Cena 1:
Estudávamos o Romantismo e as gerações de poetas. O livro didático (Português: Linguagens, de Cereja e Magalhães), indicado pelo PNLEM e distribuído pelo Ministério da Educação, trazia a repetitiva seqüência: o nacionalismo de Gonçalves Dias, o ultra-romantismo de Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela, o condoreirismo de Castro Alves. No capítulo “A poesia condoreira”, uma nota intitulada “Consciência negra” começava assim: “Nas últimas décadas, os negros brasileiros perceberam que a luta iniciada por Castro Alves (ironicamente, um branco) deveria ser levada adiante.” Paramos na frase. É incrível como uma só frase podia trazer tantos equívocos: a pressuposição de que Castro Alves iniciou uma luta, quando ele foi um entre tantos abolicionistas; a idéia de que apenas nas últimas décadas os negros perceberam que deveriam lutar por liberdade, justiça e afirmação de seus valores, quando resistiram desde sempre, desde que foram forçados a sair de suas terras africanas; o próprio discurso do preconceito entre os parênteses.
Após muitos questionamentos, apresentei brevemente para a turma o poeta Luiz Gama, contemporâneo de Castro Alves, mas que sequer é citado nos manuais didáticos. Filho de um português e de Luísa Mahin – africana da nação Nagô, desaparecida por se envolver com causas de libertação de escravos, como a Revolta dos Malês -, Luiz Gama foi advogado, abolicionista, escritor e deixou uma contribuição riquíssima para a história e a cultura brasileiras. Ora, diferente do que o livro dizia, inúmeras produções de negros e mulatos marcaram também o século XIX e o período enquadrado como ‘romântico’.
Cena 2:
Foi aí que um aluno lembrou: “Professora, o nome da rua aqui do lado da escola é Luiz Gama”. Fantástico, pensei. Daí sairia o trabalho que eu pedi que fizessem. Será que as pessoas que circulam por essa rua sabem quem foi Luiz Gama? E os alunos do Ferreira Viana, que ficam nas calçadas nos intervalos, “de bobeira” como diziam, já teriam se perguntado sobre quem foi aquele que dá nome à rua? Talvez algum morador soubesse, talvez.
A turma deveria então: pesquisar sobre a vida e a obra de Luiz Gama e fazer um vídeo com a rua como mote para apresentação do poeta. O trabalho envolveria toda a turma, sendo avaliada também a capacidade de pensarem em grupo e de administrarem conflitos, respeitando as diferenças de opiniões. O vídeo seria apresentado na Semana de Tecnologia da escola.
Cena 3:
O trabalho foi feito com prazer pelos alunos. Aprenderam juntos, no diálogo e na divisão de tarefas. Aprenderam se divertindo. Descobriram que em espaços fora dos muros da escola se pode aprender muito, às vezes nem tão longe assim, como a rua ali do lado. Descobriram novos sentidos para a rua dos que matam aula, para a escola e para a vida. O vídeo foi exibido esta semana, no evento de tecnologia da escola. Vejam o resultado do filme “Rua Luiz Gama”, também disponível no Youtube.
Gostei muito da idéia de publicar suas experiências em um blog, assim outros professores e educadores perceberão que não é tão complicado a inserção da Lei e dos conteúdos, já que as culturas africana e dindígena fazem parte da nossa cultura.
O trabalho realizado foi criativo e como você relatou o envolvimento dos alunos é que o tornou atrativo, dessa forma o conteúdo ganhou uma nova roupagem e ficou mais próximo do aluno. E a literatura é assim simples, assim fácil.
Vou ficar atenta à todos os artigos.
Maravilha de site, porque, pelos recursos é muito mais que um blog…
Só uma educadora de mancheia, com olhar sobretudo poético do mundo poderia sacar o quanto a atividade proposta daria pé. O quanto é importante também trabalharmos sob uma outra perspectiva, mais aberta, mais engajada, mais comprometida com a transformação social, a partir da leitura de vários textos, sejam eles escritos ou não. Parabéns por tudo!!!!! E welcome à nova fase da sua página virtual. To adorando isso, gente!!! (rsrsrsrsrsrs) Grande beijo
Fabi e Tânia, vocês sabem que às vezes reclamamos um pouco da vida, mas se nós não nos motivarmos pra torná-la mais interessante e produtiva, o tempo passa e muita coisa se perde. Precisamos aproveitar tudo, da melhor maneira, começando por dividir os textos, tecidos, de nós próprios. E com esses novos recursos da tecnologia, a gente brinca!rsrsrsrs
Brincar é muito bom. Brincar falando sério é melhor ainda…
Espero vocês sempre por aqui.
Obrigada, obrigada,
O video do pessoal do Ensino Médio ficou ótimo,parabenizo você e os seus alunos pelo incentivo a pesquisa.Devemos conhecer a fundo o lugar onde moramos e nada melhor do que pesquisando e tendo essa relação corpo a corpo com os moradores. Fiquei muito satisfeita de saber que você está montando um blog e servirá como experiências para nós futuros docentes de Literatura. Parabéns pelo ótimo trabalho!!!!
Luciana, já já você concluirá seu curso de licenciatura e estará lecionando no Ensino Médio. Acredito que um caminho importante na prática docente é o da pesquisa tanto pelo professor quanto pelos alunos. Porque se, por exemplo, Luiz Gama não está no livro didático, o professor precisa conhecê-lo e levá-lo para a sala de aula.
Boa sorte na sua nova jornada e conte com o sararau para trocar idéias.
Bjs, bjs
Foi uma experiencia muito interessante fazer esse trabalho. Mesmo com a má vontade de algumas pessoas que se negavam a nos ajudar, o calor infernal no dia da gravação e alguns pequenos desentendimentos entre o grupo, o que é normal quando se tem discutir várias e idéias e escolher apenas uma, nosso trabalho ficou maravilhoso.
Pessoal, o Paulo foi um dos diretores e editores do filme. Ele não apareceu na gravação, ficou em off, foi na verdade o “cabeça” da turma, sua participação foi FUN-DA-MEN-TAL!!!!
Parabéns, Paulo, a você e a toda a turma!!!
Um comentário: fantástico! Parabéns.
Muito bom. Parabéns aos alunos e a professoa.