Da utilidade e da inutilidade da poesia

Manuel de Barros em um de seus “Arranjos para assobio” nos aponta que O poema é antes de tudo um inutensílio. Muitos teóricos e críticos da arte já se propuseram a definir o poético e a pensar na utilidade da literatura. Desde Platão e Aristóteles com a questão da arte como mimese, a Heidegger, Roland Barthes ou Octavio Paz, só para citar alguns. Hoje o debate parece se acentuar nas rodas, nas academias, nas mídias eletrônicas. Com um mercado editorial que define as regras do jogo a partir do mais rentável, o lugar da poesia fica cada vez mais à margem dos grandes best-sellers. Daí a insistência da pergunta: o que é útil na poesia?

Bem, não pretendo rever aspectos da teoria geral ou da filosofia da arte. Não me interessa aqui falar sobre o papel social do artista ou da literatura engajada nem destacar a vontade de liberdade e subjetivação românticas. A crítica que incito está ligada simplesmente à educação do homem para o sensível. Não é também uma releitura de Comenius ou de outros que pensaram em uma arte didática. É apenas um olhar para a necessidade da ciranda de palavras capazes de revitalizar o homem.

Assim, gosto muito da proposta de Rubem Alves para a questão, a partir de sua pedagogia dos sentidos. Segundo ele, o corpo carrega duas caixas: a das ferramentas, que nos dão o que necessitamos para viver, e a dos brinquedos, com coisas “inúteis”, mas que nos fazem viver mais felizes. Esta fica no coração, no ouvir as histórias dos velhos, no beber o vinho e dançar livremente… Enfim, na caixa de brinquedos que trazemos ao corpo está a ordem da fruição, a poesia, inútil “porque não é para ser usada, mas para ser gozada”.

A brincadeira, o gozo, o lúdico são necessidades humanas e coletivas. Ontem, por exemplo, o Rio esteve mais poético que nunca. Em comemoração ao dia nacional do samba, a música e a alegria estiveram por toda parte. Eu fui a Oswaldo Cruz, lugar de raízes e de poetas, “malandros maneiros”. Lugar das tias e dos quintais de terra. De portas abertas (Faz bem uma janela aberta/ uma veia aberta), moradores e visitantes só queriam uma coisa: a partilha da poesia. Em cada letra de samba, a cada batida do tambor, o gozo da alma. E como a alma precisa gozar, não é? Será que há inutilidade mais útil que esta?

Interessante ainda é ver que o gozo pressupõe uma morte e um renascimento. Mais uma vez com Manuel de Barros, Ninguém é pai de um poema sem morrer. É preciso morrer para ser poeta ou para partilhar o canto. Morrer não no sentido ocidental de fim de um período ou fase, mas na dinâmica circular do tempo mítico, cuja morte pressupõe apenas a renovação de um ciclo vital. Ora, para nos educarmos pela poesia é necessário morrer e nascer constantemente. Incorporar no nosso dia a dia a “inutilidade” da poesia. Gozar, enfim.

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