Cabo Verde: terra do ka tem?

Por Augusta ÉTT

Didikason:
Pa: Zé, Clarissa y Isabel
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:
  Mar di nha Pêtu*

O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.
                                                                           
Onésimo Silveira

Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do Ka tem prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra moldada e criada por Deus, como foram outras terras. Não foi o barro que deu forma, onde depois se fizeram terras… terras onde há chuva e há fartura; onde a chuva vem sempre e quando vem não mata a gente; essas são terras feitas por Deus Nossenhor. Cabo Verde teria sido _ diz o povo _ dez respingos de lama que o Pai do Céu sacudiu após seis dias de trabalho. Dez dedos sujos de um barro desorientado, das duas mãos celestes, fazem cair, no meio do mar: da mão esquerda o Barlavento e da direita o Sotavento. Obra do acaso.

Entre 1460-1462 navegadores portugueses descobrem dez ilhas e cinco ilhéus que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Dois grupos de ilhas e uma superfície de 4033km2, com um clima tropical seco. Foi nesse balão de ensaio que teve vez uma das experiências mais espantosas de miscigenação na era moderna.

Na formação da nação cabo-verdiana deve-se considerar que, para além de ter sido um achado, Cabo Verde teve, desde os primeiros momentos da sua história, a característica de ser um (não) lugar de encontros, de intercâmbio e de miscigenação de povos, de culturas e bens comerciais. Um não-lugar habitado por ninguém cuja posição estratégica intercontinental permitiu a utilização das ilhas, primeiramente a de Santiago, como entreposto comercial.

Homens livres e cativos da Europa e da África continental, pertencentes a diferentes povos, em contacto entre si e com os europeus, em sua maioria portugueses, deram origem ao homem da terra, na designação de Elisa Andrade, desde o início, um mestiço.

O homem da terra falou e ainda fala a língua da terra, resultante, ela também, do caldeamento cultural, segundo João Lopes Filho. O cabo-verdiano, língua, como todos os cabo-verdianos, cidadãos, tem um nome de registo que é seu nome oficial (Língua cabo-verdiana) e um nome “de casa” (Crioulo). Ele convive, num contexto linguístico de diglossia, com a Língua Portuguesa, desde que atingiu maturidade como sistema linguístico independente. É o veículo privilegiado de transmissão de saber e cultura. O Crioulo foi o principal ingrediente da caboverdianidade, um terceiro produto cujo passado remonta ao presente, da época, e faz da bipolaridade entre as africanidades e o Ocidente uma simbiose sui generis. 

A música e os contos tradicionais, por exemplo, utilizam o Crioulo-Cabo-verdiano. E mesmo a Literatura considerada erudita, clássica, dialoga, desde a Claridade e mesmo antes dela, com a língua de berço. A cultura que essa língua, ao lado do português, transmite é multicolorida e diversificada. Tão rica e tão específica que, em alguns momentos da história das ilhas, ela é tomada como referência, alento nas adversidades e factor de união inter-ilhas e com a diáspora.

Diversidade cultural, diversidade natural, união na adversidade… foram ingredientes que compuseram uma nova visão sobre Cabo Verde: uma nação rica, de confiança no verde do seu nome, cor da esperança que é – o que é.

É sobre Cabo Verde, sua literatura e cultura que pretendemos falar. De uma nação que faz de suas fraquezas força e de sua pobreza um desafio, aos deuses e aos homens; do teimosamente continuar de pé, com Ovídio Martins e outros nomes da literatura das ilhas.

Venha conhecer os flagelados do vento leste, que morrem e ressuscitam todos os anos. Homens e mulheres que conjugam a seca com a esperança e a pobreza com a coragem, sem perder a Morabeza! Terra do Ka tem? Não, porque há sempre um crioulo inventando um poema diferente, como quis Onésimo.

O seu interesse e contribuição serão um estímulo.

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Fotos: José Teixeira e Augusta ÉTT
* Tradução: “Este trabalho é dedicado ao Zé, à Clarissa e à Isabel, que são o meu Chão, o meu Céu e o meu Sol. E são também o Mar, onde o meu coração se banha.”

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