Acordei com um som estranho vindo da rua. Uma mistura de maçarico com apito de guarda de trânsito. Olhei pela janela do apartamento e parado na calçada estava um senhor com um instrumento pra lá de poético: um antigo amolador de facas. Na verdade não reconheci de imediato a peça. Foi meu namorado que me vendo surpresa disse: “Mas você nunca viu o amolador de facas?” Ora, cá pra nós, nasci na década de 70 e, apesar de ter vibrado na adolescência quando comprei meu primeiro vinil compacto, não experimentei ouvir a música do amolador. Talvez não fosse um costume na Baixada, lugar onde vivi por 20 anos, ou talvez não fosse simplesmente do meu tempo. Se pensarmos que os jovens de hoje não conhecem o toca discos da antiga, a ausência desse personagem na minha história só faz confirmar a fluidez das coisas.
Minha euforia com a inusitada descoberta naquela manhã me fez sair de casa com uma câmera fotográfica na mão e ir a procura do amolador de facas e seu carrinho. Ele não estava mais na minha rua e comecei a seguir o som que cortava o quarteirão. Encontrei-o brincando com os mecânicos de uma oficina, que respondiam com assobios à melodia tirada da máquina. Seu Giovanni, um ítalo-brasileiro de 74 anos, contou-me que já não tem tantos clientes, faz apenas pequenos trabalhos para estabelecimentos como açougues, padarias e oficinas. No entanto, resiste em cumprir seu ofício, com alegria e coragem. Para mim, ele é um amolador de memórias…
Como já cantou Paulinho da Viola, “Meu sempre me dizia/ Meu filho tome cuidado/ Quando penso no futuro/ Não esqueço meu passado.” Se pensarmos bem, hoje a maioria dos homens dançam essa “dança da solidão”, buscando encontrar a ruptura com um mundo e a tentativa de criar outro, em uma tensão constante entre vida e morte, tradição e modernidade. E, parodiando Paulinho, pensar no futuro pressupõe não esquecer as experiências do passado. Nessa nova era, marcada no ocidente por uma cultura pluralista e fragmentada, é através da memória que temos a possibilidade de refletir sobre o mundo e o tempo presente.
É assim que o amolador de facas e o poeta se aproximam, pois ao mesmo tempo que mantêm uma tradição, reelaboram práticas culturais através da troca de experiências, de traços que testemunham o passado. Quando falo em tradição refiro-me tanto ao ato de transmitir ou entregar como o conhecimento oral e escrito. A poesia, enquanto objeto dinâmico, possibilita a transformação do homem em sujeito cultural, transmitindo conhecimentos e experiências para o outro, em um processo também de resgate da memória. São as experiências do/ sobre o mundo, as histórias do sujeito e da própria linguagem encenadas nos poemas que permitirão aos poetas constituírem uma memória humana necessária à vida. Através da palavra, eles registram cenas e acenos do homem e seu tempo de fragmentação e ruína, apresentando-nos novas perspectivas de olhar o mundo. Assim, rememorar significa também desempenhar a função de unir o começo e o fim.
Que possamos ouvir ainda por muito tempo o som do amolador de facas numa manhã de sábado…
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Foto: Claudia Fabiana
Cláudia, minha melhor companheira de viagem,
Passeei pelo seu blog com o maior prazer. Adorei, as dicas, os artigos, as estórias das suas experiências em sala. Como já viajamos juntas, pude re-conhecer o seu olhar atento e sensível para o mundo que te cerca. Já virei frequentadora e vou repassar. Beijos e até o dia 4.
Teresa, minha amiga, você sabe que muitas vezes o silêncio me acompanha. Então, pensei: “Quem sabe não posso dizer mais coisas minhas, dividindo os cantinhos de outra forma?” Cá está o blog, que espero manter atualizado e conquistar sua presença.
Obrigada pelo carinho.
Bjs, bjs
Como sempre você faz o simples ser complexo, grandioso.
Se pensar bem há muitas coisas que não conhecemos ou que simplesmente esquecemos, e q. “A modernidade” tornou quase tudo descartável e o que não é está fora não faz parte do repertório Gostei muito, pretendo visitar sempre.
Como sempre você faz o simples ser complexo, grandioso.
Se pensar bem há muitas coisas que não conhecemos ou que simplesmente esquecemos, e a seu turno foi de muita importância em nossas vidas. “A modernidade” tornou quase tudo descartável e o que não é está fora ou não faz parte do repertório moderno, fora de moda. Dizem…
Gostei muito, pretendo visitar sempre.
Beijos!!!
Olá, Cláudia: Inventora de sonhos…
Que bonito o seu blog!
Como prestas homenagem ao feminino, à simplicidade, ao sofisticado _ não fosse o simples e singelo uma vertente quase, e sempre, de arte…
Que as luzes da escrita te conduzam a um encontro contigo mesmo e com os homens e mulheres do nosso tempo que, muitas vezes, se esquecem de tirar um tempo pra poesia.
Bem haja gente como vc que ainda não perdeu as graças do rimar.
Boa sorte,
Guta Évora CV
Guta, sem a poesia me perco, já nem sei mais se sou. Por isso crio, sonho sempre, recordo as estórias que a minha avó contava da sua ilha mágica.
Obrigada pelo seu carinho, por suas palavras. Não imagina como são importantes pra mim…
E espero que visite sempre essa casa, se sinta em casa.
Um grande abraço,
Olá, Professora Claudia Fabiana.
Que bom estar visitando seu blog. O que tenho a falar sobre o amolador de facas é um pouco constrangedor, principalmente vendo tanto deslumbre diante de tal figura. Na verdade quando o amolador de facas passava na rua que fui criada, uma senhora sempre dizia que morreria alguém. E ainda gritava assim: Sai peste. Ave agorenta!
O povo sempre tem algumas crendices bobas não é? O que não quero é quebrar o encanto de seu texto com esse comentário.
Certa vez em uma de suas aulas você comentou sobre um sabiá, lembra disso? Um sabiá que você viu na janela do seu quarto, tal visão rendeu-lhe um comentário mais do que poético em sala de aula. Alguns colegas após a aula fizeram alguns comentários infelizes em relação à sua atitude. Alguns acharam que era fantasia demais, uma certo deslumbre, etc. Nesse instante lembrei de um texto que você trabalhou conosco em uma aula, no qual dizia que a poesia ela está muito mais em quem a vê do que nela própria. E assim como uma maçã não tem o mesmo gosto para todos, assim é a poesia. O seu gosto está no paladar apurado de cada um, ou seja na sensibilidade de cada ser. E é assim que sempre lhe reconheci, como um alguém que inspira poesia e transpira a beleza. Assim como a beleza que você viu naquele simples sabiá, naquela tarde.
Parabéns professora por você ter esse paladar!
Sua ex-aluna Katia Tavares.
Querida e eterna profª,
eterna porque não me cansarei em sempre ser sua aprendiz…
Quando li sua estória sobre o amolador de facas logo lembrei algo inusitado que me aconteceu ano passado. Estava eu em um sítio de culturas alternativas na cidade de Araruama (região dos lagos – RJ), quando me deparei com um pé de abacaxi. Fiquei muito surpresa ao ver pela primeira vez um pé de abacaxi (risos). Ele é pequeno e nascem vários abacaxis dali, a minha idéia era completamente diferente…Como você, logo tomei minha máquina nas mãos, tirei várias fotos e coloquei em meu albúm do orkut para também compartilhar com quem nunca havia visto tal “raridade” (risos). A repercussão foi grande, pois várias pessoas ficaram surpresas por eu, aos meus 28 anos de idade, nunca ter visto um pé de abacaxi, mas houve pessoas que ficaram tão surpresas quanto.
Essa estória nos remete ao ir e vir das cidades grandes, da nossa vida agitada e sem tempo para nada. Tempo que não se vende em supermercados, nem shoppings, mas é possível reinventá-lo e usá-lo para ver e rever as simples coisas da vida que às vezes passam desapercebidas no meio de tanto corre-corre.
Grande beijo!
Danielle
Katia, também lembro do grupo achar graça quando eu de fato me arrepiava com um poema, uma estória, uma memória. Mostrava até os pelos do braço levantados, lembra? Mas é assim mesmo, muitos riem porque estranham uma maneira outra de olhar as coisas, que foge um pouco do senso comum…
Acredito que o professor-poeta com seus olhos brilhantes cativa a muitos para um sentido além do circunstancial. Eu continuo a me arrepiar sempre que o poético me comove. Sem vergonha de mostrar, como faço aqui no blog. Acredito que daí venham resultados positivos, como sua visita.
Espero que venha sempre a essa casa.
Beijos, beijos,
Danielle, outro dia soube de um rapaz que ficou impressionado com uma jaca..rsrs
Acredito que o importante é nunca perdermos o dom de ver melhor as coisas que estão a nossa volta. Posso estar com 80 anos e me deparar pela primeira vez com um pé de abacaxi, e sorrir pra ele, achar fantástico. Mas que a cada instante o fantástico me apareça e me renove a existência.
Quando leio Manuel de Barros descubro que preciso olhar mais para o chão……………
Claudia, quando li esta estória logo me lembrei da nossa sala de aula e do momento quando você a contava para a turma, que legal poder ver a foto do amolador de facas, pois também não conhecia. Fiquei com muitas saudades, pois como é gostoso lembrar de momentos bons. E a poesia nos traz isso. Um sentimento de viagem ao passado e uma reflexão para o presente e muitas outras sensações. Você é uma ótima professora e escritora. Parabéns pelo seu blog. Continue nos emocionando, mesmo de longe.
Beijos.
Eu agradeço a você Claudia, pois conseguiu me levar a uma outra época com este tão bem elaborado texto, não vou nem querer avaliar pelo contexto pragmático, mas sim pelo âmbito de como em pouco mais de vinte anos perdemos algo mais do que nossa memória, perdemos nossa liberdade. Este texto lembrou-me minha infância, onde pediamos correr nas ruas e vielas, que nós chamavamos carinhosamente de “becos”, podiamos brincar de pique pega, esconde-esconde e outras, sem nós preocuparmos com balas perdidas, venda de drogas, pedofilia e outros crimes e perigos que estão tão impreguinados nestes tempo modernos.
Digo muito obrigado por este momento de oasis em meio a tantas notícias ruins.
Cristina, você acredita que estou agora com uma mania de comprar brinquedos antigos? Pião, jogo de varetas, bola de gude, peteca, cubo mágico….. O acervo está aumentando e vou convidar os amigos pra brincar.. rsrsrs
Acho que não podemos deixar de experimentar sempre nossos melhores becos……..
Um abração!!