Autobiografia: A vida inteira pela frente (João Melo)

(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Idéias, 8-21 de abril de 2009. Divulgação no Sararau autorizada pelo autor.)

É muito estranho ter de escrever uma autobiografia quando ainda se espera que o caminho pela frente seja longo e quando se sente ter ainda muitas coisas a realizar. Aos 53 anos de idade, é assim, na verdade que me sinto. Como escritor, experimento actualmente uma necessidade irremediável de proceder a uma série de balanços, para ensaiar novos riscos. Esta minha autobiografia refere-se, por conseguinte, à minha “primeira” vida literária.
Devo também esclarecer que, na verdade, não me concebo como um “escritor de laboratório” ou, como parece uma tendência actual, um “escritor de conferências, seminários e capas de revista”. O que eu sou como escritor resulta, desde logo, de todas as minhas vivências.

“A linha da poesia é a linha da vida”

O verso em epígrafe fecha o meu poema “Manifesto”, incluído pela primeira vez no livro Todas as Palavras. O mesmo resume, digamos assim, a minha atitude estética.

Não tenho dúvidas de que o meu ambiente familiar me ajudou a encontrar os caminhos que tenho trilhado, quer na vida quer na literatura. Sou filho de um jornalista e nacionalista – Aníbal de Melo – que um dia me disse que eu, se quisesse escrever, teria de ler Eça. Felizmente, obedeci-lhe. Além disso, tenho dois tios maternos que fazem parte da história da literatura e das artes plásticas angolanas (além da luta nacionalista): Henrique Guerra e Mário Guerra, ambos ligados à revista Cultura.

Começei a escrever aos 15 anos de idade, por causa, como gosto de dizer, de uma viagem de comboio. O que aconteceu é que, numa viagem entre Luanda e Malanje, a visão espantosa e exuberante da floresta tropical no Morro do Mbinda, perto da hoje cidade de Ndalatando, impressionou-me de tal maneira que, no regresso a casa, começei a escrever de repente, até hoje.

Em 1973, com 17 anos de idade, publiquei os meus primeiros textos, numa revista luandense chamada A Semana Ilustrada. Nesse mesmo ano, fui para Coimbra estudar Direito, depois de ter concluído o segundo ciclo no Liceu Salvador Correia, em Luanda. A viagem para Lisboa, no paquete “Vera Cruz”, é uma das minhas memórias mais fortes. O 25 de Abril de 1974 apanhou-me em Coimbra e, a partir daí, a minha vida entrou num processo de transformações absolutamente radicais, proporcionando-me uma série de experiências extraordinárias.

Após o 25 de Abril, conheci em Coimbra o escritor angolano Manuel Rui Monteiro, a quem mostrei os meus primeiros poemas. Ele interessou-se em publicá-los em livro na editora Centelha, mas isso nunca chegou a suceder. Outras urgências me chamavam, assim como a todos os jovens angolanos de então.

Voltei para Angola no dia 1 de Dezembro de 1974, obedecendo mais uma vez à voz do meu pai, que me telefonou de Luanda logo depois de ter regressado do exílio onde tinha estado de 1961 a 1974, combatendo pelo MPLA. Respondia também, juntamente com outros jovens angolanos que, na altura, estudavam em Coimbra e Lisboa, a um apelo de Agostinho Neto, líder do MPLA. Foi a minha primeira viagem de avião. Uma curiosidade: viajei com um bilhete arranjado pelo major Melo Antunes, a pedido do falecido médico e nacionalista angolano Arménio Ferreira.

No dia 8 de Março de 1975, começei a trabalhar na então Emissora Oficial de Angola (hoje Rádio Nacional), como jornalista. Estive na referida estação até Março de 1978, quando fui para a agência de notícias de Angola, ANGOP, primeiro como director adjunto e depois como director geral. Em Dezembro desse ano, passei também a dirigir o Jornal de Angola, em regime de acumulação. Tinha então 23 anos de idade.

Exerci esses cargos até 1982, ano em que fui trabalhar para o MPLA, como chefe da secção de Informação Internacional. Dois anos mais tarde, regressei à ANGOP, desta vez para abrir o escritório da agência no Brasil. Estive nesse país de Abril de 1984 a Dezembro de 1991, como correspondente de imprensa. Foi um período ao qual devo muito, em termos de crescimento humano, profissional e cultural. Aproveitei, inclusive, para me graduar e pós-graduar em Comunicação.

No início de 1992, já de regresso a Luanda, fundei a primeira agência de comunicação e lançei o primeiro jornal privado angolano do pós-independência, respectivamente, a Movimento e o Correio da Semana (este último não existe mais). Em Setembro de 1992, nas primeiras eleições realizadas em Angola, fui eleito deputado pelo MPLA, função que mantenho até o presente, pois fui reeleito no ano passado.

Desde 2000, começei a dar aulas de Comunicação em duas universidades locais. Há três anos atrás, voltei a lançar-me numa aventura jornalística: criei a revista África 21, que dirijo, com o apoio fundamental do jornalista português Carlos Pinto Santos.

Este, resumidamente, o meu percurso pessoal até agora. Não tenho dúvidas de que todas as minhas vivências e experiências estão presentes, de múltiplas formas, na minha obra literária. Eu tive a ventura de protagonizar ou acompanhar alguns acontecimentos extraordinários dos últimos 50 anos, em Angola e no mundo, o que, para um escritor, é uma benesse inegável.

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O peso de algumas palavras

(Palestra de Pepetela na Universidade Agostinho Neto)

Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de “Oração de Sapiência”, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.

Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.

Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra engarrafamento ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou ocalor. O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada paraassaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Nãonego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa. A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana temreflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.

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A poesia de Ondjaki em entrevista

“Tristeza não tem fim, felicidade sim” … Escutava os versos de Vinícius na quarta-feira de cinzas quando ganhei o novo livro de poesia de Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas, lançado em Portugal naquela semana.  Pensei de imediato: poderá o espanador trazer de volta o carnaval? Desejo poético de foliã, claro, mas o fato é que os Materiais.. de Ondjaki trouxeram uma poesia cheia de chão e de noite.. Editado pela Caminho, esse é o terceiro livro de poesia do escritor angolano. Actu sanguíneu (2000), pela Chá de Caxinde, em Luanda, também seu primeiro livro publicado, e Há prendisajens com o xão – O segredo húmido da lesma & outras descoisas (2002), pela Caminho, são os outros dois. É importante lembrar que Ondjaki, aos 31 anos, já tem doze obras publicadas, entre elas as premiadas Bom dia Camaradas (2001), E se amanhã o medo (2005) e Os da minha rua (2007). Para saber mais sobre suas produções, visite www.kazukuta.com

CAR_4398-Ondjaki-foto-Carlos-Muyenga_BWEm Materiais para confecção de um espanador de tristezas (2009), encontramos um trabalho que mistura gêneros e propõe um desaprender com as palavras. Convocando outros poetas para olharem juntos o chão do mundo e do próprio sujeito, Ondjaki constrói uma obra lírica de muito boa qualidade.  O poema “Corpo” enuncia: “em cima do que foi olhado pela poesia/ estendo o meu luando/ empresto meu corpo ao chão/ e adormeço.”

Para melhor apresentar Ondjaki e sua nova obra aqui no Sararau, entrei em contato com o escritor e pedi uma entrevista, gentilmente concedida via email.  Conversamos um pouco sobre poesia, os Materiais.. e a vida. Para as perguntas, busquei inspiração também em Clarice Lispector e seu livro “De corpo inteiro”, com entrevistas a grandes artistas. “O que é o amor? Qual é a coisa mais importante do mundo? Vale a pena escrever? Você tem medo?..” são algumas das questões que eu e Clarice fazemos a Ondjaki. Ele responde a todas essas e muito mais.. Leia na íntegra:

CF – O que é poesia para você?
Ondjaki – Acho que é a poesia que eu leio, que eu gosto de ler, não a que eu faço. A que eu faço fica demasiado pouco-boa, demasiado estranha, para vir a senti-la como poesia. Pode ser – e oxalá que assim seja – que um dia isso se altere. A poesia para mim é a frase que emociona. Também posso olhar para o seu requinte, o seu bom gosto, a sua filosofia, a sua mensagem, mas sobretudo gosto que me agrade, que me acrescente, que me arrebate. Que me sonhe. Que me deixe sonhar.
Sabe, não posso falar em termos universais, nem isto que vou dizer é uma consideração muito preparada, mas acho que Manoel de Barros é poesia. Quase todas as suas frases são poesia. Não me incomoda a tautologia, nem rítmica nem ao nível de conteúdos, pelo contrário: acho que ele sabe o que está a fazer (por um lado); e por outro, acho que ele nem sabe bem o que tem estado a fazer, a dizer, e é por isso que ele me parece um poeta-mesmo. Um poeta verdadeiro. Mas houve frases do músico Adoniran Barbosa, e até momentos cantados, que também me cheiram a poesia, isto para falar de brasileiros. A poesia do angolano Ruy Duarte de Carvalho, embora muito mais elaborada em termos linguísticos, numa busca que é interna mas que é também antropológica, essa poesia é muito boa, muito profunda. Não tenho a mínima dúvida, quando olho a poesia do Ruy, que aquilo é poesia. E quando não tenho dúvidas, quando a sinto tão limpa, importante, profunda, seca, séria, divertida, ternurenta, forte, intensa, então não me restam dúvidas, estou perante um poema…
A poesia também está nos olhares. Sobretudo nos olhares dos velhos e das crianças. Há algo de muito semelhante na inocência do olhar de uma criança que sempre me lembra a candura do olhar dos velhos. Como se ambos seres conseguissem verdadeiramente sorrir pelo lado menos complicado da vida, a criança porque ainda não teve que passar por isso, o velho porque já não se quer preocupar com isso. Então brota a inocência. O mesmo nas mãos: as mãos das crianças e dos velhos são poemas abertos, fáceis de ler, fáceis de encontrar. Nem sempre fáceis de interpretar…

CF – Vinícius de Moraes, em Samba da bênção, cantou que “pra fazer um samba com beleza/ é preciso um bocado de tristeza/ se não não se faz um samba não”. Você diria o mesmo da poesia?
Ondjaki – Há qualquer coisa de nostálgico no interior, no útero, do poema… Há qualquer coisa de humano, e cá dentro do que é humano, muitas vezes, o sangue se move pela força do que não se explica. E às vezes o que não se explica, embora possa não ser totalmente triste, muitas vezes é um pouco melancólico…
Na poesia de Manoel de Barros (é interessante) eu não encontro tristeza. Apenas nostalgia, saudade do berço quotidiano da infância, saudades de uma chão que lhe fugiu dos pés e que agora ele invoca para se devolver à vida-que-já-foi. Isso é bonito. Mas não é triste.
Em Fernando Pessoa acho que há tristeza. É uma tristeza tão grande e profunda que não chega a ser evidente. É a tristeza do poeta que mistura a saudade do passado com a do futuro, só que em Pessoa, acho eu, isso foi mais longe: Pessoa tinha saudades da pessoa, das pessoas, que ele ainda não tinha sido…. Isso intensificou a sua poesia ao ponto de ancorar o que fossem os sentimentos humanos que ele usava. Com “ancorar” quis dizer “transformar em âncora”, e âncora contraditória: uma âncora que navegasse. Pessoa navegava em si e nos outros, nos mares e nos tempos, tanto que teve que se desdobrar para melhor se expressar…
Talvez sim… No fundo mesmo, haja um bocadinho de tristeza em cada poeta…

capa-ondjakitinha aprendido que era muito importante
criar desobjectos.

certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar
o cinzento. não munido de nenhum
artefacto alegre, inventei um espanador de
tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava.
 In: Materiais.., p. 7

 

CF – Como se processa em você a criação?
Ondjaki – Acho que é quase sempre através de esperas. Esperar. Ir sentindo, através da vida, das leituras, das sensações, e depois esperar que a escrita, isto é, o eco desses sentires, apareça em formato literário. É por isso que às vezes a boa estória aparece sob o formato de conto, ou poema, ou livro mais extenso. Mas é com as esperas que funciono melhor, e depois juntar a isso as músicas que eu já sei que provocam emoções boas para escrever. E o milagre vem…

CF – Quando é que você começou a escrever?
Ondjaki – Devo ter começado com os meus cadernos, não eram diários porque não escrevi todos os dias, mas eram cadernos de coisas sérias e internas, de queixumes e rotinas, e depois começaram a aparecer poemas. Também alguns contos. Deve ter sido a partir de 1990… (Mas isso nunca se sabe, a pessoa começa a escrever quando começa a sentir um mundo de um jeito diferente – pressentindo coisas pequenas que não sabe explicar, que não sabe dizer… E isso um dia irrompe, de dentro para fora, e uma urgência nos faz descobrir o caminho. Essa urgência é a escrita… talvez.)

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Marcelino Freire, “mar que arrebenta”

Marcelino FreireAinda aproveitando as férias, estive no evento literário “Boca de Baco”, que está acontecendo aos sábados na Livraria Odeon, na Cinelância. Na estreia, além de lançamentos de livros e leituras de textos, houve uma oficina de narrativas breves com Marcelino Freire. Tive oportunidade de conversar um pouco com o escritor, já pretendia apresentá-lo aqui no Sararau e no quente dia 17 o encontro foi feliz.

Tenho lido alguns escritores brasileiros contemporâneos e, sem sombra de dúvida, Marcelino Freire é um destaque entre tantas linguagens e estilos da nova geração. Seus Contos negreiros me prenderam desde o primeiro instante, levei-os para a sala de aula, para as rodas com amigos, e a cada leitura crescia o impacto da linguagem direta, da pontuação cotidiana, do silêncio significante. Como pequenos socos no estômago que, em uma seqüência permanente, machucam pra valer, os contos são curtos, grossos e cantam em tom irônico-mordaz histórias de um Brasil nada heróico. “Brasil, do meu amor. Terra de nosso sinhô.” são os versos da epígrafe. Logo depois, na apresentação do livro, Xico Sá avisa: “É doce, mas não é mole não”.

Marcelino Freire é pernambucano, tem 41 anos e desde os 23 vive em São Paulo, onde se diz um “estrangeiro”. Com a obra Contos negreiros, publicada em 2005 pela Record, ganhou o prêmio Jabuti de literatura na categoria contos. Angu de Sangue (2000) e Balé Ralé (2003), pela Ateliê Editorial, e seu mais recente Rasif – Mar que arrebenta (2008), pela Record, são outros livros do gênero eleito pelo escritor. Os títulos sugestivos apontam uma marca de Marcelino: escrever a partir de experiências de seu local de origem, colocando em cena personagens e histórias marcados pela exclusão. No nosso bate papo, Marcelino explica que Racif é a origem árabe do nome Recife e que Pernambuco significa “mar que arrebenta”, em tupi-guarani. Suas narrativas nascem exatamente daí.

Histórias que acrescentam, vale lembrar, ao debate sobre a aplicação da lei 10639. Contos negreiros, por exemplo, é uma obra que se insere em um projeto de ensino em diferentes níveis. Cabe ao professor conhecer o material para melhor utilizá-lo. O blog do escritor é um excelente espaço para se obter outras informações: www.eraodito.blogspot.com

No evento do Odeon, Marcelino leu o conto “Trabalhadores do Brasil”, que transcrevo abaixo. Faço uma sugestão: leia-o mais de uma vez, principalmente em voz alta.. Perceba o discurso, as ambiguidades, as possibilidades de leitura.. É realmente “mar que arrebenta”..

 

“Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?

Enquanto a gente dança no bico da garrafinha Ode trabalha de segurança pega ladrão que não respeita quem ganha o pão que o Tição amassou honestamente enquanto Obatalá faz serviço pra muita gente que não levanta um saco de cimento ta me ouvindo bem?

Enquanto Olorum trabalha como cobrador de ônibus naquele transe infernal de trânsito Ossonhe sonha com um novo amor pra ganhar 1 passe ou 2 na praça turbulenta do Pelô fazendo sexo oral anal seja lá com quem for ta me ouvindo bem?

Enquanto Rainha Quelé limpa fossa de banheiro Sambongo bungo na lama e isso parece que dá grana porque o povo se junta e aplaude Sambongo na merda pulando de cima da ponte ta me ouvindo bem?

Hein seu branco safado?

Ninguém aqui é escravo de ninguém.”

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Foto: Claudia Fabiana

Resenha de “O racismo explicado aos meus filhos”

Por Anderson Xavier
(O Sararau recebe mais um colaborador de peso, o professor Anderson Xavier, Mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ. Neste primeiro texto, ele nos traz uma resenha do livro O racismo explicado aos meus filhos, de Nei Lopes, publicado em 2007 pela editora Agir.)

 

racismo-neilopesComo este é meu primeiro escrito destinado a fazer parte do Sararau, seguirei o conselho de Dona Ivone Lara e vou “pisar neste chão devagarinho”. Este texto não é especificamente acerca da literatura africana, contudo creio acertar a veia desse movimento acadêmico-artístico-internético.

Trataremos aqui de O racismo explicado aos meus filhos, de Nei Lopes. Isso posto, contemplamos o feliz neologismo “sararau”, pois trazemos à baila um compositor e escritor de mão cheia, que faz jus à palavra sarau; e, por ser um estudioso dos insumos culturais oriundos do continente africano, nos deixa à vontade para dispormos do vocábulo “sarará”, segundo a música, imanente a todo brasileiro de sangue crioulo.

É sabido que toda análise resulta em dívidas para com o analisado. Conosco não será diferente, porém nosso intuito é iluminar um consistente trabalho de investigação de nossas raízes e problemas. Por meio de um romance-ensaio, Nei Lopes faz um levantamento acerca da origem das diversas formas de manifestação racista, focando principalmente aquela que vitimiza o negro.O núcleo do livro é a família do historiador Paulão (negro) e da Doutora Lia (judia). O casal tem dois filhos, brancos como a mãe, apresentando traços étnicos do pai, sendo assim sararás. O enredo se concentra em diálogos travados entre os membros dessa família, nascidos das experiências de cada um.

As conversas são comandadas quase sempre pelo professor Paulão que faz verdadeiras palestras, enriquecendo o conteúdo do texto. No entanto, se pensarmos a construção de um romance, constataremos que as conversas tateiam o inverossímil, quando consideramos os temas abordados e o modo como são travados tais diálogos.

Se encaramos o livro como um ensaio acerca da existência humana e uma de suas mais delicadas questões, o racismo, perceberemos um texto refinado e com uma preocupação ética que deveria fazer parte não só das palestras de Paulão, mas de toda e qualquer assembléia, seja futebolística, política ou sambista.

O livro é composto por 16 capítulos que abordam desde o criticismo ao “racismo cientifico” do século XIX até uma das polêmicas do século XXI: “a questão das cotas”. Nei Lopes faz crítica e literatura em um projeto eticamente eficaz e eficiente, com algumas dívidas estéticas.

O racismo explicado aos meus filhos pode apresentar problemas estéticos, contudo presta um serviço incomensurável ao povo brasileiro. Pela composição pluriétnica da família de Paulão, podemos percebê-la como um retrato do Brasil. Sendo assim, o professor explica a todos nós, brasileiros (seus filhos), a dor que é o racismo. Por meio da investigação das origens das questões étnicas, Nei Lopes nos oferece um significativo cabedal de informações sobre nossa gente, de modo genuíno e verdadeiro.

A posse de Obama e a magia do simulacro da nossa posse

 Por Simone Ribeiro da Conceição

Luz, câmera e a ação de uma mega estrutura técnica conectam o mundo com imagens da posse de Obama.
A transmissão concretiza o “we can”. Nós podemos estar lá, tomar posse e viver a emoção de um evento simbólico para a diáspora negra e para a afirmação do respeito à diversidade.
Temperatura e expectativas negativas não afugentam a multidão que se acumula em Washington. Animada, a massa toma posse do local. Em todas as partes do mundo, transmissões são anunciadas. Elas são ingresso para que uma multidão incalculável participe da cerimônia como platéia virtual.
Assistimos hoje a uma representação. Como sociedades do simulacro, a representação nos fascina. Digitalizada, plasmada e ampliada nos telões consumidos pelos mais ávidos, as imagens de cada etapa da posse do novo presidente dos Estados Unidos registram o ineditismo dos passos negros em direção à Casa Branca.
A magia da técnica está em nos permitir compartilhar essa caminhada e tomar como nossa a sensação da posse. A experiência de, enquanto negros, experimentar reconhecer-se na imagem. Experienciar a identificação com os protagonistas. Envaidecer com a beleza, o talento e a competência, até aqui demonstrada pelo casal Obama.
O show da posse é um show da técnica. Nas horas que aproximam o futuro presidente dos futuros problemas, o circo high-tech descontrai a audiência e faz esquecer o pão ou as dificuldades em ter um trabalho para obter esse e outros alimentos do corpo e da alma.
A cultura do espetáculo transforma os eventos em espetáculo. A diferença na próxima atração é que há muita emoção no ar. Não precisaremos de cristais, a técnica e reprodutibilidade técnica nos apresentarão as imagens que nos trarão reflexões e inevitáveis lágrimas. Filmadas e fotografadas, as imagens da posse servirão ao futuro como memória de um momento de união de todos em torno da representação de um evento que confirma que podemos mudar. E porque não crer que podemos melhorar?!

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Foto: Claudia Fabiana

Elisa Lucinda e a Casa Poema

casa poemaEstou de férias desde as vésperas do Natal e só agora volto a escrever no Sararau e a pensar em projetos no novo ano.. Tenho caminhado todos os dias, respirando o verão e observando belas e diversas paisagens do Rio: a orla da zona sul, a arquitetura e o movimento do Centro, as miudezas do Saara, os labirintos do Grajaú, a lua cheia nos casarios de Santa Teresa, a Lagoa com olhar a 360˚, o bairro da Urca, a minha própria rua. Ainda ontem fui à Casa Poema, bem aqui ao lado. Descobri o lugar no ano passado e há muito me prometia passar por lá para conhecê-lo.

A Casa Poema abriga a Escola Lucinda de Poesia Viva, criada pela poeta e atriz Elisa Lucinda em 1998. Ela oferece cursos e oficinas de poesia falada para adultos e crianças durante todo o ano. A idéia é mostrar que a poesia está no cotidiano e ler, falar um poema pode ser muito prazeroso e enriquecedor. Juliana Garcia, uma das professoras da equipe de Elisa, conversou comigo durante a minha visita e reforçou a proposta da escola: “Falar poesia sem ser chato”. E comentou que além das aulas despertarem situações curiosas de aprendizado, os recitais organizados ao final de cada curso são sempre motivadores de novas experiências. Há aqueles que sempre dizem em tom de descoberta: “Mas poesia é legal mesmo!”

A falsa ideia de que poesia é algo chato vem principalmente de uma educação desvinculada da realidade e do prazer de ler e de estudar. Metodologias ultrapassadas, aulas descomprometidas com a formação intelectual e raros acessos aos bens culturais, tanto por alunos quanto por professores, são alguns dos fatores que contribuem para o afastamento da poesia das escolas e da vida. É certo que há aqueles que gostam mais do gênero e outros não. Contudo, todos deveriam experimentar, certamente há prazeres a serem descobertos.. Eu, por exemplo, nunca vou me esquecer da minha avó preparando o almoço e eu sentada na mesa da cozinha lendo Fernando Pessoa. Ela balançava a cabeça toda vez que discordava de um verso, e depois falava de cor “O pássaro cativo”, de Olavo Bilac. Quanto ensinamento em uma simples manhã da minha adolescência..

Fiquei surpresa quando descobri uma afinidade de Elisa Lucinda com o poema de Bilac. Ela conta essa e outras histórias em uma conversa com Rubem Alves sobre poesia e educação, publicada recentemente pela editora Papirus, no livro chamado A poesia do encontro (2008). O bate papo dos dois percorre veredas poéticas que nos ensinam caminhos novos e nos fazem recuperar estradas antigas. O livro traz ainda um DVD do encontro, o filme “Poesia à vista”, que serve inclusive como material didático.

Para quem não conhece a poesia de Elisa Lucinda, posso dizer que ela é também outra experiência de encontro e renovação. Desde o seu poema “Aviso da lua que menstrua”, que me foi apresentado pela Cinda, professora especial da graduação, e que vibra na voz da minha amiga Fabiana, admiro o trabalho da poeta, sua linguagem e seu compromisso com a transformação. Entre os livros publicados estão O semelhante (1994), Eu te amo e suas estréias (2003) e A fúria da beleza (2006).

Enfim, aí estão as primeiras dicas de 2009. A Casa Poema, Escola Lucinda de Poesia Viva fica na Rua Paulino Fernandes, 15. Há workshops que acontecerão na última semana de janeiro. O site da casa é www.escolalucinda.com.br . Lá você encontra outras informações e todo um histórico do trabalho de Elisa Lucinda e sua equipe. E.. para ficar um gostinho de quero mais, ouça “O poema do semelhante”, faixa do CD “O semelhante”, em download a partir do site da Escola Lucinda.

Todo cabo-verdiano é um pouco… Poeta

Por Augusta ETT

“Eu nasci na ponta-da-praia
por isso trago dentro de mim
todos os mares do Mundo”
(Ovídio Martins)

Você, Caro Leitor, certamente já ouviu dizer que todo cabo-verdiano é um pouco músico. Eu conto-lhe um segredo: na verdade, todo cabo-verdiano é um pouco… poeta. Falo da poesia que existe antes do poema e da prosa. Falo do cuidado, do esmero que é a ação do ritmo, da seleção criteriosa das palavras; as rimas, as imagens… e outras mil estratégias de textualidade lírica _ os ditos recursos estilísticos.

No falar e no escrever próprios dos cabo-verdianos, numa cultura herdeira e conviva da tradição oral, eis que a musicalidade intrínseca ao contar das estórias e do bater do pilão, do batuque e do finason, dos choros das visitas de pêsames e dos rituais matrimoniais, torna-se mana da arte da palavra. Tudo são poemas: ditos, cantados ou chorados. Versos que ora beiram à epopeia em memória do morto, ora lhe lastimam a saudade. Embalado pelo mesmo Mar que leva os bilhetinhos de saudade e os suspiros salgados das cristas das ondas, o homem crioulo é e se faz com o outro um pouco… poeta. Continue reading →

Cabo Verde: terra do ka tem?

Por Augusta ÉTT

Didikason:
Pa: Zé, Clarissa y Isabel
Nha Txon, Nha Séu, Nha Sol:
Mar di nha Pêtu*

cabo-verde-guta

O Povo das Ilhas Quer um Poema Diferente para o Povo das Ilhas.
Onésimo Silveira

Diz a sabedoria popular que a razão por que Cabo Verde é a terra do Ka tem prende-se com a sua origem. Esta não é uma terra moldada e criada por Deus, como foram outras terras. Não foi o barro que deu forma, onde depois se fizeram terras… terras onde há chuva e há fartura; onde a chuva vem sempre e quando vem não mata a gente; essas são terras feitas por Deus Nossenhor. Cabo Verde teria sido _ diz o povo _ dez respingos de lama que o Pai do Céu sacudiu após seis dias de trabalho. Dez dedos sujos de um barro desorientado, das duas mãos celestes, fazem cair, no meio do mar: da mão esquerda o Barlavento e da direita o Sotavento. Obra do acaso.

Entre 1460-1462 navegadores portugueses descobrem dez ilhas e cinco ilhéus que compõem o arquipélago de Cabo Verde. Dois grupos de ilhas e uma superfície de 4033km2, com um clima tropical seco. Foi nesse balão de ensaio que teve vez uma das experiências mais espantosas de miscigenação na era moderna. Continue reading →

Parceria Atlântica

O Sararau tem o prazer de anunciar uma parceria atlântica com a cabo-verdiana Augusta Évora, diretamente da cidade da Praia, na ilha de Santiago. Ela é licenciada em Letras pela UFF, Universidade Federal Fluminense, em Niterói, Brasil, e pós-graduada em Formação de Educadores de Infância em Coimbra, Portugal, e em Estudos Africanos pela Universidade do Porto, onde também fez um Mestrado. Lecionou em inúmeras instituições de ensino em Cabo Verde, como o Instituto Superior de Educação e o Liceu Amílcar Cabral. É quadro da Assembléia Nacional onde ocupa o cargo de redatora, desde 1999, e cursa o Mestrado em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na UFF.

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