Por Inocência Mata
(A professora Inocência Mata, grande pesquisadora das literaturas africanas e professora da Universidade de Lisboa, autorizou a divulgação no Sararau do texto publicado originalmente no Semanário Angolense, Luanda, n.300, 17-24 de janeiro de 2009. Também em http://www.semanario-angolense.com/home/ Agradecemos mais essa colaboração.)
“In no other country on Earth is my story even possible.”
“My presence on this stage is pretty unlikely.”
(Barack Obama)
Ultimamente temos sido confrontados com uma série de textos “a propósito” de Barack Obama: artigos de opinião de africanos que decidem reflectir sobre a África com passagem pelos Estados Unidos. Exercício intelectual desafiante, mas que se responde aos propósitos da autoria, revela-se, em muitos casos, bastante temerário na sua mensagem. Ou até faccioso.
Uma das categorias mais resgatadas do caso Obama para discutir a realidade africana (em Angola ou em Moçambique por exemplo) é a questão da “raça”. Todos sabemos que raça, sendo categoria discursiva, é uma construção político-social, operando a representação de diferenças que funcionam como marcas simbólicas (como cor da pele, textura do cabelo, características físicas e corporais, etc) – não uma categoria biológica. Portanto, poupemo-nos do discurso pseudopedagógico sobre esta questão e discutamos o essencial: e o essencial é que declarações de boas intenções sobre o ideal não são performativas, isto é, não transformam a realidade concreta. E a realidade concreta, histórica, é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas.
E é aqui que começa o meu mal-estar quanto ao muito que tem sido dito sobre a “questão racial”. Um deles reporta-se ao facto de muitos que hoje celebram Obama serem os que começaram por dizer que a “questão racial” era uma falsa questão porque Barack Obama não era negro, mas sim mestiço e – pasme- se! – “crioulo”. Ora, como se sabe, esta – crioulidade – é uma noção inadequadamente empregue, de forma descontextualizada, referindo o processo de mestiçagem em Angola e que aparece como “´royalty´ ou penhor da colonização (…) que intenta a legitimação de um qualquer direito histórico de ressarcimento, por inapagáveis memórias de tempos de discriminação biológica, interdição cultural e proscrição política”i dos africanos tratados como “portugueses-outros”. Com este discurso de neutralização da importância desta questão, encaminhava-se oportunamente para a relativização do que representa, nos Estados Unidos, a eleição de um presidente negro quando, como lembrou o próprio no seu discurso de tomada de posse, há menos de 50 anos, o seu pai não seria servido num qualquer bar – apenas por ser negro. Subjacente está o estafado discurso do mérito, como se o mérito fosse um absoluto sem laços nenhuns com a realidade, funcionando, deste modo como noção que busca desqualifi car as desigualdades, as assimetrias e as discriminações, e acabando por concorrer para a naturalização de uma situação de desequilíbrio sem qualquer questionamento sobre a condição subalterna dos sujeitos que fazem parte do segmento não representado nas instâncias de poder, em todos os seus circuitos: social, económico, etnocultural, racial.
Relacionada com esta questão está uma possível discriminação de Barack Obama caso ele fosse um candidato africano, como refere Mia Coutoii no seu tão celebrado artigo de opinião. Se muitos duvidam da possibilidade de um Obama africano por não ser negro talvez seja por não terem conhecimento do que vem acontecendo em África, nomeadamente com Jerry Rawlings, ex-presidente do Gana, filho de pai escocês; Seretse Khama Ian Khama, presidente do Botswana, filho de mãe inglesa; Fradique de Menezes, presidente de São Tomé e Príncipe, filho de pai português. Além de que, conviria não esquecer, o próprio não se consideraria negro – considerar-se-ia diferente e pertencente a “outro” grupo. Por isso, quanto a este aspecto mais facilmente haverá um Obama africano do que um Obama europeu (e escusado será dizer que provavelmente não haveria uma primeira dama negra). Por outro lado, e como disse mais do que uma vez, podem ser traçados paralelismos entre a presença do negro na Europa e do branco em Áfricaiii . E se formos honestos, concordaremos quanto à muito maior visibilidade deste do que daquele. Assim sendo, porque será mais grave não haver um Obama africano do que não haver um Obama europeu? Além disso, olhando para os meandros do poder em muitos países africanos (sociais e culturais, quando não económicos e/ou militares), como falar de “marginalização e discriminação” de um segmento que, mesmo minoritário, se move no topo de uma pirâmide social?! Estranha discriminação! E sobre discriminação, acreditem, não sou apenas espectadora intelectual – sou catedrática!
O perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira. Por isso, convém relativizar a frase de Obama segundo a qual a sua história só ser possível na América. Em muita África tem sido possível: isto é, a presença de «outros» na ciranda dos muitos poderes (porque se teima em reduzir o poder à esfera política?). Convém que as convicções ideológicas não turvem a análise cultural e científica.
i Leonel Cosme, «Crioulos e Brasileiros de Angola», Lisboa: Novo Imbondeiro, 2001. P. 57
ii Mia Couto «E se Obama fosse africano?», Semanário «Savana», Moçambique, 14 de Nov 08
iii Inocência Mata, «Na África Negra» tudo caminha para o «inversamente» – Semanário Angolense, nº 290, 8-15 de Novembro de 2008
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Foto: Inocência Mata