“Via plantas de cana
com sua cabeleira, ou crina,
muita folha de cana
com sua lâmina fina,
muita soca de cana
com sua aparência franzina,
e canas com pendões
que são as canas maninhas.
Como terras de cana,
são muito mais brandas e femininas.
Foram terras de engenho,
agora são terras de usina.”
(João Cabral de Melo Neto)
Desembarquei no aeroporto de Recife às 6h30 da última quinta-feira, dia 6 de novembro, e fui direto para Porto de Galinhas, participar da Fliporto, “festa literária” que destacou as literaturas africanas e latino-americana. No caminho, meu primeiro encontro com uma paisagem que só conhecia nos livros: os canaviais. É essa paisagem que para mim marca os quatro dias que passei por lá. Quando fecho os olhos e penso em Porto vejo a cana nos dois lados da estrada e um painel pintado com as trilhas por ela deixadas. Também penso no Amir Klink, mas essa é outra história.
Seu Guilhonel, pernambucano, conhece bem as trilhas da cana e me explica, já na volta, que a queimada faz parte do processo do corte e que o cheiro desagradável que eu senti num fim de tarde vem do vinhoto, a parte tóxica da decantação da cana. Nas usinas, a cana é moída e o caldo fervido. Do melaço sairá o açúcar, mas o vinhoto, espécie de espuma acima do melaço, será pulverizado no terreno, espalhando um cheiro forte na área. É a ironia de tudo na vida, a junção do doce e do amargo.
Pergunto a ele como estão as condições de trabalho na região, diz que os bóias-frias continuam e que a mecanização nas usinas se, por um lado, facilita o trabalho, por outro gera desemprego. Mas para seu Guilhonel o grande problema ainda é o alcoolismo, muito mais uma questão de fome. Lembro de João Cabral e da “Morte e vida severina”, em tempos outros, mas ainda o mesmo. Lembro de Ferreira Gullar e do açúcar “branco e puro” que ainda é produzido por “homens de vida amarga/ e dura” e continua a adoçar cafés “em Ipanema”.
Acho que por isso tudo, quando penso na festa, penso na cana. A Fliporto também me mostrou contradições. Muitos escritores de peso, grandes nomes da intelectualidade, encontros e homenagens históricas, ótimos patrocínios, mas falhas grosseiras na organização e ausência de um público maior de estudantes e comunidade local. Nos próximos artigos, vamos conversar um pouco mais sobre.
Por ora, quero destacar a aula espetáculo de Ariano Suassuna, que nos conta estórias, convoca memórias e nos apresenta artistas locais, como o grupo formado pelos filhos do mestre Salustiano. Mestre Salu, grande nome da cultura pernambucana, morreu este ano. Ele foi, como diz o professor Biu Vicente, da Ufpe, um “menino pobre de engenho” e aprendeu com o pai, que também cortava cana, a tocar a rabeca e a animar os bailes nos terreiros. De geração a geração cantigas do Cavalo Marinho e outras expressões culturais da região se perpetuam.
Fico com o gosto doce da rabeca e das estórias de Ariano, e junto com Thiago de Mello, que fechou a noite de abertura da festa de Porto, “Volto armado de amor” – poema lido e espalhado na paisagem:
Volto armado de amor
para trabalhar cantando
na construção da manhã.
Anor dá tudo o que tem.
Reparto a minha esperança
e planto a clara certeza
da vida nova que vem.
Um dia, a cordilheira em fogo,
quase calaram para sempre
o meu coração de companheiro.
Mas atravessei o incêndio
e continuo a cantar.
Ganhei sofrendo a certeza
de que o mundo não é só meu.
Mais que viver, o que importa
(antes que a vida apodreça)
é trabalhar na mudança
de que é preciso mudar.
Cada um na sua vez,
cada qual no seu lugar.
Fotos: Claudia Fabiana