Ainda aproveitando as férias, estive no evento literário “Boca de Baco”, que está acontecendo aos sábados na Livraria Odeon, na Cinelância. Na estréia, além de lançamentos de livros e leituras de textos, houve uma oficina de narrativas breves com Marcelino Freire. Tive oportunidade de conversar um pouco com o escritor, já pretendia apresentá-lo aqui no Sararau e no quente dia 17 o encontro foi feliz.
Tenho lido alguns escritores brasileiros contemporâneos e, sem sombra de dúvida, Marcelino Freire é um destaque entre tantas linguagens e estilos da nova geração. Seus Contos negreiros me prenderam desde o primeiro instante, levei-os para a sala de aula, para as rodas com amigos, e a cada leitura crescia o impacto da linguagem direta, da pontuação cotidiana, do silêncio significante. Como pequenos socos no estômago que, em uma seqüência permanente, machucam pra valer, os contos são curtos, grossos e cantam em tom irônico-mordaz histórias de um Brasil nada heróico. “Brasil, do meu amor. Terra de nosso sinhô.” são os versos da epígrafe. Logo depois, na apresentação do livro, Xico Sá avisa: “É doce, mas não é mole não”.
Marcelino Freire é pernambucano, tem 41 anos e desde os 23 vive em São Paulo, onde se diz um “estrangeiro”. Com a obra Contos negreiros, publicada em 2005 pela Record, ganhou o prêmio Jabuti de literatura na categoria contos. Angu de Sangue (2000) e Balé Ralé (2003), pela Ateliê Editorial, e seu mais recente Rasif – Mar que arrebenta (2008), pela Record, são outros livros do gênero eleito pelo escritor. Os títulos sugestivos apontam uma marca de Marcelino: escrever a partir de experiências de seu local de origem, colocando em cena personagens e histórias marcados pela exclusão. No nosso bate papo, Marcelino explica que Racif é a origem árabe do nome Recife e que Pernambuco significa “mar que arrebenta”, em tupi-guarani. Suas narrativas nascem exatamente daí.
Histórias que acrescentam, vale lembrar, ao debate sobre a aplicação da lei 10639. Contos negreiros, por exemplo, é uma obra que se insere em um projeto de ensino em diferentes níveis. Cabe ao professor conhecer o material para melhor utilizá-lo.. ..O blog do escritor é um excelente espaço para se obter outras informações: www.eraodito.blogspot.com
..No evento do Odeon, Marcelino leu o conto “Trabalhadores do Brasil”, que transcrevo abaixo. Faço uma sugestão: leia-o mais de uma vez, principalmente em voz alta.. Perceba o discurso, as ambiguidades, as possibilidades de leitura.. É realmente ”mar que arrebenta”..
“Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?
Enquanto a gente dança no bico da garrafinha Ode trabalha de segurança pega ladrão que não respeita quem ganha o pão que o Tição amassou honestamente enquanto Obatalá faz serviço pra muita gente que não levanta um saco de cimento ta me ouvindo bem?
Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar 1 passe ou 2 na praça turbulenta do Pelô fazendo sexo oral anal seja lá com quem for ta me ouvindo bem?
Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando de cima da ponte ta me ouvindo bem?
Hein seu branco safado?
Ninguém aqui é escravo de ninguém.”
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Foto: Claudia Fabiana
Olá Claudia,
Gosto muito dele!
conheci o Marcelino na FLIP de 2004 e comprei o “Angu de sangue”. Excelente livro…vou procurar pelos “contos negreiros”.
Abraços
Êita, ta é boa pra indicar boas leituras, ein! Já conhecia os Contos Negreiros, mas não os tenho em mão. Ótima pedida de auto-presente. Valeu!!! Beijos
Obs: Devorei o de Lucinda e Alves numa tarde. Muito bom….
Giselle e Fabiana, já considero Contos negreiros bibliografia indispensável nos meus cursos.. Fabi, também é excelente material para novas propostas didáticas..
Bjs, bjs