O Sararau acaba de receber a notícia do falecimento nesta terça-feira, em Paris, do professor Michel Laban, grande pesquisador das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, com uma obra de referência na área, como a série Encontro com escritores – Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, em um total de 9 volumes. Há algum tempo, dedicava-se também à elaboração de um dicionário de regionalismos e de neologismos de inúmeros escritores estudados. Parte desse trabalho vinha sendo publicada em revistas e periódicos. Em um desses momentos, encontramos, por exemplo, os sentidos dados por José Craveirinha à palavra belecar. Vejam:
” belecar: v. tr. dir. José Craveirinha, Karingana ua Karingana [1ª ed.] p. 75: “mamana Saquina beleca o filho” «KBeleca: costume tradicional de levar os bébés às costas ou na ilharga. (Para “belecar” há um pano especial que se vende nas “cantinas”, que é mais resistente. Também se utiliza a própria “capulana”.) Assim, o filho vive o dia-a-dia da mãe. Ela não o larga durante os serviços: quando está a “fazer a machamba”, quando está a cozinhar, leva-o às costas. Só faz um movimento para dar de mamar. Ela não o entrega a uma criada, não o põe num berço… O filho cresce ligado à mãe. Diz-se que aquele que não foi “belecado” não sai bom filho, porque não sentiu, não respirou as costas da mãe. Quando há um mulato que tem o preconceito de ter a mãe preta, diz-se-lhe: “Não sabes o que perdeste, por isso é que és assim – não foste belecado”… Isto é: perdeu o sentido de filho de uma mãe negra que tinha as suas próprias costas, a sua própria carne, para lhe dar uma identidade. (…)» ” (In: Laban, 2002.)
A respeito desse inventário de expressões, Michel Laban ressaltou, no mesmo artigo, também o valor antropológico de certas definições, como essa de Craveirinha, pois fala de “um mundo composto de várias raízes”, “em que alguns mulatos se voltaram inteiramente para o pai branco enquanto outros, como o poeta Craveirinha, não quiseram esquecer a mãe negra…”.
Enfim, o destaque para um dos últimos trabalhos do professor Michel Laban apenas reforça a vasta contribuição desse grande investigador que foi “belecado” pelas literaturas africanas. Prestamos aqui nossa homenagem.
Artigo citado: Laban, Michel. “Reflexões sobre a elaboração de um inventário das particularidades do português de Moçambique através da literatura”. In: Revista Veredas n˚ 3, 2002.
Cláudia,
Mais uma vez, parabéns pelo artigo. Saudades infindas do sábio Laban.
E obrigada por nos brindares com textos pertinentes e agradáveis.
Fiquei me lembrando cá comigo no prazer que é ser/estar bombudo, que é como nós chamamos lá em CV ser belecado. São tantas áfricas por esse mundo de Deus. E que bom que vc nos traz os diferentes sabores dessa nossa Mãe.
Muita força em todos os teus empreendimentos.
Mantenhas de Guta CV
Sim, bela e justa homenagem. Fizemos um minuto de silêncio, no Seminário sobre Cabo VErde que rolou na USP, em homenagem a Laban. Vou adicionar seu blog em Favoritos. Se quiserm visitar o meu, será um prazer:
http://culturaafrobrasileira.blog.terra.com.br