Paulina Chiziane marcou sua forte presença na Fliporto. Mesmo com um tempo reduzido de fala, problema recorrente nas mesas, a escritora moçambicana conseguiu elevar o debate e apresentar um pouco da sua experiência como contadora de estórias. A primeira lição que aprende, diz ela, vem da máxima popular “Quem conta um conto aumenta um ponto”. A questão estava exatamente em “que ponto acrescentar depois de tudo o que inúmeros outros escritores já fizeram”. E pensa: “Primeiro preciso conhecer o que se conta. E o que se conta foi construído basicamente pelo masculino. Depois preciso tirar o véu. Eu tiro o véu quando faço as minhas leituras. Por fim vou ficar com a minha tradição oral.”
Tirar o véu é uma prática constantemente necessária, afirma Paulina. Desde o primeiro acesso que tem da escrita, com a Bíblia sagrada, percebe que havia algo de errado quando lia o livro de Gênesis e encontrava ali um Adão negro e várias Evas. Faltava algo nessa escrita feita por homens, que “quando enumeram a mulher, falam do seu ponto de vista”, muitas vezes apresentando-a como um corpo-objeto. Em tom provocativo-reflexivo, Paulina lança uma pergunta aos integrantes da mesa, todos homens: “Que direito têm os artistas de me despirem em literatura?”
Alguns apelaram para o romantismo como saída, mas o fato é que Chiziane não faz um discurso feminista rotulado, para ela “o que está em causa é a desigualdade das relações entre as pessoas”. Por isso, desde o seu primeiro livro, Balada de amor ao vento (1990), problematiza um cotidiano africano cheio de tradições e relações injustas entre homens e mulheres.
As próprias mulheres sustentam muitos preconceitos, lembra Paulina. Como exemplo, “a letra da canção da mulher moçambicana, escrita por mulheres, mas que coloca a mulher em condição subalterna”. Daí a necessidade de “tirar o véu”, como reforça a todo instante.
Um trecho de Niketche: uma história de poligamia (2002). Com ele, Paulina Chiziane ganha o prêmio José Craveirinha, em 2003. É o único romance da escritora até agora publicado no Brasil, em 2004, pela Companhia das Letras. Para Paulina, o sucesso de Niketche talvez esteja exatamente na “descoberta do feminino”.
“Meu Deus, ajuda-me a descobrir a alma e a força do meu rio. Para fazer as águas correr, os moinhos girar, a natureza vibrar. Para trazer ao meu leito a luz de todas as estrelas do firmamento e deixar o arco-íris mergulhar-me em toda a sua imensidão.
Sou um rio. Os rios contornam todos os obstáculos. Quero libertar a raiva de todos os anos de silêncio. Quero explodir com o vento e trazer de volta o fogo para o meu leito, hoje quero existir.”
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Foto: Claudia Fabiana
Paulina tem todo o meu apoio em tirar o véu e mostrar como e qual é a posição do homem e da mulher. Não a desigualdade!
Não ao preconceito! A mulher tem ganhado seu espaço na sociedade e mesmo assim o preconceito ainda existe em alta, é bem verdade que usam o romantismo como desculpa para despir e minorizar a mulher colocando-a apenas como um objeto de desejo e uma boneca satisfatória. Desculpe se fui muito feminista, pois não foi esta idéia.
Tirar o véu é uma metáfora linda e muito, muito potente, porque podemos, na medida dos nossos desejos, tirar o véu, em termos feministas ou femininos. Se dou a minha versão das histórias e estórias, como o faz Paulina em seus romances, tiro o véu do controle social masculino baseado na submissão feminina. Contudo, e me parece que essa é a maneira mais interessante de se tirar o véu, se escolho me despir e dançar o nickete para o homem que desejo, uso meu corpo de maneira feminina e a meu exclusivo bel prazer. Por isso, tirar o véu é um ato erótico e transformador, nas medida em que tenho a opção de escolher. Uso o meu corpo para protestar ou sentir e propagar prazer. Gostei, viu? Continue publicando sobre a feira em Porto de Galinhas, porque se as notícias de lá já começaram com um véu que se tira, imagino o resto… (rsrsrsrsrsr) Retribuo o abraço largo e terno!