Elisa Lucinda e a Casa Poema

Estou de férias desde as vésperas do Natal e só agora volto a escrever no Sararau e a pensar em projetos no novo ano.. Tenho caminhado todos os dias, respirando o verão e observando belas e diversas paisagens do Rio: a orla da zona sul, a arquitetura e o movimento do Centro, as miudezas do Saara, os labirintos do Grajaú, a lua cheia nos casarios de Santa Teresa, a Lagoa com olhar a 360˚, o bairro da Urca, a minha própria rua. Ainda ontem fui à Casa Poema, bem aqui ao lado. Descobri o lugar no ano passado e há muito me prometia passar por lá para conhecê-lo.

A Casa Poema abriga a Escola Lucinda de Poesia Viva, criada pela poeta e atriz Elisa Lucinda em 1998. Ela oferece cursos e oficinas de poesia falada para adultos e crianças durante todo o ano. A idéia é mostrar que a poesia está no cotidiano e ler, falar um poema pode ser muito prazeroso e enriquecedor. Juliana Garcia, uma das professoras da equipe de Elisa, conversou comigo durante a minha visita e reforçou a proposta da escola: “Falar poesia sem ser chato”. E comentou que além das aulas despertarem situações curiosas de aprendizado, os recitais organizados ao final de cada curso são sempre motivadores de novas experiências. Há aqueles que sempre dizem em tom de descoberta: “Mas poesia é legal mesmo!”

A falsa idéia de que poesia é algo chato vem principalmente de uma educação desvinculada da realidade e do prazer de ler e de estudar. Metodologias ultrapassadas, aulas descomprometidas com a formação intelectual e raros acessos aos bens culturais, tanto por alunos quanto por professores, são alguns dos fatores que contribuem para o afastamento da poesia das escolas e da vida. É certo que há aqueles que gostam mais do gênero e outros não. Contudo, todos deveriam experimentar, certamente há prazeres a serem descobertos.. Eu, por exemplo, nunca vou me esquecer da minha avó preparando o almoço e eu sentada na mesa da cozinha lendo Fernando Pessoa. Ela balançava a cabeça toda vez que discordava de um verso, e depois falava de cor ”O pássaro cativo”, de Olavo Bilac. Quanto ensinamento em uma simples manhã da minha adolescência..

Fiquei surpresa quando descobri uma afinidade de Elisa Lucinda com o poema de Bilac. Ela conta essa e outras histórias em uma conversa com Rubem Alves sobre poesia e educação, publicada recentemente pela editora Papirus, no livro chamado A poesia do encontro (2008). O bate papo dos dois percorre veredas poéticas que nos ensinam caminhos novos e nos fazem recuperar estradas antigas. O livro traz ainda um DVD do encontro, o filme “Poesia à vista”, que serve inclusive como material didático.

Para quem não conhece a poesia de Elisa Lucinda, posso dizer que ela é também outra experiência de encontro e renovação. Desde o seu poema “Aviso da lua que menstrua”, que me foi apresentado pela Cinda, professora especial da graduação, e que vibra na voz da minha amiga Fabiana, admiro o trabalho da poeta, sua linguagem e seu compromisso com a transformação. Entre os livros publicados estão O semelhante (1994), Eu te amo e suas estréias (2003) e A fúria da beleza (2006).

Enfim, aí estão as primeiras dicas de 2009. A Casa Poema, Escola Lucinda de Poesia Viva fica na Rua Paulino Fernandes, 15. Há workshops que acontecerão na última semana de janeiro. O site da casa é www.escolalucinda.com.br . Lá você encontra outras informações e todo um histórico do trabalho de Elisa Lucinda e sua equipe. E.. para ficar um gostinho de quero mais, ouça “O poema do semelhante”, faixa do CD “O semelhante”, em download a partir do site da Escola Lucinda.

4 comentários em “Elisa Lucinda e a Casa Poema”

  1. Fabiana Lima says:

    Que bom que vc ta de férias, Claudia, porque, andando pelo RJ, pode nos brindar com a pérola que li. Já comprei o livro, comecei e lê-lo e estou aqui vendo a conversa de Elisa e Rubem, dois poeta-educadores que falam muito sobre mim, sobre nós, amantes de poesia e de um olhar lírico pelo mundo. Parabéns!!!! Um grande beijo

  2. Ah, Fabi, a melhor parte do estar de férias é a calma para olhar as coisas com cuidado, saboreando as bordas.. Na correria do trabalho quase não temos esse tempo..
    O livro/ encontro entre a Elisa e o Rubem é ótimo realmente.. E você foi rápida, já comprou e já está devorando tudo.. Maravilha, fico muito feliz que o meu texto tenha chegado bem.. Bjs, bjs

  3. Cristina Nacif Alves says:

    Claudinha, minha querida…
    Concordo que “a falsa idéia de que poesia é algo chato” vem mesmo de uma educação desvinculada da realidade e do prazer de ler e de estudar. Mas não considero a metodologia ultrapassada, porém voltada apenas para o desenvolvimento de competências e habilidades. É preciso saber ler e bem, mas não é preciso saber pensar sobre o que se lê (que o ler bem em minha opinião), tampouco permitir ser afetado pelo que se lê. Peno que a eliminação da tradição oral e das rodas de leitura (metodologias antiga, mas nada ultrapassada) seja a maior responsável pela mudança no curso do conhecimento – atualmente, visto de forma pragmática e instrumental e não mais como possibilidade de superação de problemas concretos da humanidade.
    Todavia, acredito: há salvação! Ao ler seus textos, me sinto de volta às práticas narrativas tão presentes na minha infância e responsáveis pelo meu vício e total dependência da leitura, ao ouvir suas histórias me inscrevo de novo nos círculos de leitura onde formei minha visão de mundo e minha capacidade de problematizá-lo… Por isso, repito: há salvação porque ainda há pessoas que fazem a diferença na formação de tantas outras.
    Você é mesmo muito especial! Obrigada por ser minha amiga, Cris

  4. Cris,
    concordo que as rodas de poesia e projetos ligados à leitura são atividades fundamentais.. Quando falo em “metodologias ultrapassadas” me refiro àquelas que estão principalmente nas escolas, associadas a currículos desatualizados, livros didáticos equivocados, o ensino de língua e literatura como regras distantes dos textos e da realidade, professores descompromissados, aulas chatas e desestimulantes etc.. Nós sabemos a importância do planejamento e da transposição didática…
    Continue visitando o Sararau.. Sua contribuição faz diferença..
    Bjs, bjs

Comente