do foro do senhor chaplin].
manejando a ardósia do universo, tudo poderia ser alterado.
por exemplo:
fazer o joão vêncio pontapear uma estrela apagada até ela
se acender de novo; embebedar de alegria sulista o maisvelho
até abrandar as tristezas dele.
[...]
se eu soubesse manejar a palavra etecetera pedia licença à
noite
e terminava este poema assim: etestrelas…!
In: Materiais.., p. 24
CF – O que é que você desejaria para Angola?
Ondjaki – O desenvolvimento, obviamente. Foi para isso que o povo angolano lutou pela independência nacional, e é o objectivo social de todos os povos. A igualdade possível, a diminuição da pobreza extremada, porque algum pobreza sempre existirá, existem pobres na Suiça e na Suécia, no Japão, etc. Mas aqui vivemos ainda uma dimensão de pobreza extremada que é preciso extinguir urgentemente.
O que eu mais desejo para Angola é que um dia venha a ter lideres que possam compreender e dar total prioridade à resolução dos problemas da maioria das pessoas. E em Angola a maioria das pessoas tem problemas básicos: nutrição, alimentação, ensino e saúde.
Estou convencido que as principais bases de uma revolução, e precisamos sempre de revoluções (ainda que sejam pacificas), se conseguem a partir do desejo de educar a população. Educando, alimentando, tornando o povo livre para pensar e decidir. Obviamente que os políticos raramente querem isso…
CF – Você escreve de manhã, de tarde ou de noite?
Ondjaki – Sobretudo escrevo de noite. Espero os seres e vozes que habitam as madrugadas, os barulhos pequenos, e as ambiências nocturnas que me trazem ou acalmia ou inquietude… É de noite que pratico melhor o meu desassossego…
CF – Ondjaki, para você, a noite é o tempo da poesia? (Lendo os Materiais.., me sinto no meio da noite, mesmo que esteja lendo de dia.. “A noite seres” e “Imitação da madrugada” – os dois momentos da obra – parecem convocar o leitor para olhar o chão que está dentro, mais fechado, por isso mais noturno..)
Ondjaki – Devo ter escrito muita coisa de noite, sim… Também me acontece, raramente, sentir a poesia em outras horas… Este livro é muito nocturno sim, cheio de ecos que me chegavam de madrugada. Aliás adoro essa palavra que parece estar sempre lânguida e deitada…
CF – Um dos últimos poemas do livro traz velhos e novos sentidos para “Essa palavra margem”. Bem, no famoso conto de Guimarães Rosa, o medo do filho em assumir o lugar do pai na canoa é sem dúvida uma das imagens mais significativas. Eu pergunto: você tem medo da terceira margem?
Ondjaki – Não tenho medo… Também, na realidade, (e no sonho…) ainda não conheço bem essa que seja ou virá a ser a minha terceira margem, mas não tenho medo, tenho curiosidade… Uso abrir os livros de Guimarães (ou “Man Guimas”, como diria um certo Adolfo Dido…) como abro os livros de Clarice, em jeito de por-acaso, em jeito de espera, para respirar ou descobrir outras respirações… Adoro a palavra margem, prima-como-irmã da palavra varanda, ou maresia… E acho que gosto de espreitar as margens das pessoas e dos livros…
CF – Fora sua vocação indiscutível, diga-me: vale a pena escrever?
Ondjaki – Não sei se vale a pena escrever. Vale a pena sonhar. Vale a pena escrever um livro no qual se crê. Vale a pena ser honesto com uma estória, isto é, deixar as palavras sangrarem o corpo da imaginação do escritor ao sabor dos ventos internos depois da imaginação falada para ser pensada como pensamento e ritmo de escrever o que às vezes foi sonhado para ser falado mas que vira palavra de parágrafo estético de pedaços da vida também do escritor e dos seus personagens…
Vale a pena escrever a vida em pedaços de livros…
CF – Ondjaki, para você, qual é a coisa mais importante do mundo?
Ondjaki – São as pessoas. Seguramente. Elas englobam a amizade, o companheirismo, a ternura e os momentos vivos e humanos que nunca saberemos explicar nem descrever. As pessoas é que são o mundo, bichinhos e poemas incluídos nesse mundo… As pessoas são a minha bússola, e esse é o meu único medo de morrer no dia que isso vier a acontecer: não poder mais estar com as pessoas, e abraçá-las, e saber delas, e rir com elas…
As pessoas. As ideias, as comunicações inventadas a fingir que sabemos mostrar aos outros que gostamos deles. As pessoas, partículas bonitas, humanas, movediças e calorosas, do que usamos chamar mundo…
CF – O que é o amor? Qualquer tipo de amor.
Ondjaki – Talvez o amor seja sabermos estar… Assim como saber estar é saber dar-se, e saber buscar o que no outro nos faz crescer. Companhia. Respeito. Sexo. Ousadia. Rebeldia. Amizade. Companhia. Talvez o amor seja sabermos compreender o outro para voltarmos a nós em paz.
CF – Diga alguma coisa que me surpreenda.
Ondjaki – Esta questão é muito difícil. Não sei o que dizer… Portanto vou silenciar-me por aqui…
Que bela entrevista! Ao ler tanto as perguntas quanto as respostas tive a sensação de estar lendo um belo poema, um poema real, com personagens reais que através das palavras trazem os sonhos para a realidade. Gostei muito do primeiro fragmento e achei incrível a construção “espanador de tristezas”. Meus parabéns a Ondjaki pelo talento e pela coragem de sonhar. Professora, meus parabéns pela sua maravilhosa entrevista e um grande abraço!
Ana Cléia
A entrevista é mesmo muito poética, bonita… gostosa de ler…
Contudo, ainda não conheço esse novo livro de poesia do Ondjaki, mas posso falar do “Há predisajens com xão”, cujos poemas revelam um eu-lírico em profundo estado de comunhão com a natureza (o mundo) para se autoconhecer.
Parece-me que essa essência poética se mantém no “Materiais para confecção…” Espero poder ler brevemente.
Enfim, parabenizo Claudia Fabiana pela bela entrevista.
Um abraço,
Srta C.
Ondjaki é um grande escritor. Sou estudiosa da poesia de Manoel de Barros e fiquei, incomensuravelmente, encatada com a poiesis de Ondjaki. Quero ler a obra desse autor. Parabéns poeta e professora pela entrevista. (rosidelmapoeta@yahoo.com.br).
Rosidelma, obrigada pelo poeta. E de fato você vai adorar conhecer o trabalho de Ondjaki. “Os da minha rua” (contos) está publicado no Brasil pela editora Língua Geral. Os livros de poesia você pode encomendar pela Livraria Cultura, de SP. http://www.livrariacultura.com.br
E visite sempre o nosso Sararau.
Um abraço,
Ana Cléia, vc é uma leitora especial. Saboreie a literatura de Ondjaki!! Saudades suas!!
Bjss
Srta. C., já tínhamos nos falado antes, mas agradeço mais uma vez o seu comentário. E sinta-se sempre em casa nesta casa que é o Sararau.
Outro abraço,
Cara Claudia,
primeiramente parabéns pela entrevista. Como sabes sou leitor e tenho por pesquisa a literatura brasileira da segunda metade do século XIX. Contudo tenho me aproximado dos textos das literaturas portuguesa e africana, e o resultado é uma impressionante busca por mais e mais. Ondjaki é para ser lido e sentido. “os da minha rua” é qualquer coisa de notável.
parabéns pelo Sararau… belo movimento de escrita e leitura, aproveitando a modernidade e suas possibilidades…