Durante os quatro dias em que estive em Porto de Galinhas, no início do mês de novembro, procurei pelo maracatu e não o encontrei. Era inconcebível, pra mim, ir a uma “festa literária” em Pernambuco e não ouvir um maracatu ou não dançar uma ciranda. No fim da tarde de domingo, antes de voltar ao Rio, fui atrás dos tambores e dos abês em Recife. Os deuses confabularam sempre em meu favor e entre tantas pessoas maravilhosas que estiveram comigo em Porto, eles me apresentaram à professora Noemi Araújo, com quem fui à cidade evocada por Manuel Bandeira. A cidade dos poetas, sem sombra de dúvida.
Misturados aos sons das alfaias vindos de praças e esquinas, os poetas vão tocando seus ganzás literários, são erês que circulam entre as gentes e brincam e riem e falam coisas sérias. Conheci pelas mãos de Noemi um em especial, irradiando luz nas andanças que fizemos pelas ruas de Recife: Jomard Muniz de Britto.
Mas como falar de Jomard? Difícil, pois ele é como o maracatu, por mais que se tente defini-lo, só estando bem próximo do batuque para sentir o ritmo pulsar nas batidas do coração. É preciso ler e ouvir Jomard, é preciso degustar Jomard, com ou sem manifestos verdes, azuis ou vermelhos. Já sinto saudades dele e de seus “atentados poéticos”, distribuídos às mais diferentes gentes, há muito tempo…………….. Ele é multi muita coisa desde os anos 60: professor, intelectual, engajado, escritor, performático, cineasta, agitador cultural, poeta.. Seus textos, de inúmeras linguagens, falam de um mundo em retalhos, é o contemporâneo fragmentado e por vezes (quase) inteiro, tornado em colcha. Sua “obra-em-processo” está sempre, porque, como já escreveu o próprio JMB, “poeticidade é o nômade”.
Alguns de seus trabalhos podem ser conhecidos através do endereço www.myspace.com/jomardmuniz . Lá na seção Sararau deixo o atentado que recebi naquela noite de domingo, noite de maracatu, de “zabumba de bombos”, de “estouro de bombas”, que me fez lembrar poetas, pernambucanos, Bandeira, Jomard, e o Ascenso, quando pergunto e respondo, com este, “Luanda, Luanda, onde estou?… Luanda, Luanda, onde estás?… Cantigas de banzos, Rangir de ganzás….”
_______
Foto: Claudia Fabiana