Neste 20 de novembro, o Sararau convida a todos a um debate sobre o discurso da democracia racial no Brasil, com texto de Simone Ribeiro da Conceição (Professora do Ensino Superior, mestranda em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela UFF e colaboradora do CEACC, Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania).
NA SEMANA DA CONSCIÊNCIA, O INCONSCIENTE DA LINGUAGEM
Por Simone Ribeiro da Conceição
A linguagem revela o que se quer dizer e o que convém calar. Mais precisamente, é o inconsciente que revela aquilo que o sujeito consciente de fazer parte de um país não racista, se esmera por mascarar em seu discurso.
Nessa semana de consciência negra em pauta, destaco dois momentos da linguagem que dão voz ao discurso da diferença, retido no inconsciente coletivo brasileiro, em um ambiente democrático racial que pressupõe igualdade.
Antes dos fatos, um retorno à história. História que deu margem para a fantasia de democracia racial do cordial cidadão miscigenado, indefinido e, portanto, brasileiro. No cenário de convivência de diferentes, instaurado pós-achamento do Brasil, a ausência de segregação legal fez supor que o mesmo espaço e oportunidades foram partilhados igualmente por todos os filhos da terra. Mas, um simples passeio pelos discursos, permite ver que ao longo de nossa formação, a linguagem identifica a valorização diferenciada dos grupos étnicos formadores da amálgama social brasileira.
Fazendo uso da linguagem científico-acadêmica Gilberto Freyre “viaja” ao traduzir a harmonia da sociedade brasileira. Justificando a falta de conflitos com a “degradação das raças atrasadas pelas raças adiantadas” o discurso do teórico reforçou as raízes de um Brasil de negros e índios cordiais, mediante à superioridade branca.
O século XX trouxe como achado a idéia de que dominar os inferiores e criar lugares a serem preenchidos por seu atraso foi a receita do sucesso para uma formação social brasileira que oferece espaço para todos. Negros, índios e seus descendentes foram dominados. Acomodados em espaços de subalternidade, ajustado a seu atraso, deram sua contribuição ao progresso da sociedade. As idéias de atraso e dominação marcaram a figura dos não-brancos. Ao longo do tempo, senso comum e discurso científico, portanto, prática e teoria, sedimentaram um perfil de inferioridade dos não-brancos, que causa espanto quando rompido.
O espanto é o elo entre a linguagem consciente e a expressão do inconsciente analisada em dois discursos ouvidos séculos depois do percurso descrito acima. O grito do inconsciente projeta na linguagem do brasileiro, as amarras que prendem o pensamento do século XXI aos pré-conceitos erguidos no passado e agregados às raízes de um Brasil que condena a afirmação da diferença positiva, mas, inconscientemente, afirma um imaginário de desigualdades.
Meses atrás, ouvi de uma colega de universidade a frase: “Nossa, como você fala bem!” Mas a desagradável consciência faz ver o que intenciona ser elogio, como uma manifestação de espanto diante da capacidade de um incapaz. A experiência kafkiana do macaco fora do seu habitat, admirado pela academia. As chagas de Pedro Rubro e de meus antepassados ainda vicejam sempre que experimento estar onde não é lugar para o meu perfil. Minha habilidade surpreende uma colega que, por certo, teve por colegas, em instituições de ensino classe média, poucos colegas negros. Movida pelo impulso, a linguagem ajuda a dar visibilidade ao espanto em encontrar numa estudante negra uma qualidade previsível para qualquer estudante que atinge o degrau da pós-graduação.
A linguagem é uma ferramenta que permite provar o pensamento racista incutido nas relações sociais brasileiras. Na linguagem nossa de cada dia, empregamos um apuro para discursar com correção político-ideológica, burilando a fala para banir dela os termos pejorativos que, literalmente, condenam o usuário. No entanto, a linguagem está repleta de expressões ligadas à inferioridade característica aos pobres não-brancos. É imensa a coletânea de expressões que afirmam a depreciação daquilo que não tem os padrões que dominam o mundo e refletem a imagem dos dominadores e vencedores.
As piadas que ouvimos, os filmes que vemos e a realidade que vivemos apontam uma pobreza inata aos mestiços de pele mais negra. Em nosso inconsciente, a pele escura empurra o cidadão para a periferia do poder, da beleza, da inteligência e demais aspectos positivos. Ter consciência disso é um dever, de casa e rua, para brancos e não-brancos que produzem e reproduzem o pensamento social, na prática ou na teoria.
Na manhã que antecede o dia nacional da consciência negra, via mídia televisiva, a linguagem me presenteia com outra pérola: “A miss Angola é linda, gente!” Eufórica, a jornalista exibe seu espanto, diante de uma miss linda, como toda miss, apesar de negra. Reprimido conscientemente, o discurso racista retido no inconsciente, é projetado na linguagem redundante da apresentadora.
Produtos de seu tempo, as frases que renderam tantas linhas de reflexão são, sobretudo, reflexo do discurso enfatizado pelo pensamento social brasileiro na última década: “Não somos racistas”. A consciência que se quer afirmar publicamente não varrerá as imagens guardadas na “outra cena” freudiana ou inconsciente.
Numa sociedade que apostou na mistura e na afirmação da igualdade, separar é um crime. Distinguir e valorizar as diferenças de brancos e não-brancos, que, somadas, fazem o Brasil, é ruir. Espantado com as ações que apóiam a visibilidade e respeito às diferenças, um jornalista, como a que provocou meu espanto, e teórico, como aquele que “viajou” e redescobriu o Brasil, produz o best seller que lê a questão das divisões perigosas.
A consciência permite ao homem construir uma linguagem e distanciar-se do real, especialmente o perigo real de partilharmos o pequeno bolo dos privilégios, com a implementação de medidas que visam reparar desigualdades históricas e inserir egressos dos grupos estigmatizados em espaços “inexplicavelmente” habitados por uma minoria não-negra da população de maioria negra.
A linguagem é a embalagem daquele produto, que permanece o mesmo, mas recorre ao apelo do novo para vender. Experts no domínio do pensamento, intelectuais brasileiros do século XXI recorrem à linguagem, especialmente ao ato da designação, para produzir um discurso que, inconscientemente, afirma a existência do racismo que se quer negar. É o velho discurso da mistura, utilizado para valorizar a falta de identidade como nossa marca. Como marca do “somos todos mestiços, portanto, somos todos iguais”. Fruto das discriminações, a desigualdade econômica é elemento que renova o discurso da desigualdade. Falar de raça/etnia é desconsiderado, descabido e desautorizado pela ciência.
Fora dos centros de pesquisa, no calor do laboratório das ruas, a linguagem corporal emite discurso bem diferente. Num primeiro olhar, todo preto é pobre, e não escapa ao pré-conceito de sinonímia entre pobreza e negritude. O sorriso jocoso do manobrista é a primeira saudação de desconfiança, da qual o branco pobre e bem vestido facilmente escapa. O franzir de sobrancelhas, o olhar apertado e tantas muitas reações inconscientes da linguagem corporal acompanham quem carrega na pele o fenótipo que nos diferencia mesmo quando temos a mesma condição social.
Somos diferentes, esse é o ponto que não pode causar espanto. A condição humana é marcada pela diversidade. Afirmar a diferença e reclamar diante das desigualdades étnicas e sociais parece ser a mistura de atitudes mais cabível, para quem tem consciência de que brasileiro é construir uma identidade calcada no respeito às especificidades históricas que determinaram a posição de brancos e negros na cena e na “outra cena” da sociedade brasileira.
Adorei o texto! Não gostei de ter adorado. Queria ter lido esse texto e poder dizer: que menina desatualizada! Mas não dá pra dizer isso. Infelizmente, o texto é muito atual e pertinente. Como pode isso?
Simone,
Parabéns pelo ensaio.
Parece que, apesar de estarem longe os nossos jardins suspensos, sempre há uma mulata, negra, preta, morena, o nome que se queira dar, a desafiar o problema do Onkombe.
Escrever artigos assim nos desperta dos sonos profundos em que nos mergulhamos na era da globalização.
Devagar é certo: vamos chegar lá, dor a dor, amor a amor.
E por falar em sono, tenho muito o que aprender sobre isso.
Força!
GCV
Ainda bem que Iara Vaz perdeu sua seguidora,
ganhamos nós!
bjs