Por Augusta ÉTT
“Eu nasci na ponta-da-praia
por isso trago dentro de mim
todos os mares do Mundo”
(Ovídio Martins)
Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco… poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do cuidado, do esmero que é a ação do ritmo, da seleção criteriosa das palavras; as rimas, as imagens… e outras mil estratégias de textualidade lírica _ os ditos recursos estilísticos.
No falar e no escrever próprios dos cabo-verdianos, numa cultura herdeira e conviva da tradição oral, eis que a musicalidade intrínseca ao contar das estórias e do bater do pilão, do batuque e do finason, dos choros das visitas de pêsames e dos rituais matrimoniais, torna-se mana da arte da palavra. Tudo são poemas: ditos, cantados ou chorados. Versos que ora beiram à epopeia em memória do morto, ora lhe lastimam a saudade. Embalado pelo mesmo Mar que leva os bilhetinhos de saudade e os suspiros salgados das cristas das ondas, o homem crioulo é e se faz com o outro um pouco… poeta.
São dizeres de recomendação na despedida da nubente, logo antes das cerimónias oficiais – noiba ba sentu (noiva no assento); e, mais tarde, na bênção de acolhida dos noivos à casa dos ancestrais, após as cerimónias oficiais do “Registo” ou do “Religioso”. Vejamos um momento de noiba na sentu de improviso. O texto foi recolhido no interior de Santiago, em meio a cantares de batuque, acompanhados de palmas ritmadas e a seguinte melopeia:
Kazamentu ê mel / Kasamentu ê fel /Txora! / Noiba na sentu ê bonitu.(…) /Kazamentu ê grandi! /
Pensa dretu, bu bá d’um bês / Mara bu korda séku, boita-l / Boita-l na nkunhal di bu kasa (…)
Deus libra-u di amizadi fingidu / Deus libra-u di kumida kumprádu (…) /Deus ba bu dianti! /
Nossa Senhora di bem kazadu pega-u na mô, / Deus faze-u mudjer filis y honrada!


Casamento é mel, Casamento é fel. /Chora sim, chora porque casamento é coisa grande!/
Amarra bem a tua corda, faz um nó cego e dá-lhe voltas: /E prende-o, no “nkunhal”da tua casa.(…) /
Que Deus te livre de amizade fingida, /E que Deus te livre de comida comprada.(…) /Deus te guie, /
Nossa Senhora dos bens casados te segure pela mão /Deus te faça mulher feliz e honrada!
Estas são imagens que ilustram a idiossincrasia cabo-verdiana: antes do casamento, a nubente, sentada no meio de uma roda feita de mulheres de todas as idades, escuta suas vizinhas e familiares, antes de sair, pela última vez como solteira, da casa onde nasceu.
Nas fotos acima, após o casamento civil, a nova família é recepcionada, em ritual tradicional, que inclui discursos dos pais, padrinhos e outros familiares mais velhos – a benção. A passagem do pano, tal qual nas danças tradicionais, é, ao mesmo tempo, razão de alegria e de apreensão: alegria pela confiança depositada e apreensão pelo sentido de responsabilidade. Nos rituais do matrimónio, o pano traz alívio por simbolizar proteção dos mais velhos; mas também a emoção no assumir da continuidade dos valores das famílias de origem, que são legados à nova família.
Tal como o casamento, todos os rituais dos ciclos de vida são momentos de poesia: gravidez, parto, festa de guarda cabeça , festa de cristão, batismo, noivado, casamento e morte. Os rituais tradicionais possuem gestos próprios, indumentária própria, gastronomia própria, mas, principalmente, palavras próprias! Diga-se o mesmo das festas de função e de todos os momentos importantes da vida social e de lazer do povo das ilhas.
Do Pelourinho na Ribeira Grande de Santiago, símbolo da repressão mas também da resistência, à dança e música contemporâneas, convido você, caro leitor, a nos acompanhar nas estórias e outras manifestações culturais detse país, onde a palavra se faz arte. Deixemos os itálicos em itálico, pois serão motivos para as próximas viagens. Descubramos juntos um Cabo Verde Crioulo, onde tradição e modernidade se completam. Tudo é poesia acalentada pela musicalidade dos sete mares do Mundo.
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Fotos: José Teixeira
Cláudia e Augusta,
a troca cultural se adianta ao meu blog!!! Bom para o público que adianta o contato com outras visadas e paisagens que nos chegam pela “voz e letra” da verdiana Guta.
BjSi